COMO ABORDAR: CONSTIPAÇÃO EM GATOS

publicado em: 14/11/2018

 

 

     VALÉRIE FREICHE, DVM, Dipl. ESV
        Clinique Vétérinaire Alliance (Clínica Veterinária Aliança),
     Bordeaux, França
     Revista Focus Brasil Edição Gastroenterologia

 


 

    INTRODUÇÃO



A constipação é definida como “uma ausência ou redução na frequência de defecação”, sendo muito mais comum no gato do que no cão; o presente artigo oferece um panorama geral do diagnóstico e do tratamento da condição no gato. A constipação felina pode ser causada por uma ampla variedade de distúrbios (e, de fato, a etiologia frequentemente difere das causas de constipação no cão), incluindo problemas anatômicos, metabólicos e funcionais. A estagnação prolongada de fezes no segmento colônico resulta em desidratação progressiva da matéria fecal, que se torna muito ressecada, dura e difícil de passar.


Um Megacólon (definido como “uma distensão generalizada do cólon combinada com perda de motilidade”) também está muitas vezes presente, podendo ser de origem primária ou secundária a episódios recorrentes de retenção fecal por causas variadas. Existem duas razões principais para que um gato seja levado a uma consulta veterinária:
 

  • Um gato que se apresenta com constipação crônica recorrente, resultando na emissão intermitente de fezes ressecadas em pequeno volume. Embora o estado de saúde do animal seja tipicamente bom, o gato costuma necessitar de uma breve hospitalização para esvaziamento do cólon sob sedação.
     
  • Um gato que se apresenta com um quadro de emergência a tal ponto de exigir a hospitalização e o cuidado intensivo com fluidoterapia, além de um rápido diagnóstico etiológico.

 

 

MEDIDAS DIETÉTICAS

O enriquecimento da dieta com fibras ajuda a regular o trânsito intestinal em gatos constipados, sendo muitas vezes essencial para dispensar a necessidade de colectomia. Existem duas formas principais de fibras:
 

  • Fibras insolúveis estimulam a motilidade colônica, pois são pouco degradadas ou não são afetadas pelas bactérias entéricas. A celulose e outras fibras insolúveis podem absorver grandes quantidades de água, o que aumenta o volume das fezes. Observe que esse tipo de fibras diminui a digestibilidade global da porção alimentar e, portanto, não deve ser utilizado de forma indiscriminada.
     
  • Fibras solúveis, como polpa de beterraba, pectinas de frutas, psílio e goma guar, têm a capacidade de reter (conservar) água, sendo facilmente fermentadas pelas bactérias do intestino delgado. O psílio em pó (sob a forma de grânulos ou incorporado em um alimento seco) é extremamente útil para o tratamento de gatos constipados. A atividade e a fermentação bacterianas exercem um efeito positivo altamente benéfico sobre a mucosa colônica por meio da liberação de ácidos graxos de cadeia curta. Tais ácidos graxos não só representam uma fonte de energia para os colonócitos, mas também estão envolvidos na regulação da motilidade colônica. Vale notar que, se as fibras solúveis forem administradas em quantidades excessivas, elas poderão amolecer as fezes.

 

A resposta de cada gato às fibras pode ser significativamente variável; por isso, é importante ajustar a quantidade fornecida para cada caso. Um único estudo recente relatou um tratamento bem-sucedido a longo prazo de 15 gatos com o uso de um alimento seco enriquecido com psílio; alguns gatos estavam sofrendo com Megacólon e episódios recorrentes de constipação que não haviam respondido a outros tratamentos clínicos.


 

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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