Termorregulação animal: como os cães e gatos regulam a temperatura corporal

Termorregulação animal: como os cães e gatos regulam a temperatura corporal

A termorregulação animal é um processo fundamental para manter os níveis de temperatura corporal em índices satisfatórios e, consequentemente, manter a homeostase do organismo; saiba todos os detalhes

A termorregulação é um processo fisiológico que consiste na regulação da temperatura corporal. Ela é fundamental para que ocorra a manutenção dos processos biológicos nos indivíduos e é relativamente constante, ocorrendo em gatos e cães mesmo com as instabilidades e variações da temperatura do ambiente.

Neste artigo vamos abordar a importância da termorregulação nos pets e como o Médico-veterinário pode orientar os tutores sobre boas práticas na rotina que ajudam a manter o processo em gatos e cães.

Entendendo as estruturas da pele dos gatos e cães

O tegumento é o maior órgão presente no organismo humano e animal, sendo composto por diversos tipos celulares, tecidos e estruturas especializadas.

De forma anatômica, a pele é dividida em três estruturas, sendo elas:

  • Epiderme: camada externa da pele que oferece proteção contra possíveis agentes infecciosos, constituída por tecido epitelial estratificado pavimentoso e queratinizado, sendo uma camada fina e avascular.
  • Derme: camada mais fibrosa, formada por tecido conjuntivo e vascularizada.
  • Hipoderme: camada mais profunda da pele, constituída por gordura e tecido conjuntivo, também sendo vascularizada. Entre as funções da hipoderme estão a capacidade de absorção de choques mecânicos/impactos e isolante térmico.

Entendendo as principais funções do tecido cutâneo em gatos e cães

A pele tem como função essencial formar uma barreira para proteger o organismo contra a entrada de microrganismos (bactérias, fungos e demais agentes agressores) que, ao penetrarem as camadas após um trauma, por exemplo, podem causar inflamação ou infecção sistêmica ou local e, em casos mais graves, levar o animal à óbito (RAMOS, 2021; SOUZA, 2009).

Entre as principais funções das camadas de pele dos animais estão:

  • termorregulação animal;
  • isolante térmico;
  • percepção de sensações como frio, calor, tato e dor;
  • flexibilidade para realizar movimentos, evitando lesões físicas;
  • produção de vitamina D;
  • produção de estruturas queratinizadas (pelos, unhas e camada córnea);
  • produção de secreção pelas glândulas sudoríparas e sebáceas para lubrificar e manter o recobrimento piloso, termorregulação, entre outros;
  • pigmentação dos pelos e pele;
  • reservatório de eletrólitos, água, vitaminas, ácidos graxos, carboidratos, proteínas, entre outros;
  • imunorregulação: imunidade celular e humoral (infecções e neoplasias);
  • inibição da perda de água, eletrólitos e macromoléculas;
  • proteção contra abrasões, cortes, irradiação solar, produtos químicos e outras lesões.

Na epiderme são originados os folículos pilosos que geram os pelos dos gatos e cães a partir do bulbo piloso. Já a espessura da pele, juntamente com os pelos, apresenta variações de animal para animal, considerando diversos fatores: espécie, raça, regiões anatômicas do próprio animal, idade, grau de desenvolvimento e sexo. Pode chegar a 2,0 mm de espessura nos gatos e até 5,0 mm nos cães (SOUZA, 2009).

Trocas de pelos

Gatos e cães possuem pelos de dois tipos: primário/externo e secundário/subpelo, sendo os folículos pilosos retos (que geram os pelos lisos) ou espirais (que geram os pelos crespos).

Os pelos possuem queratina como principal componente e cerca de 20 aminoácidos que formam a sua estrutura. Trata-se de uma haste composta por cutícula externa (células cornificadas e anucleadas), córtex (formado por células compactadas determinantes para o pigmento e a coloração do pelo) e medula (presença de queratinócitos).

Os pelos não crescem de forma contínua, pois seguem o ciclo de vida que consiste nas fases a seguir:

  • Fase Anágena: nessa etapa, os novos pelos são produzidos de forma intensa.
  • Fase Catágena: etapa de transição e/ou repouso.
  • Fase Telógena: etapa em que o pelo irá se desprender e cair para que novos pelos surjam, reiniciando todo o ciclo.

Cada etapa do ciclo é sazonal e possui um tempo de duração que varia conforme a raça, a espécie, a região do corpo, a idade, o estágio de desenvolvimento do animal, o sexo e outros fatores patológicos e/ou fisiológicos. Outros fatores como fotoperíodo, temperatura do ambiente que o animal habita, estações do ano (quando bem definidas), hormônios, tipos de alimentos e nutrição, fatores genéticos, estado geral de saúde/higidez, citocinas que são produzidas pelos folículos, papila dérmica e outras células podem influenciar no ciclo do pelo.

