Pastor de Shetland: características, saúde e manejo nutricional da raça
Links rápidos:
- Qual a origem do Pastor de Shetland?
- Quais são as características físicas do Pastor de Shetland?
- Como é o temperamento da raça na consulta?
- Qual a frequência da mutação em Pastores de Shetland?
- Quais fármacos exigem atenção?
- A quais doenças hereditárias o Pastor de Shetland é predisposto?
- Suporte à pelagem
- O que muda na consulta de um Pastor de Shetland?
- Como deve ser o manejo nutricional do Pastor de Shetland?
- Perguntas frequentes
O Pastor de Shetland está entre as raças de pastoreio com maior frequência da mutação MDR1 no Brasil; veja o que isso muda na prescrição e no manejo.
Este guia reúne o que orienta o atendimento clínico do Pastor de Shetland: origem e padrão racial, características físicas em formato de consulta rápida, a mutação MDR1 e seu impacto direto sobre a prescrição, as principais predisposições hereditárias e o manejo nutricional da raça. Na prática clínica, a genotipagem para MDR1 auxilia na definição da conduta antes do uso de medicamentos associados à sensibilidade à glicoproteína P.
O Pastor de Shetland, ou Shetland Sheepdog, é um cão de pastoreio de pequeno a médio porte derivado da linhagem Collie, o que explica sua característica mais relevante para a clínica: a frequência elevada da mutação do gene MDR1. No Brasil, Monobe e colaboradores (2015) encontraram o genótipo heterozigoto em 15,8% de 76 Pastores de Shetland avaliados¹.
Isso significa que, na prática, cerca de um em cada sete pacientes da raça carrega o alelo mutante¹, e a alteração de resposta farmacológica não se restringe ao homozigoto: heterozigotos apresentaram toxicidade hematológica significativa com vincristina em doses convencionais². Como o portador não expressa fenótipo visível³, o dado não é obtido por exame físico.
Qual a origem do Pastor de Shetland?
A raça é originária das Ilhas Shetland, ao norte da Escócia, onde foi empregada por agricultores no pastoreio de ovelhas, pôneis e aves. Sua formação provável inclui o Collie Escocês, o cão islandês “Yakkie” e o Spitz dos pescadores escandinavos⁸.
Até o início do século XX, a população permaneceu isolada de outras raças, o que favoreceu a fixação de variantes hereditárias. O primeiro clube da raça foi criado em 1908, nas Ilhas Shetland, e, posteriormente, o nome foi alterado para Shetland Sheepdog por pressão dos criadores de Collie, com reconhecimento oficial em 1914. A ascendência Collie está relacionada à presença da mutação MDR1 na raça. O apelido “Shelt” ou “Sheltie” é de uso corrente entre criadores e responsáveis, sendo importante reconhecê-lo durante a anamnese.

Quais são as características físicas do Pastor de Shetland?
Morfologicamente, o Pastor de Shetland lembra um Collie de pelagem áspera em miniatura, com torso profundo e nivelado.
A FCI classifica a raça por altura, não por peso⁷. Como a faixa de peso da raça transita em torno do limite de 10 kg, a escolha de linha nutricional por porte não pode ser feita por presunção racial. Deve-se pesar o paciente.
Segue abaixo a tabela de particularidades da raça:

