Criptococose em gatos e cães: diagnóstico, tratamento e conduta clínica
Links rápidos:
- O que é criptococose e como ocorre a infecção?
- Quais espécies e perfis são mais acometidos?
- Quais são os sinais clínicos da criptococose?
- Como é feito o diagnóstico de criptococose?
- Quais são os diagnósticos diferenciais?
- Como é o tratamento da criptococose?
- A criptococose é transmitida do paciente para o responsável?
- Qual o prognóstico?
- Como conduzir o suporte nutricional durante o tratamento?
- Conclusão
- Perguntas frequentes sobre criptococose
Os gatos são de cinco a seis vezes mais acometidos pela criptococose do que os cães; veja neste artigo como reconhecer a forma nasal e conduzir o tratamento.
Este artigo revisa a conduta atual na criptococose de gatos e cães, da suspeita à alta. Aborda a etiologia pelos complexos Cryptococcus neoformans e C. gattii, as quatro formas clínicas, o antígeno criptocócico como teste de primeira linha, os protocolos antifúngicos vigentes e o suporte nutricional durante o tratamento prolongado. O diagnóstico obtido antes da disseminação é o fator que mais determina o desfecho, e a enfermidade não é transmitida do paciente ao responsável.
A criptococose é a micose sistêmica mais frequente em gatos, causada pelos complexos de espécies Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii, leveduras encapsuladas de distribuição cosmopolita¹. Bem descrita em literatura, permanece uma afecção de diagnóstico tardio na rotina, porque a apresentação nasal crônica se confunde com rinopatias muito mais prevalentes.
O atraso tem peso prognóstico direto. O desfecho favorável depende de o diagnóstico preceder a disseminação para o sistema nervoso central, e a diferença entre reconhecer o quadro na primeira ou na terceira consulta costuma ser o que separa a cura da eutanásia¹.
O que é criptococose e como ocorre a infecção?
A nomenclatura do agente foi reclassificada: o que antes se descrevia como duas variedades corresponde hoje a sete espécies distribuídas entre os dois complexos, com três híbridos, que diferem em distribuição geográfica, virulência e sensibilidade a antifúngicos¹. As espécies são clinicamente indistinguíveis, e apenas cultura ou PCR permitem a identificação. Reis e colaboradores (2021) identificaram o genótipo VNII de C. neoformans como principal causa de criptococose em gatos domésticos no Rio de Janeiro⁷.
A infecção ocorre por inalação de basidiósporos (menores que 2 μm) e de leveduras dessecadas (menores que 3 μm), que alcançam a cavidade nasal, sítio primário em gatos e cães¹.
Fontes ambientais do agente¹,⁸:
- Excretas de pombos (Columba livia domestica) e de psitacídeos;
- Vegetação em decomposição, sobretudo folhas de eucalipto;
- Solo e cursos d’água;
- Madeira velha.
Ferimentos perfurantes inoculam o agente diretamente na pele com menor frequência. Vale ressaltar três pontos que limitam a anamnese ambiental:
- O período de incubação varia de meses a anos, e a fonte de infecção frequentemente permanece desconhecida¹;
- O estilo de vida não é fator de risco confiável: a enfermidade é diagnosticada também em gatos de ambiente interno¹;
- A colonização assintomática é mais comum que a doença clínica. No surto canadense de C. gattii, o agente foi isolado de 4,3% dos gatos e de 1,1% dos cães sem sinais¹.
Logo, cultura positiva a partir de secreção nasal, isoladamente, não confirma a enfermidade.
Quais espécies e perfis são mais acometidos?
McGill e colaboradores (2009), na Austrália Ocidental, demonstraram que gatos têm probabilidade cinco a seis vezes maior de desenvolver a doença do que cães, e três vezes maior do que equinos⁵.
Em felinos, o perfil epidemiológico é pouco discriminante:
- Sexo: predominância em machos sugerida em estudos retrospectivos, sem confirmação em todas as casuísticas¹;
- Raça: a predisposição de Ragdoll, Birmanês, Siamês e Himalaio, descrita em séries antigas, não se confirmou em estudos recentes¹,⁶;
- Idade: gatos de qualquer idade são acometidos, diferentemente de outras espécies, em que predominam adultos jovens¹;
- Sazonalidade: não há padrão descrito⁵.
Quais são os sinais clínicos da criptococose?
A apresentação se dá em quatro formas, que podem coexistir. O curso é geralmente crônico e progressivo, exceto na forma neurológica e nos derrames pleurais, de instalação aguda¹.
