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TVT canino - Guia completo sobre o tumor venéreo transmissível

TVT canino - Guia completo sobre o tumor venéreo transmissível
Publicado em 7 de outubro de 2025
Tempo de leitura: 10min
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Entenda todas as características do tumor venéreo transmissível em cães e saiba como abordar o paciente acometido, desde a conduta diagnóstica até o tratamento.

O tumor venéreo transmissível canino (TVT canino) é uma neoplasia maligna contagiosa, de células redondas, que afeta cães em diferentes regiões do mundo. É particularmente prevalente em áreas com populações caninas de vida errante e controle reprodutivo ineficiente, sendo considerado endêmico na maioria dos países de baixa renda, particularmente em locais da América Latina, África, Europa Oriental e Ásia (PIMENTEL et al.1, 2025).

Entender as características clínicas, histopatológicas e epidemiológicas do TVT canino é fundamental para o diagnóstico assertivo e para a escolha certeira do tratamento, levando à cura do paciente.

O que é o TVT canino?

O TVT canino é uma neoplasia alogênica, originada de um clone celular que se mantém estável e é transmitido de um animal para outro por inoculação direta das células tumorais (PIMENTEL et al.2, 2025).

Diferente de tumores convencionais, em que o desenvolvimento decorre de mutações próprias do indivíduo, o tumor venéreo transmissível é composto por células neoplásicas que se comportam como um enxerto homogêneo entre os cães, sendo, portanto, um exemplo único de tumor transmissível naturalmente (FARO & OLIVEIRA, 2023).

A localização anatômica mais comum da TVT canino é a genitália, envolvendo a vulva e a vagina em fêmeas e o pênis e o prepúcio em machos. No entanto, manifestações não genitais, tais como a cutânea, a nasal e a oral também podem ocorrer por implantação (PIMENTEL et al.1, 2025).

Aproximadamente 5 a 17% dos casos de tumor venéreo transmissível canino apresentam potencial metastático, disseminando-se por vias sanguíneas ou linfáticas. Em 2024, inclusive, foi relatado um caso de TVT canino disseminado em glândulas mamárias de uma cadela de 5 anos de idade, sem raça definida, atendida no Hospital Veterinário de uma universidade no Irã, cujo diagnóstico foi confirmado através de exames histopatológico e imunohistoquímico (ALIDADI, 2024).

Como ocorre a transmissão do TVT canino?

Entenda quais são as principais formas de transmissão do TVT canino e quais fatores de risco podem estar relacionados ao desenvolvimento da enfermidade.

Principais formas de contágio

A transmissão do TVT canino ocorre, essencialmente, por contato direto entre cães durante o coito, quando células tumorais viáveis são implantadas na mucosa genital do parceiro (PIMENTEL et al.1, 2025).

Apesar da via sexual ser a principal forma de contágio, o tumor venéreo transmissível também pode ser disseminado por lambedura, mordedura ou contato com áreas afetadas, permitindo a implantação das células neoplásicas em mucosas extragenitais, como a nasal e a oral (FARO; OLIVEIRA, 2023).

A transmissão indireta, por fômites, é considerada improvável, visto que as células tumorais possuem baixa viabilidade em ambiente externo.

Predisposição e fatores de risco para o desenvolvimento de TVT em cães

Os principais fatores predisponentes para a evolução de um caso de TVT canino incluem:

  • cães não castrados e de vida errante, pela maior exposição ao contato sexual ou à lambedura/mordedura de lesões em animais acometidos;
  • alta densidade populacional canina, que favorece a disseminação;
  • viver em regiões onde a doença é considerada endêmica, assim como países da América Latina, África, Europa Oriental e Ásia (PIMENTEL et al.1, 2025).

Principais sinais clínicos de TVT em cães

As manifestações clínicas do TVT canino variam conforme a localização. Em genitália, são comuns massas friáveis, hemorrágicas e ulceradas, que podem causar secreção serossanguinolenta, disúria e lambedura excessiva da região (PIMENTEL et al.1, 2025).

