Lama biliar em cães e gatos: principais causas, diagnóstico e tratamento
Links rápidos:
- O que é a lama biliar?
- A presença de lama biliar sempre indica um problema?
- Principais causas da formação de lama biliar em cães e gatos
- Lama biliar em gatos e as particularidades anatômicas dos felinos
- Passo a passo: quando e como instituir um tratamento para lama biliar em cães e gatos?
- Perguntas frequentes sobre lama biliar em cães e gatos
- Referência em nutrição e qualidade de vida animal, a Royal Canin® constrói sua história com excelência há mais de cinco décadas
A presença de lama biliar em cães e gatos é algo comumente notado em exames ultrassonográficos. Saiba mais sobre esse tema e o que fazer diante de um animal com lama biliar.
A avaliação do trato biliar durante exames de ultrassonografia abdominal em gatos e cães é importante para detectar problemas hepáticos com precisão, sendo o conteúdo da vesícula biliar facilmente enxergado durante esse procedimento. A observação do conteúdo vesical permite entender se ele é uniforme, se há formações sólidas e qual é o volume/quantidade de lama biliar presente.
Quando detectado lama biliar no exame de imagem, o médico-veterinário deve saber quando intervir e qual conduta terapêutica indicada para cada caso. Detalharemos tudo isso a seguir.
O que é a lama biliar?
Lama biliar nada mais é do que a bile espessada, caracterizando um fluido altamente viscoso. Esse fluido fica armazenado dentro da vesícula biliar quando a drenagem de bile se encontra prejudicada.
Normalmente, sua composição consiste em uma mistura de precipitados de cristais (principalmente cristais de monoidrato de colesterol, cálcio bilirrubinato e outros sais de cálcio), glicoproteínas, debris celulares e mucina.
A lama biliar em cães e gatos pode ser um achado acidental em um exame de ultrassonografia, no qual é visualizada como uma substância ecogênica no interior da vesícula biliar, sem formação de sombra acústica. Porém, é frequentemente encontrada quando se identifica uma distensão da vesícula biliar, concomitante à visualização do ducto biliar comum distendido e tortuoso (LEHNER, MCANULTY, 2010).
A presença de lama biliar sempre indica um problema?
A presença de lama biliar não constitui, necessariamente, uma condição patológica que exija intervenção. Em muitos casos, trata-se de um achado de imagem de natureza assintomática, sem relação direta com sinais clínicos ou alterações laboratoriais.
Por isso, sua identificação deve ser interpretada à luz do contexto clínico e de outros exames complementares, levando em consideração a quantidade de material sedimentado e possíveis sinais de dilatação vesicular ou obstrução das vias biliares.
Já o tratamento da lama biliar deve ser considerado apenas quando há associação de sinais clínicos compatíveis, como icterícia, alterações laboratoriais (aumento de enzimas hepáticas, bilirrubinas) ou evidências de obstrução ou inflamação das vias biliares, além de excessos na quantidade de sedimento que possa predispor à formação de coágulos ou cálculos.
Principais causas da formação de lama biliar em cães e gatos
A lama biliar em cães representa um achado frequente, com prevalência de 35% a 67% na população saudável (HARRAN, 2011; BUTLER et. al., 2022). Entretanto, a condição é mais associada a outras questões em gatos. Estudo de Smith e parceiros, de 2017, sugere a ocorrência de uma associação entre a presença da lama biliar, o aumento de enzimas hepáticas e a concentração sérica de bilirrubina em felinos (SMITH et. al., 2017).
Confira, a seguir, as principais causas da formação de lama biliar em gatos e cães:
Obstrução dos ductos biliares
A obstrução dos ductos tem relação com a formação de lama biliar em cães e gatos, com quadros associado a colangite, colicistite e contratilidade prejudicada da vesícula biliar (OTTE et. al., 2017).
Sendo assim, a mucocele ou dilatação da vesícula biliar, ocasionada por acúmulo de bile espessa, pode resultar em diferentes graus de obstrução do sistema biliar e, por isso, é considerada uma das causas mais importantes de doença biliar extra-hepática.
