O QUE HÁ DE NOVO: A MICROBIOTA NA OBESIDADE

publicado em: 09/08/2018

 

    INTRODUÇÃO

 

A microbiota intestinal tem sido estudada quanto ao seu papel no desenvolvimento da obesidade. Tanto o ganho de peso quanto a tendência para obesidade podem estar associados com a distribuição e configuração das bactérias no intestino (HARLEY; KARP, 2012).


Em circunstâncias normais, o número de bactérias intestinais ultrapassa o número de células de um indivíduo. A microbiota compartilha propriedades tanto com o meio em que se encontra quanto ao conteúdo genético (herança genética) (VIRGIN; TODD, 2011). Estudos sugerem que o ambiente bacteriano intestinal representa uma considerável candidata para a contribuição da obesidade em ratos. Sem dúvida a microbiota dispões de papel importante na inflamação e pode exacerbar complicações no ganho de peso (CANI et al., 2009).


 

CONTRIBUIÇÃO DA MICROBIOTA NA OBESIDADE


Apesar do mecanismo específico ainda não ser totalmente esclarecido, estudos indicam que a microbiota pode regular o desenvolvimento de alguns fatores na obesidade, por meio da capacidade de modificar o metabolismo e contribuir para as consequências negativas do ganho de peso excessivo, além de apresentar função moduladora na resposta imune (KESKITALO et al., 2018).
 

Resultados apresentados em roedores mostram que a microbiota nestes animais pode alterar a quantidade de adiposidade em certos contextos. Alguns tipos de microbiota estão associadas com o aumento do tecido adiposo e com a redução da absorção de energia (SAMUEL; GORDON, 2006). Bactérias intestinais mostraram capacidade de modificar diretamente o requerimento energético do hospedeiro, através de metabólitos produzidos por estes microrganismos (HARLEY; KARP, 2012).
 

Destaca-se a atividade na regulação da absorção e armazenamento de energia, por meio de substâncias que modulam o balanço energético (CERF-BENSUSSAN; GABORIAU-ROUTHIAU, 2010). A microbiota realiza a fermentação de carboidratos simples, de polissacarídeos em ácidos graxos de cadeia curta, promove a absorção de monossacarídeos e afeta a atividade de certas enzimas, aumentando o metabolismo anabólico (HANDL et al., 2013).  
 

A microbiota também gera modificações fisiológicas no requerimento energético e potencial obesogênico do organismo. Evidencias indicam que a microbiota intestinal apresenta papel importante na obesidade, para a resistência insulínica e em distúrbios hepáticos (KESKITALO et al., 2018). Há evidências também na participação da regulação da lipogênese e armazenamento de gordura. Além disso, bactérias intestinais parecem contribuir para a produção de substâncias pró-inflamatórias em alguns contextos (HARLEY; KARP, 2012). Estudos indicam que a microbiota intestinal pode colaborar da modulação da resistência insulínica na diabetes tipo 2 (CANI et al., 2008).
 

Cães obesos parecem apresentar menor diversidade de microbiota intestinal do que indivíduos magros. Um estudo realizado com cães mostrou diferença significativa em populações de microbiotas entre intestinos de cães obesos e cães com peso ideal (HANDL et al., 2013).
 

Comparando a carga bacteriana intestinal, cães e gatos apresentam maior simplicidade de microbiota do que humanos. Sugere-se também que ela esteja menos relacionada com o balanço energético no organismo (DENG; SWANSON, 2015).
 

A utilização terapêutica da microbiota vem sido utilizada para prevenir ou tratar a obesidade, como o uso de prebióticos por exemplo (NEYRINCK et al., 2011). Ainda neste contexto, estudos demonstraram que o ganho de peso foi verificado em ratos após a inclusão de duas espécies bacterianas. O tipo de dieta também pode influenciar na composição da microbiota intestinal. Evidências mostram associações entre escolhas alimentares, dieta por longos período e a população de bactérias presentes no intestino (WU et al., 2011). Fatores dietéticos são investigados pela influência na microbiota intestinal em cães e gatos (KIELER et al., 2017). A utilização de antibiótico também é um fator que pode mudar drasticamente a população bacteriana (KESKITALO et al., 2018).
 

Em cães, a perda de peso pode estar relacionada com a diversidade da microbiota intestinal e a produção de substâncias que interferem neste processo. Estudos mostram que a composição bacteriana em cães com sobrepesos e obesos se apresentou diferente e poderia proporcionar maior resistência a perda de peso, relacionada com a habilidade de armazenamento de energia proveniente da dieta no organismo (DENG; SWANSON, 2015).
 

Apesar das evidências, ainda há poucos estudos relacionando a microbiota intestinal e fecal em cães e gatos.  Estudos ainda são necessários para esclarecer a associação entre a obesidade e a população bacteriana existente no intestino dos animais. 

 

    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

  • CANI, P. D. et al. Changes in gut microbiota control metabolic diet–induced obesity and diabetes in mice. , v. 57, n. 6, p. 1470–81, 2008.
  • CANI, P. D. et al. Changes in gut microbiota control inflammation in obese mice through a mechanism involving GLP-2-driven improvement of gut permeability. , v. 58, n. 8, p. 1091–1103, 2009.
  • CERF-BENSUSSAN, N.; GABORIAU-ROUTHIAU, V. The immune system and the gut microbiota: Friends or foes? , v. 10, n. 10, p. 735–744, 2010.
  • DENG, P.; SWANSON, K. S. Gut microbiota of humans, dogs and cats: current knowledge and future opportunities and challenges. , v. 113, n. 2015, p. S6–S17, 2015.
  • HANDL, S. et al. Faecal microbiota in lean and obese dogs. , v. 84, n. 2, p. 332–343, 2013.
  • HARLEY, I. T. W.; KARP, C. L. Obesity and the gut microbiome: Striving for causality. , v. 1, n. 1–2, p. 21–31, 2012.
  • KESKITALO, A. et al. Enterobacter cloacae administration induces hepatic damage and subcutaneous fat accumulation in high-fat diet fed mice. , p. 1–15, 2018.
  • KIELER, I. N. et al. Gut microbiota composition may relate to weight loss rate in obese pet dogs. , v. 3, n. 4, p. 252–262, 2017.
  • NEYRINCK, A. M. et al. Prebiotic effects of wheat Arabinoxylan related to the increase in bifidobacteria, roseburia and bacteroides/prevotella in diet-induced obese mice. , v. 6, n. 6, 2011.
  • SAMUEL, B. S.; GORDON, J. I. A humanized gnotobiotic mouse model of host-archaeal-bacterial mutualism. , v. 103, n. 26, p. 10011–10016, 2006.
  • VIRGIN, H. W.; TODD, J. A. Metagenomics and Personalized Medicine. , v. 147, n. 1, p. 44–56, set. 2011.
  • WU, G. D. et al. Linking Long-Term Dietary Patterns with Gut Microbial Enterotypes. , v. 334, n. 6052, p. 105–108, 7 out. 2011.


 

    SOBRE A AUTORA


M.V. Larissa de Lucca Druwe Lima - Coordenadora de Comunicação Científica da Royal Canin do Brasil