Castração como fator de risco para o ganho de peso em gatos: como lidar com essa questão

Castração como fator de risco para o ganho de peso em gatos: como lidar com essa questão

A castração apresenta diversos benefícios aos felinos domésticos, porém alguns cuidados específicos devem ser tomados para evitar a obesidade após a cirurgia

A esterilização é uma intervenção cirúrgica irreversível frequentemente realizada de forma eletiva em animais domésticos e que resulta na cessão de suas funções reprodutivas. Os métodos cirúrgicos rotineiros realizados na medicina veterinária são a ovariosalpingohisterectomia (OSH) nas fêmeas e a orquiectomia nos machos. A castração, como é popularmente conhecida, apresenta diversos benefícios para a saúde dos felinos cujos tutores não têm intenção de reprodução e é uma escolha inerente à posse responsável.

No entanto, diversos estudos apontam a castração como fator de risco para o ganho de peso. Após o procedimento, ocorrem alterações fisiológicas e comportamentais no animal, e médicos-veterinários e tutores devem estar atentos a essas mudanças. Veja todos os detalhes.

Alterações fisiológicas e comportamentais pós-castração

Após a cirurgia, observam-se mudanças hormonais que influenciam no ganho de peso e na maior ingestão de alimentos nos felinos. Nota-se maior impacto na resposta do hormônio colecistoquinina, aumento da prolactina, do fator de crescimento dependente de insulina e elevação dos níveis de leptina. Por outro lado, ocorre diminuição na concentração de hormônios como testosterona e estrógeno.

O estrógeno, hormônio produzido pelas gônadas femininas, possui receptores no hipotálamo e interage com a leptina, aumentando sua atividade. A leptina, por sua vez, é responsável pelo controle da ingestão alimentar e saciedade. A interação entre estrógeno e leptina atua na regulação do apetite. Além disso, o estrógeno é associado ao aumento de atividade física voluntária. Portanto, a esterilização e a redução no estrógeno circulante podem estar relacionadas com falhas na regulação do apetite e no decréscimo das atividades físicas.

Além disso, encontrou-se redução significativa de estradiol em gatos após a castração, o que é um dos fatores que influencia no aumento de ingestão de alimento.

Estudos apontam que 80% dos tutores de gatos fornecem alimento ad libitum a seus animais. Uma pesquisa revelou que gatos castrados que receberam alimentação ad libitum apresentaram aumento na ingestão voluntária de alimento em um período de 10 semanas após a esterilização (Figura 1).

Outro estudo realizado com machos e fêmeas castrados demonstrou que no período de 3 meses após a esterilização estes animais ganharam 30,2% e 40% de peso, respectivamente (Figura 2). Gatos filhotes castrados continuaram a acumular peso, apresentando-se 24% mais pesados com um ano de idade do que os gatos inteiros com o mesmo tempo de vida. Alguns gatos chegaram a precisar de uma redução de até 50% da quantidade calórica ingerida para a manutenção de peso após a castração.

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Figura 1: Aumento na ingestão voluntária de alimentos em machos e fêmeas após a castração.
Fonte: Belsito, 2008.

Leia também: 6 fatores de risco para obesidade em gatos

Ao mesmo tempo, gatos inteiros apresentaram aumento de 11,8% de seu peso neste mesmo período. Ou seja, além de observarmos que o ganho de peso é um fenômeno mundial em animais de estimação, assim como em humanos, o procedimento de esterilização aumenta ainda mais a probabilidade do animal se tornar obeso.

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Figura 2: Evolução do ganho de peso no período de 3 meses após a castração em gatos domésticos.
Fonte: Fettman, 1997.

Um estudo que mensurou, por calorimetria indireta, a taxa metabólica de gatos esterilizados e gatos inteiros observou que a produção de calor (medida da taxa metabólica) era 28% maior nos machos inteiros e 33% maior nas fêmeas inteiras, quando comparados com os esterilizados (Figura 3).

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Figura 3: Comparativo das necessidades energéticas de felinos machos e fêmeas inteiros e castrados.
Fonte: Root, 1996.

Obesidade e comorbidades

A prevenção da obesidade é importante porque esta condição está associada a outros problemas médicos, como diabetes (3,9 vezes mais), artropatias/claudicação (4,9 vezes mais), dermatopatias não-alérgicas (2,3 vezes mais), além de doenças do trato urinário e diarreia.

A associação da esterilização com a obesidade são consideradas fatores de risco para o aumento do risco de urolitíases, sendo risco 7 vezes maior para formação de urólitos de oxalato de cálcio e 3,5 vezes maior para a formação de urólitos de estruvita.

