Displasia Microvascular Hepática em Cães: Diagnóstico, Exames e Manejo Nutricional | Relato Clínico
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As alterações vasculares hepáticas congênitas, como a displasia microvascular hepática (DMH), representam um desafio diagnóstico significativo na medicina veterinária. Frequentemente, os sinais clínicos iniciais são inespecíficos e podem ser confundidos com doenças neurológicas, metabólicas ou gastrointestinais.
Este relato clínico descreve a evolução de uma cadela Shih-Tzu com DMH associada à hipoplasia primária da veia porta, evidenciando o processo diagnóstico, exames realizados e o manejo clínico e nutricional com ênfase na dieta Royal Canin Hepatic Canine.
Histórico do Paciente
Panqueca, uma cadela Shih-Tzu fêmea castrada, com 5 anos e 8 meses, começou a apresentar crises convulsivas recorrentes desde 1 ano e 9 meses de idade. Inicialmente, o quadro foi diagnosticado como epilepsia idiopática e tratada com anticonvulsivantes, mas a resposta clínica foi insatisfatória, o que levou à investigação de causas subjacentes.
Dados do Paciente:
- Nome: Panqueca
- Espécie: Canina
- Raça: Shih-Tzu
- Idade: 5 anos e 8 meses
- Peso: 8,5 kg
- Escore de Condição Corporal (ECC): 8/9
- Alimentação anterior: alimentação natural (há cerca de 1 ano); anteriormente, dieta comercial para obesidade.
Histórico Medicamentoso:
- Fenobarbital 40 mg TID
- Levetiracetam TID
- Brometo de potássio
Esses medicamentos eram administrados para controle das crises convulsivas.
Primeiros sinais clínicos e suspeita de alteração hepática
Em agosto de 2023, a paciente apresentou um episódio de cistite com formação de urólitos, o que levantou a suspeita de alterações metabólicas. Após a remoção cirúrgica dos cálculos, a análise dos urólitos sugeriu a necessidade de investigação para um possível shunt portossistêmico.
Exames Complementares Solicitados:
- Triglicerídeos
- Ácidos biliares (pré e pós-prandial)
Os resultados desses exames confirmaram a necessidade de investigar possíveis alterações vasculares hepáticas.
Exames de imagem e avaliação hepática
Para investigar a hipótese de shunt portossistêmico, foi realizada tomografia computadorizada contrastada (TC), utilizando técnica multislice com reconstruções multiplanares de 3 mm, com e sem contraste intravenoso. Os principais achados foram:
- Aumento das dimensões do fígado, principalmente nos lobos esquerdos.
- Arquitetura vascular preservada.
- Presença de microlitiases na bexiga urinária, que sugeriram a cistite com urólitos.
Apesar dos achados hepáticos, não foi identificada a presença de shunt na tomografia, o que reforçou a necessidade de investigação adicional.

Figura 1: Resultado da tomografia contrastada mostrando as dimensões aumentadas do fígado e a presença de microlitiases na bexiga urinária.
A ultrassonografia abdominal revelou hepatomegalia discreta e parênquima hepático com ecotextura grosseira, sugerindo hepatopatias difusas. Além disso, a bexiga urinária apresentou:
- Múltiplos cálculos urinários.
- Espessamento da parede vesical, compatível com cistite.

Figura 2: Imagem da ultrassonografia mostrando hepatomegalia discreta e alterações na bexiga urinária com a presença de cálculos.
Investigação diagnóstica aprofundada
Embora a tomografia não tenha evidenciado shunt portossistêmico, a suspeita clínica de uma alteração hepática persistiu. Para confirmar o diagnóstico, foi indicada a realização de uma biópsia hepática. O exame histopatológico revelou:
- Degeneração vacuolar dos hepatócitos, com predominância de degeneração glicogênica.
- Ectasia angiolinfática e presença de duplicação arteriolar.
- Proliferação de ductos biliares e infiltrado inflamatório.
Com base nesses achados, o diagnóstico definitivo foi Displasia Microvascular Hepática associada à Hipoplasia Primária da Veia Porta.