Como é o temperamento da raça na consulta?
O Pastor de Shetland é um cão atento, ágil e reativo a estímulos sonoros e movimentos, características relacionadas à sua função de pastoreio. Na rotina clínica, esses traços podem se refletir em vocalização e reatividade no ambiente de espera, sendo preferível, quando possível, o atendimento em horários de menor movimento. A reserva diante de pessoas desconhecidas também recomenda uma abordagem lateral e contenção mínima. Por outro lado, a alta responsividade ao treino favorece protocolos de dessensibilização, especialmente em procedimentos recorrentes.
O gene MDR1, também designado ABCB1, codifica a glicoproteína P, transportador de membrana que atua na barreira hematoencefálica e na excreção biliar de diversos fármacos. A variante ABCB1-1Δ consiste em uma deleção de quatro pares de base que gera códon de parada prematuro e resulta em proteína truncada e afuncional¹,².
A consequência é direta: sem glicoproteína P funcional, substratos atravessam a barreira hematoencefálica e se acumulam no sistema nervoso central, e a excreção biliar fica comprometida.
Qual a frequência da mutação em Pastores de Shetland?
| População | Achado |
|---|---|
| Brasil (76 cães) | Heterozigotos 15,8%; frequência do alelo mutante 7,9%¹ |
| Europa (levantamento multipaís) | Frequência do alelo mutante de 30,3%³ |
A diferença entre as duas casuísticas é relevante para a interpretação: o dado brasileiro é o aplicável à rotina nacional, e ainda assim sustenta que a mutação não é evento raro na raça.
Quais fármacos exigem atenção?
Os substratos da glicoproteína P com relato de toxicidade aumentada em cães portadores incluem²,³,⁶:
- Lactonas macrocíclicas – ivermectina, moxidectina, selamectina, milbemicina. Seguras nas doses de prevenção de dirofilariose; a toxicidade neurológica aparece em doses várias vezes superiores;
- Loperamida – nas doses usadas para diarreia já produz toxicidade neurológica em portadores. Deve ser evitada;
- Antineoplásicos – vincristina, vinblastina, doxorrubicina, paclitaxel. Mealey e colaboradores (2008) demonstraram que cães heterozigotos ou homozigotos para ABCB1-1Δ têm probabilidade significativamente maior de neutropenia e trombocitopenia com vincristina nas doses convencionais de 0,5 a 0,7 mg/m²²;
- Acepromazina e butorfanol – Deshpande e colaboradores (2016) documentaram maior profundidade e duração da sedação em cães homozigotos após acepromazina intravenosa⁶. Recomenda-se redução de dose;
- Apomorfina e emodepsida – descritos como substratos com resposta alterada³.
A mutação não produz fenótipo visível, e a resposta no heterozigoto é imprevisível, o que inviabiliza a decisão baseada apenas na inspeção clínica. Por isso, a conduta deve ser laboratorial, com genotipagem antes da primeira prescrição de qualquer substrato da glicoproteína P, por meio de suabe oral ou sangue.
O genótipo deve ser registrado no prontuário e comunicado ao responsável em formato portável, permitindo sua consulta em atendimentos de urgência fora da clínica. Enquanto o resultado não estiver disponível, recomenda-se tratar o paciente como potencial portador, evitando loperamida e reduzindo as doses de acepromazina e butorfanol. Nos animais heterozigotos, o ajuste de dose também deve ser considerado, e não apenas nos homozigotos, uma vez que a toxicidade hematológica por vincristina já foi documentada em ambos os genótipos.

A quais doenças hereditárias o Pastor de Shetland é predisposto?
A raça é, em linhas gerais, saudável, mas concentra um conjunto definido de afecções hereditárias que orientam a triagem⁵.
Anomalia do olho Collie
A anomalia do olho Collie (CEA) é uma alteração caracterizada pelo desenvolvimento inadequado da coroide, podendo estar associada a coloboma do disco óptico ou de áreas adjacentes, estafiloma da esclera e descolamento de retina, com ou sem hemorragia.

