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Pastor de Shetland: características, saúde e manejo nutricional da raça

Pastor de Shetland: características, saúde e manejo nutricional da raça
Atualizado em 23 de outubro de 2026
Tempo de leitura: 12min
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O Pastor de Shetland está entre as raças de pastoreio com maior frequência da mutação MDR1 no Brasil; veja o que isso muda na prescrição e no manejo.

Este guia reúne o que orienta o atendimento clínico do Pastor de Shetland: origem e padrão racial, características físicas em formato de consulta rápida, a mutação MDR1 e seu impacto direto sobre a prescrição, as principais predisposições hereditárias e o manejo nutricional da raça. Na prática clínica, a genotipagem para MDR1 auxilia na definição da conduta antes do uso de medicamentos associados à sensibilidade à glicoproteína P.

O Pastor de Shetland, ou Shetland Sheepdog, é um cão de pastoreio de pequeno a médio porte derivado da linhagem Collie, o que explica sua característica mais relevante para a clínica: a frequência elevada da mutação do gene MDR1. No Brasil, Monobe e colaboradores (2015) encontraram o genótipo heterozigoto em 15,8% de 76 Pastores de Shetland avaliados¹.

Isso significa que, na prática, cerca de um em cada sete pacientes da raça carrega o alelo mutante¹, e a alteração de resposta farmacológica não se restringe ao homozigoto: heterozigotos apresentaram toxicidade hematológica significativa com vincristina em doses convencionais². Como o portador não expressa fenótipo visível³, o dado não é obtido por exame físico.

Qual a origem do Pastor de Shetland?

A raça é originária das Ilhas Shetland, ao norte da Escócia, onde foi empregada por agricultores no pastoreio de ovelhas, pôneis e aves. Sua formação provável inclui o Collie Escocês, o cão islandês “Yakkie” e o Spitz dos pescadores escandinavos⁸.

Até o início do século XX, a população permaneceu isolada de outras raças, o que favoreceu a fixação de variantes hereditárias. O primeiro clube da raça foi criado em 1908, nas Ilhas Shetland, e, posteriormente, o nome foi alterado para Shetland Sheepdog por pressão dos criadores de Collie, com reconhecimento oficial em 1914. A ascendência Collie está relacionada à presença da mutação MDR1 na raça. O apelido “Shelt” ou “Sheltie” é de uso corrente entre criadores e responsáveis, sendo importante reconhecê-lo durante a anamnese. 

Cão da raça Pastor de Shetland em ambiente externo

Quais são as características físicas do Pastor de Shetland?

Morfologicamente, o Pastor de Shetland lembra um Collie de pelagem áspera em miniatura, com torso profundo e nivelado.

A FCI classifica a raça por altura, não por peso⁷. Como a faixa de peso da raça transita em torno do limite de 10 kg, a escolha de linha nutricional por porte não pode ser feita por presunção racial. Deve-se pesar o paciente.

Segue abaixo a tabela de particularidades da raça:

Como é o temperamento da raça na consulta?

O Pastor de Shetland é um cão atento, ágil e reativo a estímulos sonoros e movimentos, características relacionadas à sua função de pastoreio. Na rotina clínica, esses traços podem se refletir em vocalização e reatividade no ambiente de espera, sendo preferível, quando possível, o atendimento em horários de menor movimento. A reserva diante de pessoas desconhecidas também recomenda uma abordagem lateral e contenção mínima. Por outro lado, a alta responsividade ao treino favorece protocolos de dessensibilização, especialmente em procedimentos recorrentes. 

O gene MDR1, também designado ABCB1, codifica a glicoproteína P, transportador de membrana que atua na barreira hematoencefálica e na excreção biliar de diversos fármacos. A variante ABCB1-1Δ consiste em uma deleção de quatro pares de base que gera códon de parada prematuro e resulta em proteína truncada e afuncional¹,².

A consequência é direta: sem glicoproteína P funcional, substratos atravessam a barreira hematoencefálica e se acumulam no sistema nervoso central, e a excreção biliar fica comprometida.

Qual a frequência da mutação em Pastores de Shetland?

