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Gastrite Canina: conheça as principais causas e como conduzir o caso

Gastrite Canina: conheça as principais causas e como conduzir o caso
Atualizado em 30 de abril de 2025
Tempo de leitura: 11min
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A gastrite canina é uma alteração comumente relatada na rotina veterinária e pode estar relacionada a diferentes causas. Entenda os detalhes sobre o assunto!

A gastrite é uma inflamação da mucosa gástrica que afeta cães de diferentes raças e idades, podendo ser aguda ou crônica. Sua etiologia é multifatorial, sendo influenciada por elementos dietéticos, infecciosos e até iatrogênicos.  

Identificar as causas subjacentes da gastrite é fundamental para um manejo adequado, evitando complicações mais severas, como úlceras gástricas e a perda significativa de peso.  

Compreenda as particularidades da gastrite canina e saiba como conduzir o caso! 

Compreendendo melhor a gastrite em cães 

A barreira mucosa gastrointestinal é continuamente exposta a toxinas nocivas, espécies reativas de oxigênio, micróbios e medicamentos, que podem levar ao desenvolvimento de lesões inflamatórias, erosivas e, finalmente, ulcerativas (MARKS et al., 2018).  

A gastrite canina, uma das doenças gastrointestinais mais comum em cães, consiste em uma condição caracterizada pela inflamação da mucosa gástrica. Ela pode variar de leve a severa, resultando em uma série de sintomas gastrointestinais, como vômitos, inapetência, náusea e dor abdominal.  

Dependendo da sua duração, a gastrite pode ser classificada como aguda ou crônica. A gastrite aguda surge de maneira súbita e tende a ser autolimitante, enquanto a forma crônica se desenvolve gradualmente e persiste por semanas ou até meses. 

Histopatologicamente, a gastrite é marcada por alterações estruturais na mucosa gástrica, que podem incluir infiltração de células inflamatórias, como linfócitos, plasmócitos e neutrófilos. Nos casos mais graves, podem ocorrer danos mais profundos, gerando erosões da mucosa, ulcerações e atrofia glandular.  

Em algumas situações, observa-se a presença de hiperplasia linfoplasmocitária, uma resposta imune exacerbada que agrava a inflamação e altera a arquitetura normal da mucosa.  

Essas modificações afetam diretamente a capacidade digestiva do estômago do animal, comprometendo a proteção da barreira gástrica contra o ácido clorídrico e facilitando o surgimento de úlceras gástricas e outras complicações. 

Principais causas de gastrite em cães 

A gastrite canina pode ser causada por diversos fatores, sendo alguns mais comuns que outros. Abaixo, estão listadas as principais causas: 

  • alimentação inadequada: dietas ou alimentos irritantes para a mucosa gástrica; 
  • corpo estranho: ingestão de objetos que irritam a mucosa ou lesionam a parede do estômago;
  • uso de medicamentos: o uso (prolongado ou não) de alguns medicamentos como AINEs, antibióticos, entre outros, pode aumentar a permeabilidade gastrointestinal e levar à inflamação; 
  • intoxicações: exposição a substâncias tóxicas, como produtos químicos ou plantas; 
  • infecções bacterianas: bactérias como Helicobacter spp. estão associadas à gastrite crônica em cães. 

A importância de identificar a causa do problema 

A gastrite canina é frequentemente um sinal clínico secundário a uma condição subjacente, conforme descrito no tópico anterior. Por isso, a identificação precisa da causa é essencial, tanto para o tratamento quanto para evitar recorrência, colaborando com o prognóstico do paciente a longo prazo.  

Um erro comum seria tratar apenas os sintomas sem investigar a origem do problema, o que pode agravar o quadro clínico com o passar do tempo. Portanto, uma investigação completa e o uso de exames diagnósticos adequados são extremamente importantes na conduta clínica e no manejo da gastrite em cães. 

Sinais clínicos mais comuns em cães com gastrite 

Os sinais clínicos da gastrite em cães podem variar de leves a graves, dependendo da causa e da extensão da inflamação. Os mais comuns incluem: 

  • vômito (com ou sem presença de sangue); 
  • náusea; 
  • salivação excessiva; 
  • hiporexia ou anorexia; 
  • letargia. 

Esses sinais são inespecíficos e podem estar associados a outras doenças gastrointestinais, tornando o diagnóstico clínico desafiador sem o uso de exames complementares. 

Diagnosticando a gastrite canina: principais exames realizados 

O diagnóstico de gastrite canina requer uma abordagem sistemática por parte do médico-veterinário, utilizando diferentes modalidades de exames para excluir outras causas de distúrbios gastrointestinais. 

1. Ultrassom abdominal 

Em pacientes com gastrite canina, o exame ultrassonográfico abdominal pode permitir a visualização de alterações como espessamento difuso ou focal da parede gástrica, perda da estratificação ou definição de camadas, e linfadenopatia periférica (LOPES et al.2, 2023).  