Forma nasal
Mais comum em gatos, cursa com rinossinusite crônica:
- Aumento de volume nasofacial e deformidade, popularmente chamados de “nariz de palhaço”;
- Ulceração profunda que não cicatriza, drenando exsudato gelatinoso;
- Corrimento nasal seroso, mucopurulento ou hemorrágico, uni ou bilateral;
- Estertor, dispneia inspiratória e espirros;
- Linfadenopatia submandibular;
- Massa carnosa protruindo das narinas ou granuloma nasofaríngeo que simula pólipo ou neoplasia;
- Anosmia, com hiporexia e perda de peso consequentes.
A criptococose deve entrar no diferencial de todo gato com corrimento nasal crônico, haja ou não deformidade facial associada¹.

Forma cutânea
Nódulos dérmicos a subcutâneos, alopécicos, não pruriginosos e indolores, que podem ulcerar e acompanham linfadenopatia regional¹. A distribuição orienta a origem:
- Lesão solitária – sugere inoculação direta por ferimento perfurante;
- Lesões múltiplas – indicam disseminação hematógena a partir do foco primário.
Forma neurológica
Decorre de duas vias, com apresentações distintas¹:
- Disseminação local pela lâmina cribriforme – cegueira súbita por neurite óptica, associada a convulsões ou alterações comportamentais;
- Disseminação hematógena – encefalomielite granulomatosa com sinais mono ou multifocais.
Dor cervical e de coluna são frequentes; hiperestesia e rigidez de nuca, incomuns.
Forma sistêmica
Decorrente de disseminação hematógena, manifesta-se por¹:
- Uveíte e coriorretinite;
- Osteomielite e poliartrite;
- Linfadenite sistêmica;
- Acometimento renal e multiorgânico;
- Nódulos pulmonares, massa mediastinal e derrame pleural.
Nos quadros com dispneia grave, a estabilização e o suporte de oxigênio precedem qualquer procedimento diagnóstico. Em necropsias de gatos mortos por doença infecciosa sistêmica no Brasil, a criptococose figurou entre as principais causas de lesão ocular, ao lado da peritonite infecciosa felina e da infecção por FeLV¹.
Como é feito o diagnóstico de criptococose?
Pesquisa de antígeno criptocócico
A detecção do antígeno capsular é o teste de primeira linha, por ser rápido, confiável e minimamente invasivo¹. Aplica-se a soro, líquor, urina e líquidos cavitários, pelo teste de aglutinação em látex (LCAT).
Critérios de interpretação:
- Título a partir de 1:2 é considerado positivo⁶;
- Falso negativo por efeito pós-zona ocorre quando a concentração de antígeno é muito alta; o resultado positivo aparece após diluição da amostra¹;
- Lesões muito localizadas podem cursar com LCAT negativo¹;
- Testes rápidos de fluxo lateral servem melhor para excluir a enfermidade; resultado positivo exige confirmação por LCAT¹.
Recomenda-se reservar a colheita de líquor aos casos em que a forma neurológica não possa ser confirmada por outra amostra. Jacobson e colaboradores (2023) observaram que, após ajuste para tratamento, a punção liquórica associou-se a menor tempo de sobrevida¹.
Citologia, cultura e PCR
A citologia permanece recurso excelente pela morfologia característica do agente e pela carga elevada de leveduras nas lesões, com leveduras de 4 a 15 μm circundadas por halo claro. Resultado negativo, contudo, não exclui o diagnóstico¹.
Amostras adequadas: imprint de lesão ulcerada • punção aspirativa por agulha fina de nódulos e linfonodos • lavado broncoalveolar • efusões cavitárias • líquor • sedimento urinário, em acometimento renal.
Os demais métodos se complementam:
- Cultura de fragmento de biópsia – mais sensível que a citologia; permite teste de sensibilidade a antifúngicos, útil quando a resposta terapêutica é ruim¹;
- PCR – identifica a espécie envolvida; já oferecida rotineiramente por laboratórios¹,²;
- Histopatologia – confirma o padrão piogranulomatoso e permite imuno-histoquímica;
- Pesquisa de anticorpos – sem valor diagnóstico, por não distinguir infecção subclínica de doença ativa¹.
Diagnóstico por imagem
Radiografia, tomografia e ressonância não confirmam o diagnóstico, mas definem extensão e gravidade das lesões em cabeça e tórax: rinite crônica, sinusite frontal, massas intranasais ou intracranianas, e padrão intersticial peribroncovascular nos pacientes dispneicos¹.

Quais são os diagnósticos diferenciais?
Os diferenciais variam conforme a forma clínica:
Rinopatia crônica felina
- Rinite crônica linfoplasmocitária;
- Neoplasia nasal (linfoma e carcinoma);
- Pólipo nasofaríngeo;
- Aspergilose;
- Corpo estranho;
- Esporotricose, diferencial relevante em território brasileiro, que compartilha lesões nasofaciais ulceradas¹,².