PopulaçãoAchado
Brasil (76 cães)Heterozigotos 15,8%; frequência do alelo mutante 7,9%¹
Europa (levantamento multipaís)Frequência do alelo mutante de 30,3%³

 

A diferença entre as duas casuísticas é relevante para a interpretação: o dado brasileiro é o aplicável à rotina nacional, e ainda assim sustenta que a mutação não é evento raro na raça.

Quais fármacos exigem atenção?

Os substratos da glicoproteína P com relato de toxicidade aumentada em cães portadores incluem²,³,⁶:

  • Lactonas macrocíclicas – ivermectina, moxidectina, selamectina, milbemicina. Seguras nas doses de prevenção de dirofilariose; a toxicidade neurológica aparece em doses várias vezes superiores;
  • Loperamida – nas doses usadas para diarreia já produz toxicidade neurológica em portadores. Deve ser evitada;
  • Antineoplásicos – vincristina, vinblastina, doxorrubicina, paclitaxel. Mealey e colaboradores (2008) demonstraram que cães heterozigotos ou homozigotos para ABCB1-1Δ têm probabilidade significativamente maior de neutropenia e trombocitopenia com vincristina nas doses convencionais de 0,5 a 0,7 mg/m²²;
  • Acepromazina e butorfanol – Deshpande e colaboradores (2016) documentaram maior profundidade e duração da sedação em cães homozigotos após acepromazina intravenosa⁶. Recomenda-se redução de dose;
  • Apomorfina e emodepsida – descritos como substratos com resposta alterada³.

A mutação não produz fenótipo visível, e a resposta no heterozigoto é imprevisível, o que inviabiliza a decisão baseada apenas na inspeção clínica. Por isso, a conduta deve ser laboratorial, com genotipagem antes da primeira prescrição de qualquer substrato da glicoproteína P, por meio de suabe oral ou sangue. 

O genótipo deve ser registrado no prontuário e comunicado ao responsável em formato portável, permitindo sua consulta em atendimentos de urgência fora da clínica. Enquanto o resultado não estiver disponível, recomenda-se tratar o paciente como potencial portador, evitando loperamida e reduzindo as doses de acepromazina e butorfanol. Nos animais heterozigotos, o ajuste de dose também deve ser considerado, e não apenas nos homozigotos, uma vez que a toxicidade hematológica por vincristina já foi documentada em ambos os genótipos.

Pastor de Shetland correndo atrás de um brinquedo em área gramada

A quais doenças hereditárias o Pastor de Shetland é predisposto?

A raça é, em linhas gerais, saudável, mas concentra um conjunto definido de afecções hereditárias que orientam a triagem⁵.

Anomalia do olho Collie

A anomalia do olho Collie (CEA) é uma alteração caracterizada pelo desenvolvimento inadequado da coroide, podendo estar associada a coloboma do disco óptico ou de áreas adjacentes, estafiloma da esclera e descolamento de retina, com ou sem hemorragia.

Figura 1. Descolamento precoce da retina e hemorragia desenvolvendo-se lateralmente ao disco óptico no olho de um filhote de Collie. Fonte: Merck Veterinary Manual, Diagnostic Imaging, 2025.
Figura 1. Descolamento precoce da retina e hemorragia desenvolvendo-se lateralmente ao disco óptico no olho de um filhote de Collie. Fonte: Merck Veterinary Manual, Diagnostic Imaging, 2025.

Displasia coxofemoral

Nos Pastores de Shetland, a displasia coxofemoral consiste na má formação das articulações coxofemorais, com fricção, deterioração progressiva, dor e artrite.

Doenças dermatológicas

A dermatomiosite familiar (DMS) é uma dermatopatia isquêmica associada a lesão muscular com maior incidência em Pastores de Shetland e Collies. A doença está relacionada a uma predisposição genética poligênica e pode ser desencadeada ou agravada por fatores ambientais. As lesões cutâneas resultam de uma alteração inflamatória vascular que compromete a irrigação e a oxigenação dos tecidos, levando à atrofia, fragilidade da pele e alopecia. Inicialmente, podem ser observados eritema, perda de pelos, descamação e formação de crostas, com progressão para erosões e úlceras. Em fases mais avançadas, podem ocorrer áreas de alopecia cicatricial, especialmente na face, porção distal dos membros, ponta da cauda e regiões de maior proeminência óssea. Os sinais podem surgir ainda na fase de filhote, por volta dos 7 a 11 meses, enquanto o comprometimento muscular, quando presente, é frequentemente mais discreto e pode afetar os músculos da mastigação. A exposição à radiação ultravioleta pode exacerbar as lesões.

