O suporte dermatológico através da nutrição do cão

O suporte dermatológico através da nutrição do cão

A pele é a primeira barreira de proteção dos seres vivos contra a entrada de agentes externos. Em condições normais, a pele é praticamente impermeável e evita infecções e a penetração de alérgenos. As doenças de pele são responsáveis por uma em cada cinco consultas ao médico veterinário1. As dermatites alérgicas são as principais responsáveis por estas consultas, sendo as mais frequentes a dermatite alérgica à picada de pulga, a atopia e a reação adversa ao alimento2,3.

Estados que enfraquecem a barreira cutânea favorecem a penetração de agentes externos como bactérias, fungos e outros alérgenos. Alguns indivíduos possuem alterações genéticas que os predispõem a essa fragilidade, como a atopia, por exemplo. Eles possuem uma falha na produção de ceramidas, o que altera a estrutura da pele deixando-a desidratada e permite a penetração de patógenos. Deficiências nutricionais também aumentam a fragilidade da pele e favorecem infecções.

Foi demonstrado que no indivíduo atópico existe um aumento da perda de água transepidérmica, derivada de uma alteração na camada lipídica da epiderme. As ceramidas são consideradas o componente mais importante da camada lipídica da pele que compõe a barreira cutânea. A barreira cutânea é formada principalmente por coneócitos (células anucleadas) e ceramidas (porção lipídica). Se a comparássemos com uma parede, os corneócitos seriam tijolos e as ceramidas uma espécie de cimento.

Desenho com a descrição das camadas de pele de um cão

A pele, por possuir um turnover celular bastante intenso necessita receber quantidades ideais de nutrientes para que sua estrutura e funções sejam adequadamente mantidas.
A ingestão de proteínas e gorduras de qualidade, carboidratos, vitaminas e minerais em teores balanceados é vital para melhorar a reparação cutânea e garantir um processo cicatricial eficiente. Estes nutrientes são necessários para atender a alta demanda energética necessária para o suporte da proliferação e migração celular, fagocitose e produção dos tecidos conjuntivo, endotelial e epitelial.

A nutrição pode ajudar o manejo destas condições e visa reduzir o prurido, a alopecia e o processo inflamatório, auxiliar os processos de renovação e cicatrização, além de auxiliar a controlar as infecções bacterianas por reforçar a barreira cutânea.

Os ácidos-graxos ômega-3 (EPA e DHA), em óleos de peixes marinhos e os ácidos-graxos ômega-6 (GLA) presentes no óleo de borragem, são nutrientes que podem auxiliar o tratamento da atopia. Com relação às doenças cutâneas, tanto o ômega-3 quanto o ômega-6 parecem apresentar propriedades anti-inflamatórias4,5,6. O ômega-3 compete diretamente com o ácido araquidônico pelas vias ciclo e lipoxigenases enzimáticas. O GLA produz um metabólito direto (DGLA) que inibe a liberação de ácido araquidônico pela membrana celular e inibe o ciclo da lipoxigenase, além deste poder ser convertido em prostraglandinas da série 1, menos inflamatórias.

Estudos demonstraram que a adição ao alimento de uma combinação sinérgica de certas vitaminas e aminoácidos aumentou a síntese de ceramidas em cultura in vitro de queratinócitos caninos. Ainda, a nicotinamida, o ácido pantotênico e a histidina demonstraram aumentar significativamente a síntese lipídica epidérmica.

O teste de perda de água transepidérmica foi utilizado para avaliar os efeitos destes nutrientes no fortalecimento da barreira cutânea, e uma redução do trânsito de água foi observada nos animais que consumiram ácido pantotênico, nicotinamida, inositol e colina7.
Estes nutrientes, corretamente balanceados, diminuem sensivelmente as recidivas das crises em cães atópicos, o que garante uma melhor qualidade de vida a estes animais.

Informações do autor:

MSc. MV. Eduardo Zaneli

Referências bibliográficas:

Hill, P. B., Lo, A., Eden, C. A. N., et al. Survey of the prevalence, diagnosis and treatment of dermatological conditions in small animals in general practice. Vet Rec. 158:533–539, 2006.

Hillier, A., Griffin, C. E. The ACVD taskforce on canine atopic dermatitis (I): incidence and prevalence. Vet Immunol Immunopathol. 2001.

Hobi, S., Linek, M., Marignac, G., Olivry, T., Beco, L., Nett, C. et al. Clinical characteristics and causes of pruritus in cats: a multicentre study on feline hypersensitivity-associated dermatoses. Vet Dermatol, 2011.

LeBlanc, C. J., Horohov, d. w., Bauer, J. E., Hosgood, G.,Mauldin, G. E. Effects of dietary supplementation with fish oil on in vivo production of inflammatory mediators in clinically normal dogs. American journal of veterinary research 69, no. 4 (April): 486-93. doi:10.2460/ajvr.69.4.486, 2008.

, B.K. BERGVALL, K. HOLM, B.R. et al. A randomized, controlled study to evaluate the steroid sparing effect of essential fatty acid supplementation in the treatment of canine atopic dermatitis. Vet Dermatol, 15(3): 137-145, 2004.

Miller, C. C. Dietary supplementation with ethyl ester concentrates of fish oil (n-3) and borage oil (n-6) polyunsaturated fatty acids induces epidermalgeneration of local putative anti-inflammatory metabolites. Journal of investigative dermatology 96, 98-103, 1991.

Watson, A. L., Fray, T. R., Bailey, J., Baker, C. B., Beyer, S. A., Markwell P. J. Dietary constituents are able to play a beneficial role in canine epidermal barrier function. Exp Dermatol: 15: 74–81, 2006.

CADESI©: Canine Atopic Dermatitis Extent and Severity Index (Índice de Extensão e Gravidade da Dermatite Atópica Canina). OLIVRY, T. et al. Veterinary Dermatology, 2007. Global Skin Score: “Evaluation of the pruritus in dogs with atopic dermatitis”. CORDAS, H. Veterinary thesis – ENVT, 2011.

Estudo interno, ROYAL CANIN®, 2010-2011.