Ultrassonografias de cães com gastrite 
Figura 1: ultrassonografias de cães com gastrite. A) Ultrassonografia gástrica com espessamento acentuado com irregularidade da mucosa (cruzes entre linha tracejada). B) Espessamento moderado da parede gástrica (cruzes entre linha tracejada) com manutenção do padrão de estratificação. EST.: estômago. Fonte: LOPES et al.2, 2023

Além disso, o método permite que seja realizada uma exploração não invasiva do trato gastrointestinal, permitindo a identificação de corpos estranhos hiperecoicos (madeira, plástico, vidro, metal) ou nódulos/massas que possam estar contribuindo para o quadro. 

Porém, vale ressaltar que as modificações gástricas descritas, assim como a presença de corpos estranhos, nem sempre podem ser identificadas no ultrassom abdominal do cachorro com gastrite.   

2. Exames hematológicos 

Os exames hematológicos são essenciais para complementar a avaliação do paciente com gastrite canina, ajudando a identificar alterações que possam indicar a presença de infecções e distúrbios metabólicos. Eles ainda auxiliam no diagnóstico diferencial de outras enfermidades gastrointestinais e sistêmicas que podem mimetizar os mesmos sinais clínicos. 

A leucocitose, por exemplo, pode indicar um processo infeccioso ou inflamatório ativo, enquanto a eosinofilia pode sugerir uma gastrite de origem parasitária ou alérgica (PATEL et al., 2018). 

Além disso, a presença de anemia, especialmente do tipo normocítica e normocrômica, pode estar relacionada a gastrite canina crônica erosiva, onde a perda sanguínea discreta e contínua afeta o nível de hemoglobina (MARKS et al., 2018).  

A hipoproteinemia, associada à albumina sérica baixa, pode indicar uma perda de proteínas pela mucosa gástrica, característica de gastrites erosivas ou ulcerativas graves (JONES et al., 2020). 

3. Endoscopia gástrica 

A endoscopia gástrica é uma ferramenta diagnóstica essencial na avaliação direta da mucosa gástrica em animais com suspeita de gastrite canina, sendo especialmente recomendada em casos de gastrite crônica ou recorrente.  

Este exame permite uma inspeção visual detalhada do estômago, possibilitando a detecção de alterações estruturais significativas, como hipertrofia da mucosa, hiperemia, erosões, úlceras gástricas e áreas de atrofia mucosa (LOPES et al.1, 2023). 

Imagens endoscópicas de gastrite canina
Figura 2: imagens endoscópicas de gastrite canina. A, B) Gastrite por refluxo. C) Gastrite eritematosa. D) Gastrite hipertrófica. E) Gastrite com erosões planas. F) Gastrite com erosões elevadas. Fonte: SPUZAK et al., 2020.

A endoscopia também possibilita a coleta de biópsias da mucosa gástrica para análise histopatológica, o que é fundamental para o diagnóstico definitivo da gastrite crônica e suas variantes, como a gastrite causada por Helicobacter spp. (FAUCHER et al., 2020; SOUSA, 2022). 

O exame endoscópico também é valioso para o acompanhamento da resposta ao tratamento, permitindo a observação da cicatrização de úlceras e a resolução das lesões inflamatórias, sendo um recurso indispensável no manejo de casos refratários ou graves de gastrite canina. 

Tratamento: como conduzir quadros de gastrite em cães? 

O tratamento da gastrite em cães envolve tanto a abordagem medicamentosa quanto o manejo alimentar. O plano terapêutico deve ser individualizado, baseado na causa subjacente e na gravidade da condição. 

Tratamento medicamentoso 

O tratamento medicamentoso da gastrite canina inclui uma abordagem para aliviar os sinais clínicos e ajudar no restabelecimento da integridade da mucosa gástrica.  

Entre os fármacos mais utilizados estão os inibidores da bomba de prótons, como o omeprazol, que atuam reduzindo a secreção ácida do estômago, o que pode diminuir a agressão à mucosa e facilitar a recuperação (PATEL et al., 2018). Tais medicamentos são considerados seguros para o uso em curto prazo.  

No entanto, um estudo realizado por Gil-Vicente et al. (2024) constataram que o uso prolongado de omeprazol (60 dias) leva ao aumento significativo dos níveis séricos de gastrina, hormônio envolvido na regulação da produção de ácido gástrico, e essa elevação sugere um risco potencial de hiperplasia gástrica ou câncer. 

Jones et al. (2020) relatam, ainda, que a administração para cães saudáveis de omeprazol combinada ao carprofeno, visando a profilaxia para diminuição do risco de lesão gastrointestinal, induz disbiose fecal e aumenta os marcadores inflamatórios intestinais.  

