Urolitíases em cães: principais fatores de risco

Urolitíases em cães: principais fatores de risco

Identificar as principais causas predisponentes da formação de urólitos em cães é essencial para adotar medidas que possam contribuir para a dissolução de alguns tipos de cálculos e também para prevenção de recidivas em indivíduos predispostos. Entenda!

As urolitíases ou cálculos urinários são um tipo específico de doença do trato urinário inferior bastante comum em cães, caracterizada pela formação de sedimento microscópico conhecido como cristais e pela presença de concreções macroscópicas chamadas de urólitos. As urolitíases são de etiologia multifatorial e estão associadas a manifestações clínicas de disúria, polaciúria e hematúria.

Os cálculos urinários são um problema comum em cães. Os urólitos podem se formar em qualquer lugar do trato urinário, embora, nos cães, a maior parte se forme na bexiga. Em animais da espécie com alterações do trato urinário inferior, as urolitíases são responsáveis por aproximadamente 18% das consultas clínicas (PIBOT et. al, 2010).

De acordo com Alford e colaboradores (2020), dados de prevalência levantados na América do Norte e na Europa ocidental mostram que as urolitíases são responsáveis por 15 a 20% das consultas relacionadas ao trato urinário inferior em animais domésticos. O desenvolvimento de cálculos urinários está relacionado a diversos fatores de risco, como vamos abordar no decorrer deste artigo.

Compreender a fisiopatogenia da formação dos cálculos e as diferenças na composição dos urólitos contribui para melhor compreensão da doença e permite o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas e preventivas.

Veja todos os detalhes a seguir:

Tipos de urólitos comuns em cães

Os quatro tipos de cálculos urinários em cães são fosfato de magnésio de amônio magnesiano (estruvita), oxalato de cálcio, urato de amônio e cistina.

Nas últimas décadas, foram observadas mudanças na tendência de tipos de urólitos em cães. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia com um total de 10.444 cálculos urinários de cães durante o período de 2006 a 2018 demonstrou que os urólitos de oxalato de cálcio (OxCa) e de estruvita juntos compreendem 90,6% das urolitíases em cães, representando 47% e 43,6% da casuística, respectivamente.

O estudo também concluiu que a proporção de urólitos de OxCa apresentou diminuição estatisticamente significativa, de 49,5% para 41,8%, enquanto a proporção de urólitos de estruvita se manteve na mesma faixa. Já os urólitos de cistina, apesar de ocorrerem com menor frequência, apresentaram aumento significativo de 1,4% para 8,7% no período estudado (KOPECNY et al., 2020).

Um outro levantamento importante realizado pela Universidade de Minnesota analisou 69.644 urólitos de cães enviados ao laboratório ao longo do ano de 2019. Foi constatado que os principais urólitos foram de estruvita (39%), oxalato de cálcio (36%), cálculos compostos (10%) e o restante compreendendo urólitos de cistina, purina, fosfato de cálcio, mistos e de sílica.

Os urólitos contendo sílica são menos comuns, mas as diferenças geográficas são reconhecidas, e este tipo de cálculo urinário foi o terceiro mais comum no México. A avaliação contínua das tendências de diferentes instituições em diferentes localidades pode detectar mudanças nas proporções dos tipos de urólitos em cães e identificar potenciais fatores de risco para sua formação.

Principais fatores para a formação de cálculos urinários

Os fatores de risco para urolitíase em cães variam de acordo com a composição do urólito e incluem ainda raça, idade, sexo, estado de castração e, em alguns casos, presença de infecção do trato urinário, especialmente quando há urólitos contendo estruvita e presença de bactérias produtoras de urease.

Confira em detalhes quais são os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento de urolitíases em cães:

Supersaturação urinária

A supersaturação urinária é pré-requisito para a formação de um cálculo. Neste estágio, a cristalização pode ocorrer, pois a concentração dos íons cristalizantes é maior que seu produto de solubilidade (p. ex. a concentração em que os componentes de um cristal precipitarão em um solvente [como a água] em uma determinada temperatura e – dependendo da natureza do cristal – em um determinado pH).

Para explicar o mecanismo de concentração de forma simples e ilustrativa, penso em sal acrescido a um copo d’água. Se a quantidade de sal for pequena, a água o dissolverá. Quando a quantidade de sal ultrapassar a capacidade de dissolução da água, torna-se possível observar seus cristais no fundo do copo.

Com base na saturação, podemos classificar a urina em:

  • Solução estável (subsaturada): é aquela onde as condições físico-químicas da urina não permitem a formação de cristais;
  • Solução metaestável (moderadamente saturada): possui como característica a não formação espontânea de cristais, mas também não promove a dissolução de precipitados já formados;
  • Solução instável (supersaturada): que se caracteriza por permitir a formação e a agregação de cristais e, consequentemente, a geração dos urólitos.

