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Heterocromia em gatos e cães: o que é e como acontece

Heterocromia em gatos e cães: o que é e como acontece
Atualizado em 5 de maio de 2026
Tempo de leitura: 8min
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Saiba o que é heterocromia em gatos e cães, seus tipos e causas e quando essa condição pode representar um sinal de alerta sobre a saúde do paciente.

A coloração da íris em gatos e cães resulta de um processo complexo de deposição e distribuição de melanina durante o desenvolvimento embrionário. Alterações nesse processo podem resultar em heterocromia, uma condição caracterizada pela diferença de cor entre a íris ou em segmentos da mesma íris

Embora frequentemente percebida como uma característica estética, a heterocromia em gatos e cães pode ter origem genética, congênita ou adquirida e, em determinados contextos, pode estar associada a doenças sistêmicas ou oftálmicas. Assim, o conhecimento aprofundado dessa condição é fundamental para a correta abordagem clínica veterinária.

 

O que é heterocromia?

Heterocromia é definida como a variação de coloração da íris entre os dois olhos (heterocromia bilateral) ou dentro de um mesmo olho (heterocromia unilateral segmentar). 

Essa variação ocorre principalmente em função de diferenças na concentração ou na distribuição da melanina estromal da íris, sem necessariamente implicar comprometimento funcional ocular (SILVA et al., 2021).

A heterocromia acomete mais gatos ou cães?

A heterocromia em gatos é observada com maior frequência, especialmente em indivíduos de pelagem branca ou predominantemente branca. Em cães, embora menos prevalente na população geral, é fortemente associada a determinadas raças, como o Husky Siberiano, onde há clara base genética descrita (DEANE-COE et al., 2018).

Então quais raças de cães e gatos são mais propensas a desenvolver heterocromia?

As raças mais propensas à heterocromia canina são Husky Siberiano, Border Collie, Pastor Australiano, Cão Leopardo Catahoula e raças com padrão de pelagem merle. Já a heterocromia felina é mais frequente em indivíduos de pelagem branca, incluindo raças como Angorá Turco, Khao Manee e Persa branco, embora também ocorra em gatos sem raça definida (CATTREE, 2025).

 

Como a heterocromia acontece?

A compreensão dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento da heterocromia em gatos e cães exige a análise integrada de fatores embriológicos, genéticos e patológicos que podem influenciar na pigmentação da íris.

Vamos conferir detalhadamente as principais causas relacionadas à heterocromia em gatos e cães.

Falha na distribuição de melanina

A coloração da íris é determinada principalmente pela quantidade, tipo e organização da melanina presente no estroma iridiano, e não pelo número absoluto de melanócitos. Essas células, derivadas da crista neural, podem estar presentes em densidade semelhante entre indivíduos, porém com atividade melanogênica distinta, o que resulta em variações cromáticas significativas da íris (SILVA et al., 2021).

Durante a embriogênese, a deposição de melanina ocorre de forma progressiva e coordenada. Falhas localizadas nesse processo, seja por redução funcional da síntese de melanina, seja por distribuição irregular do pigmento no estroma anterior da íris, levam à formação de áreas hipopigmentadas. Essas áreas permitem maior dispersão da luz incidente, produzindo coloração azulada ou acinzentada por efeito óptico, mesmo na presença de melanócitos estruturalmente íntegros (SILVA et al., 2021).

Fatores hereditários

A heterocromia em gatos e cães apresenta forte associação com fatores hereditários, particularmente genes envolvidos na migração, diferenciação e função dos melanócitos durante o desenvolvimento embrionário. Essas alterações genéticas influenciam diretamente a quantidade e a distribuição de melanina na íris, determinando padrões de hipopigmentação ocular que podem se manifestar de forma bilateral, unilateral ou segmentar (SILVA et al., 2021).

Em cães, um estudo genômico com mais de 6.000 indivíduos identificou que uma duplicação de 98,6 kb localizada em uma região intergênica próxima ao gene ALX4 está fortemente associada com olhos azuis e heterocromia em cães da raça Husky Siberiano, ocorrendo independentemente do padrão de pelagem merle. Os achados indicam que a duplicação afeta a regulação de genes envolvidos na morfogênese ocular e na pigmentação da íris, resultando em redução da deposição de melanina no estroma iridiano, mesmo na presença de melanócitos estruturalmente normais (DEANE-COE et al., 2018).

Já os fatores hereditários relacionados à heterocromia em gatos estão intimamente ligados aos genes responsáveis pela despigmentação da pelagem, especialmente o gene White (W) e genes associados ao padrão de spotting. A expressão do gene W interfere na migração dos melanoblastos derivados da crista neural durante a embriogênese, levando à ausência parcial ou total dessas células em determinadas regiões do corpo, incluindo a íris. Como consequência, ocorre deposição insuficiente ou inexistente de melanina, resultando em íris azuladas ou em diferenças marcantes de coloração entre os olhos (CATTREE, 2025).