Displasia coxofemoral
Nos Pastores de Shetland, a displasia coxofemoral consiste na má formação das articulações coxofemorais, com fricção, deterioração progressiva, dor e artrite.
Doenças dermatológicas
A dermatomiosite familiar (DMS) é uma dermatopatia isquêmica associada a lesão muscular com maior incidência em Pastores de Shetland e Collies. A doença está relacionada a uma predisposição genética poligênica e pode ser desencadeada ou agravada por fatores ambientais. As lesões cutâneas resultam de uma alteração inflamatória vascular que compromete a irrigação e a oxigenação dos tecidos, levando à atrofia, fragilidade da pele e alopecia. Inicialmente, podem ser observados eritema, perda de pelos, descamação e formação de crostas, com progressão para erosões e úlceras. Em fases mais avançadas, podem ocorrer áreas de alopecia cicatricial, especialmente na face, porção distal dos membros, ponta da cauda e regiões de maior proeminência óssea. Os sinais podem surgir ainda na fase de filhote, por volta dos 7 a 11 meses, enquanto o comprometimento muscular, quando presente, é frequentemente mais discreto e pode afetar os músculos da mastigação. A exposição à radiação ultravioleta pode exacerbar as lesões.
A dermatose ulcerativa é uma doença cutânea caracterizada por erosões e ulcerações, principalmente em áreas com menor cobertura de pelos, com possível agravamento pela exposição solar.
Doenças Cardiovasculares
A persistência do ducto arterioso (PDA) caracteriza-se pela ausência de oclusão do ducto arterioso nas primeiras 24 a 48 horas de vida, resultando em recirculação sanguínea, sobrecarga de trabalho cardíaco e risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca.
A doença de von Willebrand, por sua vez, é um distúrbio hemorrágico hereditário decorrente da deficiência do fator de von Willebrand, com implicação direta no planejamento e na realização de procedimentos cirúrgicos eletivos.
Doenças Neurológicas
Entre as alterações hereditárias descritas na raça está a surdez hereditária, de caráter neurossensorial e que pode ser uni ou bilateral, decorrente da degeneração das estruturas do ouvido interno poucas semanas após o nascimento. Também é descrita a leucodistrofia do Pastor de Shetland, entidade específica da raça descrita por Wood e Patterson (2001), caracterizada pela degeneração da substância branca do sistema nervoso central⁴.
Suporte à pelagem
A pelagem dupla, com subpelo denso, sustenta demanda continuada de ácidos graxos ômega 3 e 6 e de aminoácidos precursores de pigmentação⁸. Deve-se avaliar brilho, densidade e textura do pelo a cada consulta como indicador indireto de adequação nutricional.
O que muda na consulta de um Pastor de Shetland?
O manejo clínico deve priorizar a genotipagem de MDR1 antes da primeira prescrição de lactona macrocíclica, loperamida, antineoplásico, acepromazina ou butorfanol, com registro do resultado em prontuário. A avaliação nutricional também deve considerar o peso individual do paciente, uma vez que o padrão racial é definido pela altura e a faixa de peso pode transitar entre diferentes portes.
Na consulta de filhote, recomenda-se ainda incluir a avaliação oftalmológica e investigar o histórico hemorrágico antes da realização de procedimentos eletivos. Na ausência de genotipagem, o paciente deve ser conduzido como portador presumido.
Como deve ser o manejo nutricional do Pastor de Shetland?
Como o padrão racial não define o peso do paciente⁷, a escolha da linha nutricional deve ser feita a partir da aferição individual, e não apenas pela raça. Pacientes com até 10 kg podem ser direcionados à linha formulada para porte pequeno, enquanto aqueles acima desse peso devem ter o porte de referência reavaliado antes da manutenção dessa indicação. Em todos os casos, a prescrição deve considerar também a fase de vida, o escore de condição corporal, o nível de atividade e as afecções concomitantes.
O controle de peso deve ser baseado na necessidade energética individual, evitando o uso direto das porções genéricas indicadas na embalagem. Os petiscos devem representar, no máximo, 10% das calorias diárias, com água limpa e fresca permanentemente disponível. O peso e o escore de condição corporal devem ser registrados e acompanhados a cada retorno.
A linha Mini da ROYAL CANIN® é formulada para atender às demandas nutricionais de cães de porte pequeno, com opções específicas de acordo com a fase de vida e as necessidades do paciente.
Para filhotes de porte pequeno, o ROYAL CANIN® Mini Puppy é indicado dos 2 aos 10 meses de idade. Para cães que vivem em ambiente interno, a linha Mini Indoor também conta com opções específicas: o ROYAL CANIN® Mini Indoor Puppy, indicado para filhotes de 2 a 10 meses, e o ROYAL CANIN® Mini Indoor Adult, destinado a cães adultos de porte pequeno a partir dos 10 meses.