Gatos castrados não só possuem risco maior de se tornarem obesos como também de se tornarem diabéticos. Essa probabilidade, que pode ser de 2 a 3 vezes maior do que em gatos inteiros, ocorre devido à redução na sensibilidade à insulina, condição geralmente reversível quando a obesidade é tratada.

É importante ressaltar que gatas esterilizadas antes dos 6 meses de idade tem uma redução de 91% no risco de desenvolver tumores malignos de mamas quando comparadas a gatas inteiras. Se a esterilização ocorrer antes de 1 ano de idade, esse risco se reduz a 86%, e se esterilizadas entre 1 e 2 anos, há redução de risco em 11%. Após 2 anos de idade, a esterilização não mostra benefícios para esses casos.

Manejo nutricional do gato castrado

Uma vez conhecidas as particularidades dos gatos esterilizados, é possível atuar, através da nutrição, na redução do risco de algumas condições, principalmente a obesidade. De um modo geral, os alimentos para gatos esterilizados devem apresentar:

  • Teor energético moderado: a redução de calorias auxilia na manutenção da condição corporal ideal. A literatura cita restrições energéticas de 20 a 30%;
  • Alta proteína: fornece menos calorias quando comparada à gordura ou aos carboidratos, além de colaborar no controle glicêmico e preservar massa muscular magra;
  • Alta fibra: as fibras contribuem para a diluição energética do alimento e para a saciedade;
  • L-carnitina: atua sobre o transporte de ácidos graxos de cadeia longa através da membrana mitocondrial e consequente oxidação e produção de energia;
  • Alimento úmido: a água, por não conter calorias, permite um volume de refeição maior, o que contribui para a saciedade. Além disso, contribui para a saúde do trato urinário.

A ingestão de alimento é o fator chave para o ganho de peso após a castração. Recomenda-se que sejam feitos ajustes na quantidade de alimento oferecida, além de oferecer porções controladas e fracionar a quantidade total ao longo do dia.

Deve-se evitar o oferecimento ad libitum e optar por porções controladas de alimento cuja fórmula nutricional tenha sido desenvolvida exclusivamente para animais castrados, ou seja, que atuem no controle de peso e promovam saúde urinária, especialmente quando falamos de felinos.

A dieta precisa ser adaptada imediatamente após a cirurgia, tomando-se o cuidado de realizar a transição alimentar gradual. A utilização de brinquedos específicos pode ser útil para minimizar a velocidade de consumo do alimento, e estes estão amplamente disponíveis em diversos formatos para venda em pet shops.

Exercícios físicos

O estímulo para atividade física também deve ser realizado. Gatos que vivem em ambientes internos irão se beneficiar do enriquecimento ambiental implementado no local, como colocação de prateleiras, arranhadores e lugares altos para que eles possam subir e se esconder. Além de estimular a prática de exercícios, o enriquecimento ambiental favorece o comportamento normal destes animais.

Dicas para implementar na consulta de um felino castrado

  • Prescreva um alimento que apresente perfil nutricional desejado para o gato castrado, ou seja, que possua teor calórico moderado, alta proteína e alta fibra, além de nutrientes que favoreçam a queima calórica. A prescrição por escrito contribui para que o proprietário colabore e diminui as chances de erros no manejo alimentar.
  • Crie um programa de acompanhamento mensal do paciente castrado pelo menos durante os 3 primeiros meses após a cirurgia. A anamnese e as pesagens periódicas, assim como o registro destas informações no prontuário do animal e a conversa frequente com o tutor contribuirão para que sejam realizados acompanhamento e prevenção efetivos do ganho de peso pós-castração.
  • Aborde sempre a educação nutricional com o tutor. Verifique se o alimento está sendo fornecido conforme prescrito e se todas as pessoas que residem na mesma casa estão cientes do manejo nutricional adequado.
  • Explique ao tutor que a prevenção do ganho de peso é preferível e mais simples de ser realizada do que o tratamento que eventualmente deverá ser implementado no futuro caso estas medidas sejam negligenciadas.

Animais castrados vivem mais que animais inteiros. É responsabilidade do médico-veterinário orientar os tutores sobre as alterações decorrentes da esterilização, a adaptação da dieta, o correto manejo alimentar e a prescrição de exercícios.

A clara associação entre esterilização e ganho de peso significa que devemos ser intencionais na prescrição nutricional nesse momento. Se o número de esterilizações vem aumentando como forma preventiva de controle de população dos animais, essas conversas sobre as alterações decorrentes da esterilização se tornam igualmente importantes para a medicina preventiva.

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A ROYAL CANIN® apresenta soluções nutricionais específicas para o manejo nutricional de gatos castrados a partir de 6 meses de idade com a linha exclusiva CASTRADOS®, com opções secas e úmidas que promovem saúde e bem-estar e contribuem para evitar o ganho de peso após o procedimento de esterilização.

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