A dermatose ulcerativa é uma doença cutânea caracterizada por erosões e ulcerações, principalmente em áreas com menor cobertura de pelos, com possível agravamento pela exposição solar. 

Doenças Cardiovasculares

A persistência do ducto arterioso (PDA) caracteriza-se pela ausência de oclusão do ducto arterioso nas primeiras 24 a 48 horas de vida, resultando em recirculação sanguínea, sobrecarga de trabalho cardíaco e risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca.

A doença de von Willebrand, por sua vez, é um distúrbio hemorrágico hereditário decorrente da deficiência do fator de von Willebrand, com implicação direta no planejamento e na realização de procedimentos cirúrgicos eletivos.

Doenças Neurológicas

Entre as alterações hereditárias descritas na raça está a surdez hereditária, de caráter neurossensorial e que pode ser uni ou bilateral, decorrente da degeneração das estruturas do ouvido interno poucas semanas após o nascimento. Também é descrita a leucodistrofia do Pastor de Shetland, entidade específica da raça descrita por Wood e Patterson (2001), caracterizada pela degeneração da substância branca do sistema nervoso central⁴.

Suporte à pelagem

A pelagem dupla, com subpelo denso, sustenta demanda continuada de ácidos graxos ômega 3 e 6 e de aminoácidos precursores de pigmentação⁸. Deve-se avaliar brilho, densidade e textura do pelo a cada consulta como indicador indireto de adequação nutricional.

O que muda na consulta de um Pastor de Shetland?

O manejo clínico deve priorizar a genotipagem de MDR1 antes da primeira prescrição de lactona macrocíclica, loperamida, antineoplásico, acepromazina ou butorfanol, com registro do resultado em prontuário. A avaliação nutricional também deve considerar o peso individual do paciente, uma vez que o padrão racial é definido pela altura e a faixa de peso pode transitar entre diferentes portes.

Na consulta de filhote, recomenda-se ainda incluir a avaliação oftalmológica e investigar o histórico hemorrágico antes da realização de procedimentos eletivos. Na ausência de genotipagem, o paciente deve ser conduzido como portador presumido. 

Como deve ser o manejo nutricional do Pastor de Shetland?

Como o padrão racial não define o peso do paciente⁷, a escolha da linha nutricional deve ser feita a partir da aferição individual, e não apenas pela raça. Pacientes com até 10 kg podem ser direcionados à linha formulada para porte pequeno, enquanto aqueles acima desse peso devem ter o porte de referência reavaliado antes da manutenção dessa indicação. Em todos os casos, a prescrição deve considerar também a fase de vida, o escore de condição corporal, o nível de atividade e as afecções concomitantes.

O controle de peso deve ser baseado na necessidade energética individual, evitando o uso direto das porções genéricas indicadas na embalagem. Os petiscos devem representar, no máximo, 10% das calorias diárias, com água limpa e fresca permanentemente disponível. O peso e o escore de condição corporal devem ser registrados e acompanhados a cada retorno.

A linha Mini da ROYAL CANIN® é formulada para atender às demandas nutricionais de cães de porte pequeno, com opções específicas de acordo com a fase de vida e as necessidades do paciente.

Para filhotes de porte pequeno, o ROYAL CANIN® Mini Puppy é indicado dos 2 aos 10 meses de idade. Para cães que vivem em ambiente interno, a linha Mini Indoor também conta com opções específicas: o ROYAL CANIN® Mini Indoor Puppy, indicado para filhotes de 2 a 10 meses, e o ROYAL CANIN® Mini Indoor Adult, destinado a cães adultos de porte pequeno a partir dos 10 meses.