Figura 3: Imagem da biópsia hepática com as características de degeneração vacuolar e presença de depósitos de hemossiderina. Descrição da biópsia: A análise microscópica revela seis secções similares de tecido hepático, as quais, exibem hepatócitos tumefeitos, com marcada degeneração vacuolar variável e multifocal (favorável para predomínio de degeneração glicogênica evidenciada pela coloração especial de Ácido Periódico de Schiff PAS) e frequente diploidia hepatocitária. Notam se em alguns campos, moderada ectasia angiolinfática acompanhada de discreta dilatação de veias portais fora indícios de ocasional duplicação arteriolar. Observam se frequentes ductos biliares proliferados, concomitante a discreto infiltrado inflamatório misto e disperso, envolvendo região periportal e central, e composto por linfócitos, plasmócitos e macrófagos repletos por pigmentos acastanhados. Os hepatócitos centrolobulares exibem inchaço e degeneração celular variável A coloração especial de Perls revela discreta presença para a pigmentos de hemossiderina ao redor portal, mediozonal e centrolobular A coloração especial de Tricrômio de Masson apresenta discreta fibroplasia ao redor de espaços portais e veias centrolobulares.
O que é Displasia Microvascular Hepática?
A Displasia Microvascular Hepática (DMH) é uma condição congênita caracterizada por alterações microscópicas na circulação hepática. As principais características incluem:
- Redução ou ausência de ramos da veia porta.
- Alterações na arquitetura vascular intra-hepática.
- Desvio do fluxo sanguíneo portal, o que prejudica a capacidade do fígado de detoxificar o organismo, levando ao acúmulo de toxinas no sangue e ao desenvolvimento de encefalopatia hepática.
A DMH é frequentemente associada à hipoplasia primária da veia porta, como no caso de Panqueca.
Tratamento instituído
Tratamento medicamentoso
- Nitrofurantoína: para tratamento da infecção urinária.
- Bezafibrato: para controle lipídico.
- Ácido ursodesoxicólico e Silibinina + Vitamina E + SAMe: para suporte hepático.
- Lactulose: para controle da encefalopatia hepática.
Manejo Nutricional:
A dieta Royal Canin Hepatic Canine foi indicada como parte crucial do protocolo terapêutico. Ela contém:
- Proteínas de alta digestibilidade para reduzir a sobrecarga metabólica do fígado.
- Alto teor energético, evitando a sobrecarga intestinal.
- Nutrientes específicos que ajudam a reduzir os sinais da insuficiência hepática e a melhorar a função hepática.
A adaptação alimentar exigiu um período de transição gradual, já que inicialmente a paciente apresentou menor aceitação do alimento. Com tempo e manejo adequado, a dieta foi incorporada à rotina alimentar.
O plano nutricional incluiu:
- Três refeições diárias, com porções rigorosamente pesadas para evitar excessos;
- Estratégia de mix feeding, com o uso dos alimentos Hepatic seco e úmido, facilitando a aceitação alimentar;
- Estímulo à maior ingestão hídrica, contribuindo também para a diluição urinária.
Após a introdução da dieta Royal Canin Hepatic Canine, a paciente não apresentou novos episódios de encefalopatia hepática ou crises convulsivas associadas ao quadro metabólico, reforçando a importância do manejo nutricional como parte fundamental do tratamento de suporte em hepatopatias crônicas.

Figura 4: Manejo nutricional com Royal Canin Hepatic Canine, destacando a pesagem do alimento e o estímulo à ingestão hídrica.
Evolução clínica e controle da encefalopatia hepática
Após 15 dias de tratamento com a dieta Hepatic e a medicação, Panqueca não apresentou novos episódios de encefalopatia hepática ou crises convulsivas. Os exames laboratoriais mostraram:
- Redução de triglicerídeos.
- Melhora de enzimas hepáticas como ALT e FA.

Figura 5: Exames laboratoriais após 15 dias de tratamento, mostrando melhorias significativas.
Prognóstico e acompanhamento
A Displasia Microvascular Hepática (DMH) é uma condição crônica e, atualmente, não tem cura. O foco do tratamento é:
- Controle clínico.
- Suporte nutricional.
- Monitoramento contínuo das enzimas hepáticas.
Panqueca será reavaliada em 60 dias, com ajustes no tratamento conforme a evolução clínica.
Considerações finais
Este caso clínico ilustra a complexidade das doenças hepáticas congênitas em cães, com ênfase na importância de uma investigação diagnóstica profunda e manejo nutricional adequado. A transição para a dieta Royal Canin Hepatic Canine foi fundamental para o controle dos sinais clínicos e a melhora da qualidade de vida da paciente.
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