Heterocromia adquirida

A heterocromia em gatos e cães também pode ser adquirida ao longo da vida, sendo considerada sempre um achado clínico relevante. Diferentemente das formas anteriormente citadas, essa apresentação geralmente reflete processos patológicos que interferem na integridade estrutural da íris ou na atividade melanocítica local, exigindo investigação oftálmica completa (SILVA et al., 2021).

Processos inflamatórios crônicos (uveítes), neoplasias intraoculares, trauma, glaucoma, degeneração da íris e uso prolongado de fármacos oftálmicos podem alterar a coloração da íris. Clinicamente, a heterocromia adquirida costuma ser unilateral e pode acompanhar sinais clínicos como miose, flare aquoso, dor ocular e redução da pressão intraocular (SILVA et al., 2021). 

Nesses casos, a heterocromia não é apenas uma variação estética, mas um possível indicativo de doença ocular subjacente.

 

Tipos de heterocromia

Pode-se evidenciar três tipos distintos de heterocromia em gatos e cães:  

Figura 1: Heterocromia completa em um felino branco.

 

Heterocromia completa

A heterocromia completa caracteriza-se por coloração distinta entre os dois olhos, como um olho azul e outro âmbar. É a forma mais facilmente reconhecida e comum em gatos brancos e em raças caninas predispostas.

Heterocromia parcial

Também chamada de setorial, a heterocromia parcial ocorre quando apenas um segmento da íris apresenta coloração diferente do restante. Pode ter origem congênita ou estar associada a processos inflamatórios locais.

Heterocromia central

Já a heterocromia central consiste em um anel central de coloração diferente ao redor da pupila, com o restante da íris apresentando outra tonalidade. É menos comum em cães e gatos, mas descrita tanto em humanos quanto em animais.

 

A heterocromia prejudica a visão?

Na maioria dos casos congênitos, a heterocromia em gatos e cães não compromete a acuidade visual. No entanto, quando adquirida, pode estar associada a doenças que afetam estruturas intraoculares, como uveíte anterior ou glaucoma, situações nas quais há risco real à visão se não houver diagnóstico e tratamento precoces (SILVA et al., 2021).

 

Perguntas frequentes sobre heterocromia em gatos e cães

A heterocromia é hereditária?

A heterocromia em cães e gatos pode ser hereditária, associada a genes ligados à pigmentação da pelagem e da íris, especialmente em raças predispostas.

Filhotes podem nascer com olhos azuis e depois mudar?

Sim. Filhotes de gatos e cães podem nascer com olhos azulados, cor que muda à medida que ocorre a deposição progressiva de melanina nas primeiras semanas de vida.

A heterocromia causa dor ou desconforto?

A heterocromia adquirida pode estar associada a enfermidades oculares que podem causar dor e/ou desconforto.

Heterocromia adquirida é perigosa?

Pode ser. Por isso, alterações adquiridas na cor da íris devem sempre ser investigadas clinicamente com exame oftalmológico completo.

Animais com heterocromia enxergam menos?

Não necessariamente. A maioria apresenta visão normal, exceto quando há doença ocular associada.

A heterocromia é mais comum em animais com pelagem branca?

Sim. Existe forte correlação entre ausência de pigmentação cutânea e falhas na migração de melanócitos oculares, descrita principalmente em gatos.

É verdade que animais de olhos claros são mais sensíveis à luz?

Animais com menor quantidade de melanina podem apresentar maior sensibilidade à luz intensa, embora isso raramente resulte em comprometimento clínico significativo.

Animais com heterocromia podem cruzar?

Sim. Do ponto de vista reprodutivo não há impedimento de cruza para animais que apresentam heterocromia, a não ser que existam doenças oculares relacionadas.

 

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Referências:   

CATTREE. Understanding Cats with Different Colored Eyes. Disponível em: https://cattree.uk/understanding-cats-with-different-colored-eyes/. Acesso em: 16 dez. 2025.

DEANE-COE, P.E. et al. Direct-to-consumer DNA testing of 6,000 dogs reveals 98.6-kb duplication associated with blue eyes and heterochromia in Siberian Huskies. PLoS Genet, v.14, n.10, 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30286082/. Acesso em: 16 dez. 2025.

SILVA, D.M. Segmentação De Imagens De Felinos Na Percepção Da Heterocromia Usando Técnica De Processamento De Imagens. UFRN, 2023. Disponível em: https://eb.ct.ufrn.br/wp-content/uploads/2024/02/TCC_2023.2_DANIELA-MAIA-DA-SILVA.pdf. Acesso em: 16 dez. 2025.

SILVA, L.F. et al. Heterocromia de íris: uma revisão das condições que podem afetar a pigmentação iridiana. Rev. Bras. Oftalmol., v.80, n.6, 2021. Disponível em: https://www.rbojournal.org/wp-content/uploads/articles_xml/0034-7280-rbof-80-06-e0050/0034-7280-rbof-80-06-e0050.pdf. Acesso em: 16 dez. 2025.

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