O Médico-Veterinário deve alertar o tutor do animal sobre a importância da realização de consultas de rotina e check-ups de acordo com a frequência indicada para cada indivíduo, podendo o profissional avaliar e diferenciar se o quadro de perda de pelos do animal é exagerado ou se é uma troca fisiológica e comum da pelagem.

Animais endotérmicos

Gatos e cães são considerados animais endotérmicos, pois possuem mecanismos para a regulação térmica, como veremos adiante, e, portanto, conseguem regular e manter a temperatura corporal estável mesmo com as alterações ambientais/climáticas.

Temperatura normal do cão

A média da temperatura corporal normal do cão varia entre 38 e 39ºC, mas outros fatores podem influenciar na termorregulação animal. Por exemplo, cadelas próximas do parto e cães mais velhos podem não apresentar essa temperatura média, não significando quadros de hipotermia ou hipertermia.

Outro ponto importante, diz respeito aos cães neonatos que ainda não possuem de forma eficiente a capacidade termorreguladora, pois possuem uma quantidade menor de gordura, além de dificuldade para tremer e gerar fonte de calor e incapacidade do hipotálamo para controlar a temperatura corporal e, portanto, necessitam de manejo adequado, pois são muito susceptíveis à hipotermia.

Temperatura corporal do gato

A média da temperatura corporal normal do gato varia entre 38 e 39,5ºC. Todavia, diversos fatores podem influenciar na termorregulação animal. Por exemplo, se um gato ficar exposto ao sol durante um tempo prolongado, poderá ter um aumento momentâneo em sua temperatura corporal.

Já os gatos neonatos, também não desenvolveram ainda uma forma eficiente da capacidade termorreguladora e, assim como os cães neonatos, necessitam de manejo adequado para evitar quadros de hipotermia.

Temperatura alta sempre indica febre?

A forma mais eficiente de confirmar se o cão ou o gato apresenta febre é através da medição da temperatura retal utilizando um termômetro. Alguns fatores podem elevar momentaneamente a temperatura, mas não indicam estado febril, como por exemplo a exposição solar e a agitação do animal. Apesar da temperatura nasal estar relacionada com a temperatura corporal, esta não é a forma mais eficiente e recomendada para confirmação do estado febril.

Ao suspeitar que o gato ou cão esteja com febre, é recomendado levar o animal para uma consulta com o Médico-Veterinário, que irá avaliar a condição geral da saúde do animal, medir a temperatura retal e indicar a melhor forma para tratamento, caso necessário, podendo ser recomendado o uso de medicamentos ou apenas adequações no manejo do animal para que ocorra o controle adequado da temperatura corporal.

Hipertermia e hipotermia em cães e gatos

A hipotermia pode ter diferentes graus, sendo de leve a grave, e consiste na queda da temperatura do corpo do animal para um valor inferior a 38ºC em gatos e cães, devendo associar a alteração aos sinais clínicos apresentados, pois alguns animais podem ter temperaturas mais baixas em estado de repouso ou durante/após procedimentos anestésicos.

A hipotermia pode também ser gerada pela exposição do animal a ambientes muito frios e úmidos.

Nos casos leves e moderados, os sinais clínicos podem envolver tremores, hipertensão, taquicardia, vasoconstrição, redução da frequência cardíaca e respiratória e perda da consciência. Já nos casos mais graves pode apresentar sinais clínicos de apneia, edema pulmonar, arritmias ventriculares, coma e até mesmo levar a óbito.

Já a exposição solar por períodos prolongados e em períodos do dia em que o sol é mais quente ou locais quentes e abafados que tenham pouca ventilação podem gerar queimaduras de pele, bem como contribuir para o estado de hipertermia em cães e gatos.

A temperatura do corpo do animal para um valor igual ou superior a 39,6ºC em gatos e 39,1ºC em cães pode indicar a hipertermia e, nesse caso, existem alguns agravantes que podem gerar maiores dificuldades para dissipar o calor, tais como: obesidade, obstrução das vias aéreas superiores, doenças cardíacas, animais com pelagem mais escura (pois retém mais o calor), animais braquicefálicos (raças como Pug, Bulldog, Shih Tzu, Pequinês, Boxer, Persa, entre outros) e/ou muito pequenos (raças de cães toys).

Os casos de hipertermia podem ser classificados como sendo de grau leve a grave, podendo apresentar os seguintes sinais clínicos: mucosas hiperêmicas, pálidas ou ictéricas, aumento da frequência cardíaca, respiração ofegante, desidratação, vômitos, diarreias com ou sem a presença de sangue, salivação abundante, agitação, urina com coloração escura, arritmia cardíaca, pulso fraco, distúrbios mentais, perda da consciência, convulsões, incoordenação motora, tremores musculares, fraqueza e até parada respiratória.

Gatos e cães praticamente não transpiram como os seres humanos, pois não possuem grandes quantidades de glândulas sudoríparas pelo corpo, tendo a presença das estruturas em menor quantidade e apenas na região dos coxins.