Redução da contratilidade da vesícula biliar
Em ocasiões em que há a redução da contratilidade da vesícula biliar, pode haver estase biliar e modificações da bile dentro do órgão. A estase e as modificações são capazes de promover a formação de lama biliar em cães e gatos (DEMONACO, 2016; BUTLER et. al., 2022). Supõe-se também que a hipersecreção de muco esteja envolvida na formação da lama biliar.
Já foi sugerido ainda que cães com volumes maiores de lama biliar têm maior probabilidade de desenvolver doença hepatobiliar do que aqueles com mínimo conteúdo da vesícula biliar. Mesmo com essa hipótese, o diagnóstico de doença hepatobiliar não foi definitivamente estabelecido em todos os casos (BUTLER et. al., 2022).
Doenças endócrinas
Doenças endócrinas como hiperadrenocorticismo, hipotireoidismo e dislipidemias promovem estase e hipersecreção mucosa, ocasionando aumento da concentração sérica de leptina e elevando o risco de formação de lama biliar em cães e gatos (BUTLER et. al., 2022).
COOK et. al. (2016) citam um estudo retrospectivo de 78 cães diagnosticados com mucocele e lama biliar. Nessa população, a incidência em cães com hiperadrenocorticismo foi 29 vezes maior do que em cães que não apresentam a condição. Já em cães que possuíam hipotireoidismo a associação foi menor.
Vale lembrar ainda que as afecções endócrinas têm relação com o sobrepeso e a obesidade em gatos e cães. Tais doenças podem alterar o metabolismo e favorecer o ganho de peso em cães e gatos.
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Outras causas
A formação de lama biliar em gatos e cães também pode ter como causa:
- uso de determinados fármacos, como ceftriaxona e outros antibióticos excretados pela bile, tem sido relatado como fator desencadeante de precipitação de sais biliares e formação de sedimento (MIZUTANI et al., 2017);
- infecções ascendentes do trato gastrointestinal também podem estar envolvidas. A presença de bactérias pode induzir alterações físico-químicas da bile, resultando na formação de lama biliar (SMITH et al., 2017; OTTE et al., 2017).
Lama biliar em gatos e as particularidades anatômicas dos felinos
Quando falamos de qualquer afecção, é essencial respeitar as particularidades de cada espécie. E no caso da lama biliar, o quadro em gatos traz alguns detalhes que merecem ser ressaltados.
A tríade felina é o termo empregado para descrever a ocorrência concomitante de pancreatite, colangite e doença inflamatória intestinal (DII) em gatos, agora chamada de enteropatia inflamatória crônica. Trata-se de um quadro com alta relevância clínica na Medicina Felina. As particularidades anatômicas do sistema biliar dos felinos contribuem, justamente, para esse cenário (CATTIN, 2015).
Diferentemente dos cães, nos quais os ductos pancreático e biliar apresentam aberturas separadas com maior frequência, em gatos o ducto colédoco se une ao ducto pancreático principal antes de desembocar na papila duodenal maior. Esse arranjo anatômico, associado à presença relativamente rara de um ducto pancreático acessório funcional — estimada em cerca de 20% dos felinos — favorece a ascensão retrógrada de bactérias (bacterobilia) do lúmen intestinal para os ductos pancreático e biliar, desencadeando processos inflamatórios e infecciosos (BACON & WHITE, 2003; OTTE et al., 2017).
Adicionalmente, a vesícula biliar felina pode apresentar variações morfológicas, como a bilobulação, que modificam a dinâmica do fluxo biliar e podem comprometer o esvaziamento adequado do órgão.
Essa combinação de fatores anatômicos e funcionais resulta em maior propensão à estase biliar, redução da motilidade vesicular e, consequente, formação de lama biliar em gatos, quando comparados aos cães (YOUSIF & DAWOOD, 2025; HARRAN et al., 2011).
Passo a passo: quando e como instituir um tratamento para lama biliar em cães e gatos?
A condução adequada de um caso de lama biliar em cães e gatos requer uma abordagem sistematizada, considerando o histórico clínico, os achados laboratoriais e ultrassonográficos, permitindo ao clínico diferenciar os pacientes que necessitam apenas de monitoramento e aqueles que demandam intervenção terapêutica.