Na fase adulta, o ROYAL CANIN® Mini Adult é indicado para cães de porte pequeno dos 10 meses aos 8 anos. A partir dos 8 anos, o ROYAL CANIN® Mini Adult 8+ oferece uma opção voltada aos primeiros sinais do envelhecimento. Para cães maduros a partir de 12 anos, o ROYAL CANIN® Mini Ageing 12+ atende às necessidades específicas dessa fase.

Já o ROYAL CANIN® Mini Coat Care é destinado a cães adultos e maduros de porte pequeno, a partir dos 10 meses, que apresentam pelagem opaca e áspera, com versões seca e úmida. Seu perfil nutricional combina ácidos graxos ômega 3 e 6, que sustentam a saúde da pele e o crescimento da pelagem, e tirosina, precursora da síntese de melanina, que atua sobre a intensidade da cor do pelo.

É importante enfatizar que o médico-veterinário é o melhor profissional para estipular a recomendação nutricional mais adequada e individualizada para cada paciente.
Acesse a Calculadora de Prescrições da ROYAL CANIN® e confira a recomendação por idade, nível de atividade física e necessidades nutricionais específicas.
Perguntas frequentes
Qual o tamanho do Pastor de Shetland?
A altura ideal na cernelha é de 37 cm para machos e 35,5 cm para fêmeas, com tolerância de até 2,5 cm para mais ou para menos, o que define a faixa de 33 a 39,5 cm. O padrão FCI não especifica peso.
Pastor de Shetland e Shetland Collie são a mesma raça?
Sim. O nome oficial é Shetland Sheepdog, e “Shetland Collie” é designação informal derivada da ascendência Collie da raça. Apesar da semelhança morfológica, é raça distinta do Collie.
O Pastor de Shetland tem a mutação MDR1?
Pode ter. Em levantamento brasileiro com 76 cães da raça, 15,8% eram heterozigotos para a mutação. A genotipagem é o único método de identificação, já que o portador não apresenta fenótipo visível.
Quais cuidados o filhote de Pastor de Shetland exige?
Avaliação oftalmológica precoce pela predisposição à anomalia do olho Collie, verificação de audição pela surdez hereditária neurossensorial, investigação de histórico hemorrágico familiar antes de procedimentos eletivos e genotipagem MDR1 antes da primeira vermifugação com lactona macrocíclica.
A quais doenças o Pastor de Shetland é predisposto?
Anomalia do olho Collie, dermatomiosite, surdez hereditária, persistência do ducto arterioso, doença de von Willebrand, displasia coxofemoral e leucodistrofia do Pastor de Shetland.
Referências
- Monobe MM, Araujo Junior JP, Lunsford KV, Silva RC, Bulla C. Frequency of the MDR1 mutant allele associated with multidrug sensitivity in dogs from Brazil. Veterinary Medicine: Research and Reports, 2015;6:111-117.
- Mealey KL, Fidel J, Gay JM, Impellizeri JA, Clifford CA, Bergman PJ. ABCB1-1Δ polymorphism can predict hematologic toxicity in dogs treated with vincristine. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2008;22(4):996-1000.
- Firdová Z, Turňová E, Bieliková M, Turňa J, Dudáš A. The prevalence of ABCB1:c.227_230delATAG mutation in affected dog breeds from European countries. Research in Veterinary Science, 2016.
- Wood SL, Patterson JS. Shetland Sheepdog leukodystrophy. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2001;15(5):486-493.
- Gough A, Thomas A, O’Neill D. Breed Predispositions to Disease in Dogs and Cats. 3ª ed. Wiley-Blackwell, 2018.
- Deshpande D, Hill KE, Mealey KL, Chambers JP, Gieseg MA. The effect of the canine ABCB1-1Δ mutation on sedation after intravenous administration of acepromazine. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2016;30(2):636-641.
- Fédération Cynologique Internationale. Shetland Sheepdog, padrão nº 88.
- Royal Canin. Enciclopédia do Cão. Aniwa Publishing, 2006.
- Conselho Brasileiro da Raça Pastor de Shetland. Dermatomiosite (DMS). [S. l.]: CBRPS, [s. d.].