No caso dos cães, os mesmos também realizam a troca de calor através da boca, quando ficam com a língua exposta. Porém, é extremamente importante lembrar que nos gatos essa condição de troca de calor pela boca não ocorre. Ou seja, quando o gato está ofegante e/ou respirando com a boca aberta, pode significar que algo está errado com o animal e o mesmo deverá ser avaliado o quanto antes pelo Médico-Veterinário. Caso o animal não receba a devida assistência e o manejo adequado, casos mais graves de hipertermia e de hipotermia em cães e gatos pode ocasionar o óbito do pet.

Principais mecanismos de termorregulação nos cães e gatos

Animais endotérmicos, como os cães e os gatos, possuem mecanismos de adaptações comportamentais, anatômicos e fisiológicos que visam manter a temperatura corporal em níveis satisfatórios. Os principais mecanismos de termorregulação incluem (ROCHA, 2017):

  • Termogênese: ativação do metabolismo através da contração muscular ou através da proteção pelo tecido adiposo.
  • Sistema circulatório: alteração do padrão do fluxo sanguíneo;
  • Isolamento térmico: realizado pela presença dos pelos e camadas de gordura subcutânea.
  • Resfriamento evaporativo: através do ofegar dos cães.
  • Vasoconstrição: redução do fluxo sanguíneo para retenção de calor.
  • Vasodilatação: aumento do fluxo sanguíneo para a pele, visando auxiliar na perda do calor excedente para o meio externo.
  • Coxins das patas: zonas bastante vascularizadas que promovem a troca de calor.

A tosa pode afetar os mecanismos da termorregulação animal?

O controle de temperatura dos animais está associado ao comprimento, à espessura e à densidade dos pelos.

A tosa pode dificultar os mecanismos de termorregulação do animal, uma vez que a pelagem atua como um protetor e isolante térmico, fazendo com que o animal não perca ou receba calor em excesso. Em casos mais graves, o gato ou o cão pode ter quadros de hipertermia e hipotermia quando a tosa é realizada de forma inadequada ou em épocas inadequadas (muito frio ou muito calor).

O Médico-Veterinário poderá orientar o tutor nesses casos e indicar o tipo de tosa ideal para cada paciente e também a periodicidade para a realização da mesma, evitando assim alterações na termorregulação do animal.

Dicas que auxiliam na manutenção dos mecanismos de termorregulação dos pets

Para manter o animal confortável no verão, recomenda-se que eles não fiquem em ambientes impróprios, que possuam correntes fortes de ar, em ambientes com muita umidade, expostos por muito tempo ao sol quente, ou locais fechados, sem ventilação apropriada.

Não é recomendado levar o cachorro para passear em horários em que o sol é muito quente, pois pode provocar queimaduras nos coxins, além de desidratação, hipertermia e outros problemas de saúde.

Para manter a hidratação do animal em níveis satisfatórios, a água deve ficar disponível na sombra e a troca deve ser realizada ao menos duas vezes ao dia e também quando apresentar sujidades.

A tosa mais baixa é contraindicada nos meses mais quentes e também muito frios. Já a tosa higiênica pode ser indicada para o animal nesses períodos, assim como outros tipos de manejos. O Médico-Veterinário poderá orientar o tutor de acordo com a anamnese, histórico do animal e exames físicos ou complementares quando necessários.

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Referências bibliográficas

00RAMOS, Thais Nayara de Lima. Manejo e tratamento de feridas: revisão de literatura. 2021, p. 13-55. Dissertação (Centro de Ciências Agrárias) – Bacharel em Medicina Veterinária – Universidade Federal de Paraíba, Paraíba, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/20531/1/TNLR28072021-MV296.pdf. Acesso em: 15 abr. 2022.

SOUZA, Tatiana M. et al. Aspectos histológicos da pele de cães e gatos como ferramenta para dermatopatologia. Rio Grande do Sul: Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 29, n. 2, p. 177-190, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pvb/a/qNKTKSZB7Gn6g5D7fNbtdQk/?lang=pt. Acesso em: 15 abr. 2022.

HIPERTERMIA em cães e gatos – o que é e como prevenir. Syntec – Mundo veterinário, 2018. Disponível em: https://syntec.com.br/news/hipertermia-em-caes-e-gatos-o-que-e-e-como-prevenir/. Acesso em: 15 abr. 2022.

FEITOSA, Francisco Leydson F. Semiologia veterinária: a arte do diagnóstico. São Paulo: Roca, 2020. Disponível em: https://consultadogvet.files.wordpress.com/2017/02/12-semiologia-da-pele.pdf. Acesso em: 15 abr. 2022.

ROCHA, N. C.; MORAES, I. A. Termorregulação nos animais. Rio de Janeiro: Homepage da disciplina Fisiologia Veterinária da UFF, 2017. Disponível em: http://fisiovet.uff.br/?s=Termorregula%C3%A7%C3%A3o+nos+Animais. Acesso em: 15 abr. 2022.