Por isso, ao detectar a presença de lama biliar, é importante seguir estes passos para uma condução mais efetiva do caso.
1. Atenção aos sinais clínicos
A anamnese detalhada e o exame físico completo são etapas fundamentais. Em muitos casos, a lama biliar é detectada em pacientes sem sinais clínicos relevantes, sendo então considerada uma alteração incidental.
Contudo, a presença de sinais como vômito recorrente, hiporexia, letargia, dor abdominal cranial e icterícia, deve levantar a suspeita de que a lama biliar esteja associado a doença hepatobiliar significativa (COOK et al., 2016; HARRAN et al., 2011).
É importante investigar o histórico de uso de fármacos, comorbidades gastrointestinais e possíveis afecções sistêmicas que possam impactar o fluxo biliar.
2. Avalição de possíveis alterações nos exames complementares
O passo seguinte envolve a análise criteriosa dos exames diagnósticos.
A ultrassonografia abdominal é o exame de eleição, permitindo identificar a presença de conteúdo hiperecogênico na vesícula biliar, avaliar sua mobilidade e descartar alterações associadas, como espessamento da parede vesicular, dilatação dos ductos biliares ou presença de muco ou massas intraluminais (DEMONACO et al., 2016; MIZUTANI et al., 2017; BUTLER et al., 2022).

Exames laboratoriais, como enzimas hepáticas (ALT, ALP, GGT), bilirrubinas séricas e perfil hematológico, auxiliam na avaliação do impacto sistêmico da estase biliar e na identificação de inflamação ou colestase (HARRAN et al., 2011).
Em felinos, particularmente, recomenda-se atenção à associação da lama biliar com a tríade felina (colangite, pancreatite e doença inflamatória intestinal – ou enteropatia inflamatória crônica), que pode alterar a interpretação clínica dos achados (CATTIN, 2015; OTTE et al., 2017).
3. Escolha do tratamento da lama biliar nos cães e gatos, quando necessário
A escolha do tratamento depende da associação (ou não) entre a presença de lama biliar, manifestações clínicas e/ou alterações laboratoriais.
Em pacientes assintomáticos e sem evidências de inflamação hepatobiliar, pode-se optar por monitoramento ultrassonográfico periódico, uma vez que parte dos casos apresenta resolução espontânea (DEMONACO et al., 2016).
Quando há sinais clínicos e/ou alterações laboratoriais, pode ser necessário um tratamento medicamentoso. Ele pode incluir fármacos como:
- Ácido ursodesoxicólico: promove aumento do fluxo biliar, reduz a viscosidade da bile e exerce efeito antioxidante. É considerado a base do tratamento da estase biliar em cães e gatos (MIZUTANI et al., 2017).
- Silimarina e S-adenosilmetionina (SAMe): atuam como hepatoprotetores, auxiliando na redução do estresse oxidativo e melhorando a função hepática (OTTE et al., 2017).
- Antieméticos (maropitant, ondansetrona, metoclopramida): indicados nos casos em que vômitos estão presentes, contribuindo para melhora clínica e manutenção do estado nutricional.
O uso de antibióticos deve ser considerado quando há suspeita ou confirmação de bacterobilia, especialmente em felinos, em que infecções ascendentes estão frequentemente envolvidas (SMITH et al., 2017).
Quadros de volume intenso de lama biliar em cães e gatos, no qual ela preenche quase completamente a vesícula biliar, são caracterizados como graves, podendo haver a indicação cirúrgica de colecistectomia (MIZUTANI et. al., 2017; CASTRO et al., 2025).
A nutrição como coadjuvante no tratamento de lama biliar em cães e gatos
No caso dos cães, se a lama biliar for composta por uma mistura de precipitados de cristais (principalmente cristais de monoidrato de colesterol, cálcio bilirrubinato e outros sais de cálcio), glicoproteínas, debris celulares e mucina, é indicada uma dieta com baixo teor lipídico (MIZUTANI et. al., 2017).
Por outro lado, como a lama biliar em gatos pode estar associada ao quadro da tríade felina, uma dieta de fácil digestão e que permita alto aproveitamento de nutrientes é a escolha para o tratamento de enteropatia inflamatória (CATTIN, 2015).