Na fase adulta, o ROYAL CANIN® Mini Adult é indicado para cães de porte pequeno dos 10 meses aos 8 anos. A partir dos 8 anos, o ROYAL CANIN® Mini Adult 8+ oferece uma opção voltada aos primeiros sinais do envelhecimento. Para cães maduros a partir de 12 anos, o ROYAL CANIN® Mini Ageing 12+ atende às necessidades específicas dessa fase.

Já o ROYAL CANIN® Mini Coat Care é destinado a cães adultos e maduros de porte pequeno, a partir dos 10 meses, que apresentam pelagem opaca e áspera, com versões seca e úmida. Seu perfil nutricional combina ácidos graxos ômega 3 e 6, que sustentam a saúde da pele e o crescimento da pelagem, e tirosina, precursora da síntese de melanina, que atua sobre a intensidade da cor do pelo.

É importante enfatizar que o médico-veterinário é o melhor profissional para estipular a recomendação nutricional mais adequada e individualizada para cada paciente.

Acesse a Calculadora de Prescrições da ROYAL CANIN® e confira a recomendação por idade, nível de atividade física e necessidades nutricionais específicas.

Perguntas frequentes

Qual o tamanho do Pastor de Shetland?

A altura ideal na cernelha é de 37 cm para machos e 35,5 cm para fêmeas, com tolerância de até 2,5 cm para mais ou para menos, o que define a faixa de 33 a 39,5 cm. O padrão FCI não especifica peso.

Pastor de Shetland e Shetland Collie são a mesma raça?

Sim. O nome oficial é Shetland Sheepdog, e “Shetland Collie” é designação informal derivada da ascendência Collie da raça. Apesar da semelhança morfológica, é raça distinta do Collie.

O Pastor de Shetland tem a mutação MDR1?

Pode ter. Em levantamento brasileiro com 76 cães da raça, 15,8% eram heterozigotos para a mutação. A genotipagem é o único método de identificação, já que o portador não apresenta fenótipo visível.

Quais cuidados o filhote de Pastor de Shetland exige?

Avaliação oftalmológica precoce pela predisposição à anomalia do olho Collie, verificação de audição pela surdez hereditária neurossensorial, investigação de histórico hemorrágico familiar antes de procedimentos eletivos e genotipagem MDR1 antes da primeira vermifugação com lactona macrocíclica.

A quais doenças o Pastor de Shetland é predisposto?

Anomalia do olho Collie, dermatomiosite, surdez hereditária, persistência do ducto arterioso, doença de von Willebrand, displasia coxofemoral e leucodistrofia do Pastor de Shetland.

Referências

  1. Monobe MM, Araujo Junior JP, Lunsford KV, Silva RC, Bulla C. Frequency of the MDR1 mutant allele associated with multidrug sensitivity in dogs from Brazil. Veterinary Medicine: Research and Reports, 2015;6:111-117. 
  2. Mealey KL, Fidel J, Gay JM, Impellizeri JA, Clifford CA, Bergman PJ. ABCB1-1Δ polymorphism can predict hematologic toxicity in dogs treated with vincristine. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2008;22(4):996-1000. 
  3. Firdová Z, Turňová E, Bieliková M, Turňa J, Dudáš A. The prevalence of ABCB1:c.227_230delATAG mutation in affected dog breeds from European countries. Research in Veterinary Science, 2016. 
  4. Wood SL, Patterson JS. Shetland Sheepdog leukodystrophy. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2001;15(5):486-493. 
  5. Gough A, Thomas A, O’Neill D. Breed Predispositions to Disease in Dogs and Cats. 3ª ed. Wiley-Blackwell, 2018. 
  6. Deshpande D, Hill KE, Mealey KL, Chambers JP, Gieseg MA. The effect of the canine ABCB1-1Δ mutation on sedation after intravenous administration of acepromazine. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2016;30(2):636-641. 
  7. Fédération Cynologique Internationale. Shetland Sheepdog, padrão nº 88. 
  8. Royal Canin. Enciclopédia do Cão. Aniwa Publishing, 2006.
  9. Conselho Brasileiro da Raça Pastor de Shetland. Dermatomiosite (DMS). [S. l.]: CBRPS, [s. d.]. 

 

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