Alteração do pH urinário

O pH da urina é um fator que contribui para a formação de determinados tipos de cálculos. Urólitos de oxalato de cálcio apresentam tendência de formação em pH ácido, enquanto cálculos de estruvita geralmente se formam em pH mais alcalino.

A interpretação do pH de forma isolada, no entanto, não é um fator determinante para o desenvolvimento de urolitíases, visto que alguns aspectos podem exercer maior influência no desenvolvimento da doença, como a saturação urinária, os hábitos alimentares e a frequência de micção.

Frequência urinária

Animais que passam muito tempo dentro de casa e que urinam apenas em momentos de passeio com seus tutores (ex: cães pequenos que vivem em ambiente indoor e tutores que passam a maior parte do dia fora de casa), apresentam maior tempo de retenção urinária, condição que favorece a precipitação e a aglutinação dos cristais presentes na urina.

Adotar estratégias que estimulem a diurese e incentivar o animal a urinar mais vezes contribui para que os cristais sejam eliminados, diminuindo a tendência de formação dos cálculos urinários.

Alimentação e ingestão de água

A dieta pode influenciar a composição da urina e os fatores dietéticos, portanto, desempenham um papel significativo no aumento do risco de urolitíase. Alimentos formulados com excesso de minerais podem predispor ao aumento da secreção destes compostos na urina, favorecendo a supersaturação e a precipitação dos cristais.

A ingestão de alimento em quantidades maiores do que as recomendadas também exerce impacto negativo para a saúde do animal, seja por aumentar a concentração de minerais sendo eliminados na urina, como por aumentar o risco de desenvolvimento de sobrepeso e obesidade.

A baixa ingestão de água é um importante fator que exerce papel significativo na predisposição ao desenvolvimento de cálculos, uma vez que aumentar a diurese é um ponto-chave essencial para diminuir o risco de formação dos cálculos. Os cães devem ser estimulados a ingerir água, e isso pode ser feito por meio da colocação de diversos potes de água espalhados pela casa e também pelo fornecimento de alimento úmido, como será abordado adiante.

Ainda quando falamos da saúde dos gatos, a ingestão de água também é fundamental. Ela é um dos fatores mais importantes para o manejo das urolitíases na espécie felina. Para saber mais, acesse:

Cães de pequeno porte

Cães de raças pequenas tendem a desenvolver urolitíase com maior frequência do que cães de raças grandes. Além da predisposição racial, isso pode ser explicado por alguns fatores como o menor volume de urina produzido pelos cães menores e o estilo de vida indoor, que muitas vezes faz com que os animais urinem apenas nos momentos de passeio, aumentando o tempo de retenção da urina na bexiga, como já citado.

Além disso, cães que passam muito tempo dentro de casa e que são pouco ativos tendem a apresentar sobrepeso e obesidade, lembrando que a obesidade é um fator de risco para o desenvolvimento de urólitos.

A observação de que determinadas raças de cães pequenos estão em risco para a formação de cálculos suporta a hipótese de que alguns fatores ligados à urolitíase são herdados, como veremos no próximo tópico.

Predisposição genética

Cálculos de estruvita são frequentemente diagnosticados em fêmeas de raças pequenas e dentre as raças mais afetadas estão Bichon Frisé, Schnauzer miniatura, Shih Tzu e Pequinês.

Cálculos de oxalato de cálcio são muito comuns nas raças Bichon Frisé, Shih Tzu, Lhasa Apso, Poodle, Yorkshire Terrier e Schnauzer Miniatura. Um estudo verificou significativas diferenças na composição urinária de cães Schnauzer miniatura e Labradores, apesar de todos os animais serem alimentados com a mesma dieta. Os Schnauzer miniatura produziram menor volume urinário, apresentaram maior concentração de cálcio urinário, um pH mais alto e uma maior supersaturação urinária, o que pode contribuir com a alta prevalência de cálculos de oxalato de cálcio nesta raça.

Cães das raças Dálmata, Bulldog e Bulldog Inglês apresentam maior risco para o desenvolvimento de cálculos de urato devido a mutação do gene SLC2A9, que leva à hiperuricosúria.

Já algumas mutações genéticas que resultam em cistinúria foram identificadas e predispuseram algumas raças a desenvolverem urolitíase por cistina, como Mastiff, Bull Terrier, Bulldog e Rottweiller. O aumento da popularidade dessas raças e a diminuição da triagem dos indivíduos na fase reprodutiva podem explicar o aumento da frequência de urólitos de cistina nestas raças.