Sinais neurológicos
- Peritonite infecciosa felina;
- Toxoplasmose;
- Neoplasia de sistema nervoso central;
- Meningoencefalite granulomatosa;
- Encefalites bacterianas e virais.
Nódulos cutâneos
- Esporotricose;
- Micobacteriose;
- Neoplasia cutânea;
- Paniculite estéril.
A diferenciação se faz pela citologia da lesão associada à pesquisa de antígeno, não pelo aspecto macroscópico. Recomenda-se encaminhar toda amostra tecidual disponível simultaneamente para citologia, histopatologia e PCR, independentemente do resultado do teste de antígeno¹.
Como é o tratamento da criptococose?
Não existem estudos prospectivos controlados sobre o tratamento da criptococose felina: a evidência disponível vem de estudos retrospectivos e relatos de caso¹.

Obs.: A dosagem deve ser recomendada exclusivamente por um médico-veterinário, de acordo com o peso e as necessidades individuais do animal.
O critério de escolha é a extensão da doença:
- Rinite leve e forma cutânea localizada – fluconazol em monoterapia³
- Formas neurológica, ocular e sistêmica – anfotericina B, preferencialmente associada à flucitosina ou ao fluconazol, seguida de curso prolongado de azólico¹,³
- Paciente com nefropatia prévia – apenas fluconazol ou itraconazol, sem anfotericina B¹
A comparação entre azólicos favorece o fluconazol. No estudo de O’Brien e colaboradores (2006), a duração mediana de tratamento foi de 4 meses (1 a 8) no grupo fluconazol, contra 9 meses (3 a 24) no grupo itraconazol⁴. O fluconazol também apresenta melhor penetração em sistema nervoso central, olho e trato urinário, e é mais bem tolerado⁶.
Por quanto tempo tratar?
- Manter até a negativação do LCAT¹;
- Quando o teste não estiver disponível, ou já era negativo ao diagnóstico, manter por 2 a 4 meses após a resolução dos sinais clínicos¹;
- Título alto ou sem declínio após seis semanas de fluconazol indica substituição do antifúngico³;
- Queda de quatro a cinco vezes no título, seguida de estabilização, indica resposta adequada e permite suspender o tratamento¹.
A excisão cirúrgica de nódulos e massas é adjuvante valioso na terapia medicamentosa, e passa a ser prioridade quando a massa causa dispneia grave¹.
A criptococose é transmitida do paciente para o responsável?
Não. A criptococose não é contagiosa e não é considerada zoonose: é adquirida do ambiente contaminado, e o paciente acometido não transmite o agente a seres humanos nem a outros animais¹. O que existe é exposição compartilhada à mesma fonte ambiental.
Gatos acometidos funcionam como sentinelas, e o diagnóstico em um paciente sinaliza foco ambiental ao qual a família também está exposta¹,⁷. A conduta indicada não é o isolamento, e sim a investigação e o manejo do ambiente.
Qual o prognóstico?
Favorável na maioria dos casos, desde que o diagnóstico preceda a disseminação e haja adesão ao curso prolongado de tratamento, que leva meses, com acompanhamento que leva anos¹.
- 68% de desfecho favorável entre 59 gatos, no maior estudo retrospectivo de desfecho, a maioria com um único curso terapêutico⁴;
- Aproximadamente dois terços dos gatos tratados com desfecho favorável na casuística australiana⁵;
- Gatos têm prognóstico mais favorável que cães, que desenvolvem com mais frequência doença respiratória inferior, disseminada e neurológica¹,⁴,⁵.
Os pacientes recuperados apresentavam predominantemente lesões sinonasais ou lesões únicas em pele e subcutâneo; os que não se recuperaram tinham forma neurológica ou disseminada⁵.
Como conduzir o suporte nutricional durante o tratamento?
A restrição clínica é específica e se compõe de três fatores:
- Anosmia por rinopatia crônica, que produz hiporexia e perda de peso progressiva¹;
- Efeitos adversos gastrointestinais descritos para fluconazol, itraconazol, flucitosina e terbinafina¹;
- Duração do protocolo, que se estende por meses sob fármaco potencialmente hepatotóxico.
O paciente chega inapetente e precisa sustentar estado nutricional durante terapia longa. O alimento indicado responde a essa combinação com:
- Densidade energética elevada – permite atingir a necessidade energética em volume reduzido, compatível com o apetite diminuído;
- Alta palatabilidade e aroma intensificado – compensam a perda parcial ou total do olfato;
- Alta digestibilidade – reduz a carga gastrointestinal em paciente sob antifúngico prolongado.