Sinais de TVT canino vulvar
Figura 1: Tumor venéreo transmissível canino vulvar em uma cadela de 1 ano de idade. Fonte: PIMENTEL et al.1, 2025.

Em sítios extragenitais, podem ocorrer massas nasais com epistaxe e obstrução respiratória, orais com halitose e dificuldade de preensão alimentar, e oculares com protrusão conjuntival e secreção (ALIDAD, 2025).

Mais exemplos de sinais de indicam TVT canino
Figura 2: TVT canino em uma cadela mestiça de 10 anos de idade. A) Massa friável, semelhante a uma couve-flor, na cavidade oral. B) Deformidade do plano nasal devido à extensão da massa em direção ao nariz e ao olho do mesmo lado. Fonte: REZAEI et al., 2016).

Possíveis complicações e prognóstico do Tumor Venéreo Transmissível Canino

Os animais acometidos pelo tumor venéreo transmissível canino estão passíveis à ocorrência de algumas complicações, assim como a disseminação metastática (rara), acometendo linfonodos e até glândulas mamárias (ALIDAD, 2025).

Também pode ocorrer infecções secundárias em tumores ulcerados, hiporexia/anorexia (principalmente em casos de lesões orais), perda de peso e fraqueza e debilitação do paciente.

O prognóstico é geralmente favorável, pois o TVT canino apresenta boa resposta terapêutica à quimioterapia, com altas taxas de remissão completa, sobretudo em animais imunocompetentes (PIMENTEL et al.2, 2025).

Como é feito o diagnóstico do TVT canino?

Estar diante de um caso suspeito de tumor venéreo transmissível canino exige que o médico-veterinário siga uma abordagem adequada para se obter o diagnóstico assertivo e, consequentemente, para a adoção da melhor conduta terapêutica.

Para isso, é importante que o profissional siga os procedimentos abaixo ao longo o atendimento:

1. Histórico e anamnese

Durante a anamnese, é fundamental que o médico-veterinário investigue se o animal tem acesso à rua, se há contato com outros cães errantes ou se há histórico de acasalamento sem controle, além de sinais clínicos genitais ou extragenitais.

2. Exame físico e inspeção

O profissional deve, então, realizar um exame clínico completo, averiguando todos os parâmetros vitais e inspecionando todo o paciente. A visualização direta das lesões características já é altamente sugestiva, especialmente quando há massas genitais típicas.

3. Exames complementares

Após estabelecer a suspeita clínica para TVT canino, exames complementares como hemograma completo, testes bioquímicos e urinálise podem ser solicitados para avaliar o estado geral do paciente.

A citologia aspirativa por agulha fina é considerada o teste laboratorial padrão-ouro para diagnóstico do tumor venéreo transmissível canino, evidenciando células com vacúolos citoplasmáticos claros e arredondados, frequentemente descritos como um “colar de pérolas”, conforme evidenciado na figura 3 (CHU, 2024).

Células de um paciente com TVT Canino
Figura 3: Tumor venéreo transmissível (TVT). As células geralmente contêm um número pequeno a moderado de vacúolos arredondados, semelhantes a um colar de pérolas (aumento de 40×). Fonte: CHU, 2024.

Exames complementares como histopatológico e imunohistoquímica podem ser necessários em casos atípicos ou para diferenciação de outros tumores de células redondas (ALIDAD, 2025).

Diagnóstico diferencial de TVT: quais outras doenças podem ser investigadas?

No diagnóstico diferencial de TVT canino, o médico-veterinário deve considerar principalmente outras neoplasias, assim como:

  • linfoma;
  • mastocitoma;
  • plasmocitoma;
  • carcinoma de células escamosas;
  • histiocitoma (CHU, 2024).

Tratamento do TVT canino

A primeira escolha de tratamento para o tumor venéreo transmissível canino é a quimioterapia com sulfato de vincristina. Já foi demonstrado que a administração intravenosa semanal de vincristina durante 4 a 6 sessões resultou em uma taxa de remissão completa de 93,1%. Já a extensão do tratamento para oito sessões aumentou a taxa de remissão completa para 98,9% (PIMENTEL et al.2, 2025).

