Manejo dietético do gato diabético

Manejo dietético do gato diabético
     PROF. DR. RICARDO DUARTE
        Hospital Veterinário Pompeia www.hospitalveterinariopompeia.com.br

 

Introdução

O manejo dietético do gato é parte fundamental do tratamento dos gatos com diabetes mellitus. Inicialmente a maior parte dos pacientes vai precisar da administração de insulina exógena para correção da hiperglicemia crônica. Com a correção da hiperglicemia, muitos deles deixarão de precisar de insulina para manter a normoglicemia.

A escolha da dieta apropriada depende do paciente. Gatos magros devem recuperar o peso perdido. Alterações na dieta devem ser instituídas gradualmente após atingir o peso ideal.

Infelizmente, muitos gatos são obesos, o que leva à resistência insulínica e, inicialmente, ao aumento da secreção de insulina. O aumento da secreção de insulina pode causar amiloidose e destruição das ilhotas de Langerhans e redução da produção de insulina. Esse quadro é semelhante ao diabetes tipo 2 em seres humanos.

Uma série de estudos, publicados no começo dessa década, demonstrou que dietas com alto teor de proteínas e baixa concentração de carboidratos são mais eficazes para controlar a glicemia de gatos diabéticos e promover perda de peso 1,2. A administração desse tipo de dieta, além de promover melhor controle glicêmico, pode evitar os distúrbios causados pela restrição calórica (i.e. lipidose hepática).

A maior parte dos gatos domiciliados não precisa de mais do que a necessidade energética de repouso (NER) para suprir suas necessidades nutricionais.  Isso significa que a maioria dos gatos não precisa ingerir mais do que 50-64 kcal por quilo de peso corporal0,65 por dia (NER média = 58 kcal x Peso0,65/ dia) 3.

Gatos muito obesos podem precisar de uma restrição calórica abaixo desses valores, porém a perda de peso tem que ser gradual, não excedendo mais do que 1% a 2% por semana (Quadro 1).  Se esse objetivo não é conseguido, uma redução adicional (10 a 20%) das calorias oferecidas pode ser realizada.

QUADRO 1 — PROGRAMA PARA REDUÇÃO DE PESO (FELINOS)

CÁLCULO DE CALORIAS 4

A quantidade de calorias a serem oferecidas deve ser calculada com base no peso ideal (ou um peso abaixo do peso atual); se o valor calculado não é menor do que já está sendo consumido pelo gato, reduzir em 10% a 20%; reavaliar o paciente em 2 a 4 semanas. O objetivo é promover uma perda de peso gradual, de 0,5% a 2% por semana.
Diferente do cão, o gato diabético não precisa receber refeições junto dos horários de aplicação de insulina, principalmente se insulinas basais, como glargina ou detemir, estão sendo usadas. Gatos diabéticos com peso ideal podem ser alimentados à vontade. Gatos obesos, entretanto, devem ter sua quantidade diária de alimento fracionada em porções, oferecidas várias vezes ao dia.

Estratégias como oferecer a dieta em porções pré-determinadas ou pesar as porções podem ser mais eficazes do que o tradicional uso de copos-medida 4. Existe alguma evidência de que copos-medida são imprecisos e pode ocorrer uma variação importante na quantidade de ração, principalmente se o alimento for fornecido por pessoas diferentes ao longo do dia.

Durante o programa de perda de peso, a monitoração do controle glicêmico é fundamental. A dosagem de frutosamina e, a monitoração domiciliar da glicemia, glicosúria, ou ambos são importantes. A tendência é que esses pacientes precisem de doses cada vez menores de insulina e muitos podem ter remissão do diabetes. Nesses casos o risco de ocorrência de hipoglicemia é maior.

A adesão do proprietário é fundamental para o programa de perda de peso. Infelizmente muitos gatos pedem comida durante os períodos de restrição e essa é uma causa comum de insucesso do tratamento. Oferecer dietas que promovam saciedade sem aumentar a densidade energética do alimento é fundamental para evitar esse comportamento.

O clínico deve incentivar o proprietário durante o programa de redução de peso, demonstrando os benefícios da perda de peso: melhora da qualidade do pelame, aumento da atividade física, melhora do controle glicêmico e diminuição da dose de insulina. A documentação da perda de peso com gráficos e fotografias é uma estratégia que aumenta a adesão do cliente.

 

Referências bibliográficas

Frank G et al. Use of a high-protein diet in the management of feline diabetes mellitus.  Vet Ther. 2(3):238-46, 2001.

Benner N et al. Use of a low-carbohydrate versus high-fiber diets in cats with diabetes mellitus. J Vet Intern Med. 15:297, 2001.

German A, Martin L. Feline obesity: epidemiology, pathophysiology and management. In: Pibot P, Biourge V, Elliott, D (eds.) Encyclopedia of feline Clinical Nutrition, 2008.

  1. Bissot T et al. Novel dietary strategies can improve the outcome of weight loss programmes in obese client-owned cats. J Feline Med Surg. 12(2):104-12, 2010.