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Perguntas frequentes sobre lama biliar em cães e gatos
Veja agora um resumo com as principais questões sobre lama biliar em cães e gatos.
1. Quando tratar a lama biliar em cães e gatos?
A lama biliar deve ser tratada quando associada a sinais clínicos gastrointestinais e/ou alterações em exames laboratoriais ou de imagem.
2. Cães e gatos com lama biliar devem comer ração gastrointestinal?
Sim, alimentos que possuem alta digestibilidade e ajudam na função digestiva podem ser usados como dietas coadjuvantes ao tratamento.
3. Qual exame diagnostica a lama biliar em cães e gatos?
A ultrassonografia abdominal é o exame de escolha para identificar a presença de lama biliar. Exames laboratoriais também podem ser solicitados, para melhor avaliação do paciente e instituição do tratamento.
4. Quando a lama biliar é um achado de exame?
Quando identificada na ultrassonografia sem sinais clínicos ou alterações laboratoriais relevantes, a lama biliar é considerada um achado de exame, não necessitando ser tratada.
5. Existe relação entre a dieta e a formação de lama biliar?
Sim, existe uma relação significativa entre a dieta e a formação de lama biliar em cães e gatos, principalmente quando há ingestão excessiva de gorduras e colesterol, que podem aumentar a concentração e sedimentação da bile.
6. Lama biliar e colestase são a mesma coisa?
Não. Lama biliar é um acúmulo de precipitados biliares, enquanto a colestase é uma redução ou obstrução do fluxo biliar. A colestase pode levar à formação de lama biliar, e a lama biliar pode indicar uma colestase subjacente.
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Referências:
BACON, N.J.; WHITE, R.A.S. Extrahepatic biliary tract surgery in the cat: a case series and review. Journal of Small Animal Practice, v.44, n.5, p.231-235, 2003.
BUTLER, T. et.al. A multicenter retrospective study assessing progression of biliary sludge in dogs using ultrasonography. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.36, n.3, p.976–985, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35426163/. Acesso em: 15 set. 2025.
CASTRO, D.T. et al. Colecistectomia videolaparoscópica em cães. Lama biliar em cão: Relato de caso. Pubvet, v.19, n.01, 2025. Disponível em: https://ojs.pubvet.com.br/index.php/revista/article/view/3889. Acesso em: 15 set. 2025.
CATTIN, I. Tríade felina. Questões Gastrointestinais, Vet Focus, v. 23, n.2, p.2- 8, 2015.
COOK, A.K.; JAMBHEKAR, A.V., DYLEWSKI, A.M. Gallbladder Sludge in Dogs: Ultrasonographic and Clinical Findings in 200 Patients. Journal of the American Animal Hospital Association, v.52, n.3, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27008319/. Acesso em: 15 set. 2025.
DEMONACO, S.M. et.al. Spontaneous Course of Biliary Sludge Over 12 Months in Dogs with Ultrasonographically Identified Biliary Sludge. J Vet Intern Med, v.30, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26992049/. Acesso em: 15 set. 2025.
HARRAN, N. et.al. Gallbladder sludge on ultrasound is predictive of increased liver enzymes and total bilirubin in cats. Can Vet J., v.52, n.9, 2011. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3157076/. Acesso em: 15 set. 2025.
LEHNER, C.; MCANULTY, J. Management of extrahepatic biliary obstruction: a role for temporary percutaneous biliary drainage. Compendium (Yardley, PA), v.32, n.9, 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20960408/. Acesso em: 15 set. 2025.
MIZUTANI, S. et.al. Retrospective analysis of canine gallbladder contents in biliary sludge and gallbladder mucoceles. The Journal of Veterinary Medical Science, v.79, n.2, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27990011/. Acesso em: 15 set. 2025.
OTTE, C.; PENNING, L.C.; ROTHUIZEN, J. Feline Biliary Tree and Gallbladder Disease: Aetiology, diagnosis and treatment. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.19, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28438089/. Acesso em: 15 set. 2025.
SMITH, R.P. et. al. Association between Gallbladder Ultrasound Findings and Bacterial Culture of Bile in 70 Cats and 202 Dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.31, n.5, 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28755468/. Acesso em: 15 set. 2025.
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