Recomenda-se registrar peso, escore de condição corporal (ECC) e escore de massa muscular (EMM) a cada reavaliação, junto do controle do título de antígeno. Perda de ECC durante o tratamento antecede a queda de adesão do responsável e deve disparar revisão do suporte alimentar antes que a terapia seja interrompida.
Conclusão
O desfecho da criptococose depende quase inteiramente de quando ela entra na lista de diferenciais. Três condutas mudam a rotina a partir deste artigo:
- Incluir criptococose no diferencial de todo gato com corrimento nasal crônico, com ou sem deformidade facial associada;
- Solicitar pesquisa de antígeno criptocócico em soro como primeiro exame, antes de recorrer a procedimentos invasivos;
- Iniciar fluconazol nas formas localizadas e reservar a anfotericina B para as formas neurológica, ocular e sistêmica, reavaliando o título em seis semanas.
O acompanhamento deve ser programado desde a primeira consulta, com reavaliação clínica, de título e de estado nutricional. Recomenda-se informar o responsável, já nesse momento, de que o tratamento levará meses e de que o paciente não oferece risco de contágio à família.
Perguntas frequentes sobre criptococose
O que é criptococose?
Micose sistêmica oportunista causada por leveduras encapsuladas dos complexos Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii, adquirida por inalação de propágulos ambientais. É a micose sistêmica mais comum em gatos.
Criptococose em gatos passa para humanos?
Não. Não é contagiosa nem considerada zoonose. Humanos e gatos se infectam a partir da mesma fonte ambiental. O gato acometido funciona como sentinela de contaminação ambiental.
O que é o “nariz de palhaço” em gatos?
Nome popular do aumento de volume e da deformidade nasofacial da forma nasal da criptococose, acompanhados de corrimento nasal crônico e ulceração que não cicatriza.
Criptococose acomete cães?
Sim, com frequência cinco a seis vezes menor que em gatos. Em cães predominam as formas respiratória inferior, disseminada e neurológica, associadas a maior mortalidade.
Criptococose tem cura?
Sim na maioria dos casos, desde que o diagnóstico preceda a disseminação. Estudos retrospectivos descrevem desfecho favorável em cerca de dois terços dos gatos tratados, com protocolos de um a vinte e quatro meses.
Qual o melhor exame para diagnosticar criptococose?
A pesquisa de antígeno criptocócico em soro por aglutinação em látex é o exame de primeira linha. Citologia, histopatologia, cultura e PCR complementam o diagnóstico e identificam a espécie.
A ROYAL CANIN® desenvolve alimentos coadjuvantes voltados à recuperação de pacientes convalescentes e inapetentes, condição frequente em felinos sob tratamento antifúngico prolongado.
É importante enfatizar que o médico-veterinário é o melhor profissional para estipular o tratamento mais adequado e individualizado para cada paciente diagnosticado.
Use a nossa Calculadora para Prescrições para facilitar as indicações no seu dia a dia.
Referências bibliográficas
- Pennisi MG, Hartmann K, Lloret A, et al. Cryptococcosis in cats: ABCD guidelines on prevention and management. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2013;15(7):611-618. Atualização ABCD, 2024.
- Barrs VR, Bęczkowski PM, Talbot JJ, et al. Invasive fungal infections and oomycoses in cats: 1. Diagnostic approach. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2024;26(1).
- Barrs VR, Hobi S, Wong A, et al. Invasive fungal infections and oomycoses in cats: 2. Antifungal therapy. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2024;26(1).
- O’Brien CR, Krockenberger MB, Martin P, Wigney DI, Malik R. Long-term outcome of therapy for 59 cats and 11 dogs with cryptococcosis. Australian Veterinary Journal, 2006;84(11):384-392.
- McGill S, Malik R, Saul N, et al. Cryptococcosis in domestic animals in Western Australia: a retrospective study from 1995-2006. Medical Mycology, 2009;47(6):625-639.
- Trivedi SR, Sykes JE, Cannon MS, et al. Clinical features and epidemiology of cryptococcosis in cats and dogs in California: 93 cases (1988-2010). Journal of the American Veterinary Medical Association, 2011;239(3):357-369.
- Reis RS, Bonna ICF, Antonio IMS, et al. Cryptococcus neoformans VNII as the main cause of cryptococcosis in domestic cats from Rio de Janeiro, Brazil. Journal of Fungi, 2021;7(11):980.
- Gull T. Cryptococcosis in Animals. Merck Veterinary Manual (MSD), revisado em 2023, modificado em 2024.