Outros medicamentos podem ser empregados no tratamento da gastrite canina. Os antiácidos, como o sucralfato, agem formando uma camada protetora sobre a mucosa gástrica, permitindo que as lesões se regenerem (MARKS et al., 2018).  

Os procinéticos, como a metoclopramida, podem ser indicados em casos em que o esvaziamento gástrico está retardado, melhorando o fluxo do conteúdo gástrico, reduzindo o refluxo e a estagnação alimentar. 

Já em casos de infecção confirmada por Helicobacter spp., pode ser necessário o uso de antibióticos específicos, como amoxicilina e claritromicina, para o controle da carga bacteriana e a diminuição do processo inflamatório (SOUSA, 2022).  

Vale ressaltar que, conforme o consenso da ACVIM (Marks et al., 2018), o uso racional de protetores gastrointestinais e antibióticos deve ser sempre pautado por diagnósticos bem estabelecidos, evitando a administração indiscriminada e focando na individualização do tratamento com base nas necessidades do paciente. 

Manejo alimentar 

A alimentação é o principal pilar do tratamento da gastrite canina, desempenhando um papel fundamental na recuperação e na prevenção de novos episódios. Dietas terapêuticas específicas ajudam a promover uma digestão eficiente, o que pode colaborar para a diminuição da irritação da mucosa gástrica e da ocorrência de sinais clínicos.  

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Como prevenir quadros de gastrite nos pets 

A prevenção de episódios futuros de gastrite canina envolve uma série de medidas, incluindo: 

  • seguir rigorosamente a dieta recomendada pelo médico-veterinário; 
  • evitar a administração prolongada de medicamentos sem acompanhamento profissional; 
  • realizar check-ups regulares para monitorar a saúde geral do pet e identificar problemas precocemente. 

Educar os tutores sobre a importância de uma alimentação balanceada e a respeito de medidas para evitar fatores desencadeantes da gastrite em cães – como a ingestão de corpos estranhos ou substâncias tóxicas – é essencial para manter a saúde gastrointestinal dos pets. 

Referências

FAUCHER, M.R. et al. Comparison of clinical, endoscopic, and histologic features between dogs with chronic gastritis with and without lymphofollicular hyperplasia. AVMA Publications, v.256, n.8, 2020. Acesso em: 15 setembro 2024. 

GIL-VICENTE, L. et al. Prospective Randomized Controlled Clinical Trial of the Long-Term Effects of Omeprazole on Healthy Dogs. Animals, v.14, n.8, 2024. Acesso em: 15 setembro 2024. 

JONES, S.M. et al. The effect of combined carprofen and omeprazole administration on gastrointestinal permeability and inflammation in dogs. J. Vet. Intern. Med., v.34, n.5, 2020. Acesso em: 15 setembro 2024. 

LIDBURY, J.A.; SUCHODOLSKI, J.S.; STEINER, J.M. Gastric histopathologic abnormalities in dogs: 67 cases (2002–2007). AVMA Publications, v.234, n.9, 2009. Acesso em: 15 setembro 2024. 

LOPES, M.M. et al.1 Gastroscopia em cães. Braz. Journal of Surgery & Clinical Research, v.45, n.3, 2023. Acesso em: 16 setembro 2024. 

LOPES, M.M. et al.2 Ultrassonografia do estômago de cães. Braz. Journal of Surgery & Clinical Research, v.45, n.3, 2023. Acesso em: 16 setembro 2024. 

MARINHO, P.V.T. et al. Gastropatia pilórica hipertrófica crônica secundária à gastrite linfoplasmocitária em cão – relato de caso. Veterinária e Zootecnia – UNESP. Acesso em: 16 setembro 2024. 

MARKS, S.L. et al. ACVIM consensus statement: Support for rational administration of gastrointestinal protectants to dogs and cats. J. Vet. Intern. Med., v.32, n.6, 2018. Acesso em: 15 setembro 2024. 

PATEL, P.K. et al. Gastritis and Peptic Ulcer Diseases in Dogs: A Review. Int. J. Curr. Microbiol. App. Sci., v.7, n.3, 2018. Acesso em: 16 setembro 2024. 

SOUSA, A.P.M. Helicobacter spp. associada à gastrite crônica e seus aspectos endoscópicos e histopatológicos em cão: relato de caso. UNICEPLAC, 2022. Acesso em: 16 setembro 2024. 

SPUZAK, J. et al. A modified Sydney system for the diagnosis of chronic gastritis in dogs. Acta Veterinaria Scandinavica, v.62, n.22, 2020. Acesso em: 15 setembro 2024. 

VILELA, A.C.G.N.L.; PONTES, J.V. Helicobacter spp. e gastrite crónica em canídeos e felídeos. Repositório da Universidade de Lisboa, 2010. Acesso em: 16 setembro 2024. 

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