Como diagnosticar a urolitíase em cães

A urolitíase é, tipicamente, uma doença de cães adultos com idade média de diagnóstico entre 6 e 7 anos de idade, mas que pode surgir em qualquer fase da vida. Os sintomas da urolitíase são principalmente devido à irritação da mucosa do trato urinário inferior e à possível obstrução que o cálculo pode causar. Os sinais mais comuns são hematúria, disúria e polaciúria. Por outro lado, alguns pacientes são clinicamente assintomáticos.

A urinálise, a cultura da urina e os exames de imagem (radiografia simples, contrastada e/ou ultrassonografia) são necessários para confirmar a urolitíase e investigar os fatores predisponentes.

Tratamentos para urolitíase

A terapia eficaz para cada tipo de urólito depende do conhecimento de sua composição mineral. O ideal seria se todos os urólitos pudessem ser enviados para análise laboratorial; desta forma, uma abordagem terapêutica específica e personalizada poderia ser adotada para melhores resultados.

Caso o paciente se apresente obstruído, a abordagem terapêutica deve ser emergencial para promover alívio imediato da obstrução e dos sintomas clínicos. A desobstrução poderá ser feita de formas diferentes de acordo com a localização do cálculo, e em muitos casos, a intervenção cirúrgica se faz necessária (principalmente nos casos de cálculos de oxalato de cálcio, que não são passíveis de dissolução por meio da dieta).

A terapia nutricional pode ser introduzida tanto para pacientes os quais o manejo clínico é possível de ser realizado, como também nos casos pós-cirúrgicos cujo objetivo é o de contribuir para a prevenção de recidivas.

A composição e o tipo da dieta serão abordados com mais detalhes a seguir.

Abordagem dietética

A dieta é uma importante aliada no tratamento coadjuvante das urolitíases. A composição da dieta é uma estratégia chave usada para prevenção da formação de cálculos, e a diminuição na proporção de urólitos contendo OxCa observada por Kopecny e colaboradores (2020) pode indicar que as dietas comercializados para prevenção de urolitíases em cães e formulações contendo maior teor de umidade podem ser eficazes para a diminuição de sua recorrência.

Para estimular a diurese, o consumo de líquidos deve ser incentivado. Isso pode ser feito com alimentos úmidos, pela adição de água ao alimento ou pelo ligeiro aumento do teor de sódio nas dietas secas e úmidas dentro do recomendado para provocar diurese. O aumento discreto do teor de sódio no alimento demonstrou elevar o consumo de água, a produção de urina e diminuir a supersaturação da urina de cães e gatos sem qualquer efeito nocivo ao organismo.

A supersaturação relativa da urina (RSS) é uma metodologia que considera o pH urinário, o volume urinário e a concentração de 10 solutos, responsáveis pela formação dos principais cálculos em gatos e cães (cálcio, magnésio, oxalato, citrato, fosfato, sódio, potássio, amônio, sulfato e urato) da amostra. Tais dados são analisados por um programa de computador que calcula a concentração de um grande número de complexos formados pela interação dos diferentes íons presentes na amostra de urina em um dado pH. Assim, quanto mais baixo for o valor de RSS para um dado cristal, mais subsaturada estará a urina e menor a probabilidade de um cálculo ser formado.

Urólitos estéreis de estruvita podem ser dissolvidos pela administração de dieta que promova o aumento de volume urinário e um pH urinário menor que 6,4. A dieta deve conter baixos níveis de magnésio e quantidades adequadas de sódio para promover o aumento de ingestão hídrica e do volume urinário, visando à diluição da urina.

Também é recomendada a continuação da dieta, sempre com recomendação e ajustes pelo médico-veterinário, por, pelo menos, 30 dias após a resolução completa do quadro e a não visualização do urólito por exames de imagem.

Com base nas amplas evidências científicas disponíveis em literatura acerca do uso de alimento específico como tratamento coadjuvante das urolitíases, conclui-se que o uso de fórmulas desenvolvidas com matérias-primas que contenham baixos teores de minerais e compostos precursores de cristais, associado ao controle do pH urinário e ao uso de estratégias que aumentem o volume urinário podem, de forma conjunta, atuar na diminuição da recidiva de urólitos, contribuindo com a manutenção da qualidade de vida do paciente.

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Referências bibliográficas

ALFORD, A.; FURROW, E.; BOROFSKY, M.; LULICH, J. Animal models of naturally occurring stone disease. Nature Review, 2020.

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PIBOT, P.; BIOURGE, V.; ELLIOTT, D.A. Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition. Royal Canin, 2010.

KOPECNY, L.; PALM, C.A.; SEGEV, G.; WESTROPP, J.L. Urolithiasis in dogs: Evaluation of trends in urolith composition and risk factors (2006-2018). J Vet Intern Med, 2021.

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