Alterações gastrintestinais responsivas a uma maior ingestão de fibras

Alterações gastrintestinais responsivas a uma maior ingestão de fibras

A prescrição de um alimento coadjuvante aos distúrbios gastrointestinais responsivos a fibras é essencial, e a resposta ao manejo alimentar é efetiva na grande maioria dos casos; saiba mais

Os distúrbios gastrintestinais são uma das razões mais comuns que fazem com que tutores levem seus cães a uma clínica veterinária em busca de cuidados. E o médico-veterinário pode tomar algumas atitudes, da anamnese e exame do paciente à prescrição de uma dieta rica em fibras, para o sucesso no tratamento de algumas dessas alterações.

Conduta clínica

Para uma anamnese de distúrbio gastrintestinal bem sucedida, é essencial que o médico-veterinário adote uma abordagem sistêmica para a obtenção do histórico.

Sempre é importante garantir que todos os detalhes médicos e ambientais sejam conhecidos. Tendo coletado todas as informações possíveis a respeito do histórico do paciente, o médico-veterinário deve passar para o exame clínico e considerar a realização de exames complementares.

Um exame meticuloso do paciente possibilitará a obtenção da máxima quantidade possível de informações pelo clínico, o que, por sua vez, torna mais fácil a escolha de exames complementares adequados. Essa abordagem lógica e racional maximizará as chances de alcançar o diagnóstico correto.

Problemas gastrointestinais responsivos à ingestão de fibras

Nos casos de constipação e colite crônica, sabe-se que um alimento com alta digestibilidade e teor adequado de fibras solúveis e insolúveis pode ser efetiva para a maioria dos cães.

A constipação é, por definição, um distúrbio de defecação, com fezes excessivamente ressecadas ou endurecidas, comumente acompanhada por tenesmos. A estagnação prolongada de fezes no cólon resulta em desidratação progressiva da matéria fecal, que se torna muito ressecada, dura e difícil de ser eliminada.

É um sinal clínico, não uma doença, e várias afecções podem causá-la. Condições em cães que podem levar à constipação incluem: hérnias perineais, fraturas pélvicas ou em coluna lombo-sacra, aumento prostático e neoplasias retais.

O termo obstipação é usado para casos de constipação persistente, decorrente de alterações graves do colón. O megacólon é definido como uma distensão generalizada do cólon combinada com perda de motilidade (dilatação anormal do intestino grosso).

A colite crônica é uma causa comum de diarreias de intestino grosso. Cães com colite podem apresentar hematoquesia e fezes com muco. Normalmente esses pacientes apresentam tenesmo, disquezia e urgência para defecar.

A etiologia das colites dos pequenos animais é desconhecida sendo classificadas de acordo com a célula inflamatória predominante.

Manejo alimentar em casos de distúrbios gastrointestinais

O intestino apresenta alta demanda por nutrientes que deve ser atendida pelo alimento. A mucosa intestinal possui as taxas mais altas de proliferação e renovação celular de todo o corpo, e este processo pode representar de 10 a 20% da necessidade energética diária e até 50% da de proteína.

Proteína, arginina, glutamato, glutamina, glicina, histidina, vitamina A, zinco, ácidos graxos, entre outros, são nutrientes fundamentais para a mucosa intestinal e devem ser fornecidos adequadamente pela dieta para assegurar o desenvolvimento correto das funções de digestão e imunológicas do intestino.

A terapia dietética é efetiva para a maioria dos cães e deve ser formulada com o uso de ingredientes com alto valor biológico, para garantir a máxima digestibilidade (aproveitamento dos nutrientes pelo organismo do animal). As proteínas devem apresentar altíssima digestibilidade, ou seja, possuírem um alto aproveitamento pelo organismo, reduzindo assim a quantidade de proteína residual que será fermentada pelo intestino. Essa alta digestibilidade favorece uma digestão saudável contribuindo para o trânsito intestinal ideal.

Fibras na dieta

Outro ponto importante é o enriquecimento da dieta com fibras, o que ajuda a regular o trânsito intestinal nesses animais. Existem duas formas principais de fibras:

Fibras solúveis

Em geral, são viscosas, fermentáveis e formam um gel em solução. Estas características afetam o esvaziamento gástrico, o trânsito intestinal e a produção de ácidos graxos de cadeia curta no intestino.

As principais fontes de fibras solúveis são polpa de beterraba, pectinas de frutas, psyllium, MOS, FOS e goma guar. Todas apresentam a capacidade de reter água, podendo ser fermentadas pelas bactérias intestinais. Porém, cada fibra apresenta uma capacidade diferente de fermentação pelas bactérias do cólon.

A fermentação depende da quantidade de tempo que a fibra está presente no trato gastrointestinal, a composição da dieta, e o tipo de fibra.

A atividade e a fermentação bacterianas exercem um efeito positivo altamente benéfico sobre a mucosa colônica por meio da liberação de ácidos graxos de cadeia curta. Os ácidos graxos de cadeia curta como o acético, propiônico e principalmente o butírico apresentam um importante papel na motilidade do cólon e na manutenção da saúde intestinal.

Outras fibras solúveis conhecidas são o MOS e o FOS. O MOS (mananoligossacarídeo) estimula o crescimento da flora bacteriana benéfica como a Lactobacillus e Bifidobacterium (os Lactobacillus secretam um peptídeo antibacteriano que atua contra as enterobactérias).

Já o FOS (frutooligossacarídeo) é classificado como uma fibra fermentável. Essa fibra é rapidamente fermentada pelas bactérias intestinais produzindo ácidos graxos de cadeia curta que são necessários para a manutenção e a renovação das células do intestino grosso.

Além disso, o psyllium em pó (sob a forma de grânulos ou incorporado em um alimento seco) é extremamente útil para o tratamento de animais constipados. Sua ação é baseada na capacidade de atrair e reter água, formando um gel que aumenta a viscosidade do conteúdo intestinal e regulando o trânsito digestivo, o que facilita a defecação.

Apesar da sua elevada solubilidade, o psyllium apresenta baixa fermentabilidade no intestino grosso, devido a esta propriedade possibilita o seu emprego em situações de alteração do trânsito gastrintestinal.

Vale ressaltar que, se as fibras solúveis forem administradas em quantidades excessivas, elas poderão amolecer as fezes.

Fibras insolúveis

Ao contrário das fibras solúveis, as insolúveis não formam gel, são pouco fermentáveis e não são viscosas, sendo eliminadas nas fezes praticamente intactas. Devido à indigestibilidade, aumentam o bolo fecal e, consequentemente, o peso das fezes, além de estimular o peristaltismo.

Esse tipo de fibra contribui com a manutenção do tempo de trânsito do alimento no trato gastrointestinal, ajuda a prevenir constipação, melhora a motilidade intestinal e regulariza o esvaziamento gástrico.

São fontes de fibras insolúveis farelo de trigo, casca de soja, celulose, casca de ervilha, fibra de cana, fibra de milho, entre outros. Esse tipo de fibras diminui a digestibilidade do alimento e, portanto, não deve ser utilizado de forma indiscriminada.

O equilíbrio adequado de fibras na dieta também é fundamental para uma ótima digestão. Nesse sentido, não só a quantidade de fibras como também o tipo (solúveis e insolúveis ou fermentáveis, moderadamente fermentáveis e não fermentáveis) e a proporção destas fibras são pontos importantes.

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