Porém, como alguns casos não respondem à vincristina devido ao desenvolvimento de quimiorressistência, outras opções são sugeridas como segunda linha de tratamento. Dentre elas podemos citar radioterapia, lomustina, doxorrubicina e excisão cirúrgica (PIMENTEL et al.1, 2025).

Por fim, casos refratários podem se beneficiar de protocolos combinados (PIMENTEL et al.1, 2025).

A importância da prevenção

A educação dos tutores e o manejo sanitário adequado são fundamentais para reduzir a disseminação do TVT canino. Sendo assim, a prevenção da enfermidade envolve principalmente programas de castração para controle populacional, além da redução do contato entre cães errantes e domiciliados, evitando cruzamentos não supervisionados (FARO & OLIVEIRA, 2023).

Dúvidas frequentes sobre o TVT canino

Confira outras dúvidas frequentes sobre a neoplasia.

Como ocorre a transmissão do TVT nos cães?

A transmissão ocorre principalmente por contato direto durante o acasalamento, podendo também ocorrer por contato, lambedura, mordedura em regiões tumorais.

O TVT canino é uma zoonose?

Não, o TVT canino não é considerado uma doença de caráter zoonótico.

O Tumor Venéreo Transmissível (TVT) tem cura definitiva?

Sim. O tratamento com quimioterapia, sobretudo com vincristina, apresenta elevadas taxas de cura definitiva.

O TVT canino acomete apenas regiões genitais?

Não. Embora as regiões genitais sejam as mais comuns, há relatos de acometimento extragenital, incluindo mucosa nasal, oral, pele e até glândula mamária.

Qual exame realizar para diagnosticar TVT em cães?

O padrão-ouro é a citologia aspirativa por agulha fina.

O TVT em cães é contagioso?

Sim, é contagioso entre cães, mas não há risco de transmissão para humanos.

Qual é o tratamento mais indicado para o TVT?

A quimioterapia com vincristina é o protocolo de escolha.

Gatos também podem pegar TVT?

Não. O TVT é restrito a cães, não havendo relatos de transmissão para gatos.

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Referências:

ALIDAD, S. Disseminated Transmissible Venereal Tumour in the Mammary Glands of a Dog: A Histopathological and Immunohistochemical Case Report. Vet. Med. Sci., v.11, n.3, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40172031/. Acesso em: 21 ago. 2025.

CHU, C.P. Citologia de tumores de células redondas em cães. Vetfocus, 2024. Disponível em: https://vetfocus.royalcanin.com/pt/cientifico/canine-round-cell-tumor-cytology. Acesso em: 21 ago. 2025.

FARO, T.A.S.; OLIVEIRA, E.H.C. Canine transmissible venereal tumor – From general to molecular characteristics: A review. Anim. Genet., v.54, n.1, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36259378/. Acesso em: 21 ago. 2025.

PIMENTEL, P.A.B. et al.1 Canine Transmissible Venereal Tumor: Anatomical Locations, Chemotherapy Response, and Epidemiological Aspects at a Veterinary Teaching Hospital in Brazil (2012–2022). Animals, v.15, n.12, 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/15/12/1675. Acesso em: 21 ago. 2025.

PIMENTEL, P.A.B. et al.2 Clinical Guidelines for Canine Transmissible Venereal Tumour Treatment: Systematic Review and Meta-Analysis. Vet. Comp. Oncol., v.23, n.2, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39805316/. Acesso em: 21 ago. 2025.

REZAEI, M. et al. Primary oral and nasal transmissible venereal tumor in a mix-breed dog. Asian Pacific Journal of Tropical Biomedicine, v.6, n.5, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.apjtb.2016.03.006. Acesso em: 22 ago. 2025.

SAHINKESEN, I. et al. Molecular investigation of the role of papillomaviruses in the etiology of transmissible venereal tumors (TVT) in dogs. Braz. J. Microbiol., 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40728799/. Acesso em: 21 ago. 2025.

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