Gatos são o futuro dos médicos-veterinários

Gatos são o futuro dos médicos-veterinários

Embora a tendência mundial da população de gatos esteja em alta, as receitas advindas de gatos representam uma pequena porcentagem do faturamento de uma clínica veterinária em comparação com a advinda de tutores de cães. Apesar de fatores como a proporção de gatos sem raça definida e a fama de resistência do animal às doenças, em termos relativos, os tutores de felinos gastam mais dinheiro na alimentação de seus pets do que os donos de cães. Nesse artigo, enumeraremos as principais razões para o maior desenvolvimento do negócio veterinário felino.

Gatos: Uma oportunidade de ouro para médicos-veterinários de cães

A medicina veterinária para pequenos animais desenvolveu- se progressivamente a partir da segunda metade do século XX e em seu início foi dirigida principalmente aos cães. Isto é ilustrado pela formação das várias associações veterinárias de pequenos animais em todo o mundo: os Estados Unidos lideraram o caminho com a criação da American Animal Hospital Association em 1933; a Europa seguiu o exemplo no final dos anos 50 com a criação da Associação Britânica de Veterinária de Pequenos Animais (BSAVA – British Small Animal Veterinary Association) no Reino Unido em 1957 e a Associação Francesa dos Veterinários para Animais de Companhia (AFVAC – Association Française des Vétérinaires pour Animaux de Compagnie) na França em 1958, entre outras. A Associação Mundial de Veterinária de Pequenos Animais (WSAVA – World Small Animal Veterinary Association) foi criada em 1961.

Isso coincidiu com a crescente importância dos cães dentro das famílias dos países desenvolvidos, se tornando membros da família plenamente integrados por direito próprio. O ensino veterinário adaptou-se rapidamente para proporcionar uma formação de alto nível que nunca cessou de evoluir. No entanto, a medicina felina ainda era embrionária, sendo o gato muitas vezes considerado um simples comensal e não um verdadeiro membro da família. Foi só a partir da década de 1970 que a medicina veterinária felina verdadeiramente se desenvolveu cientificamente, tecnicamente e economicamente. A criação da Associação Americana de Clínicos Felinos em 1974 marcou um passo importante (embora o Feline Advisory Bureau estivesse funcionando desde 1958 no Reino Unido). A Medicina felina continuou a se desenvolver fortemente, tornando-se mais estruturado durante os anos 1980 e 1990 e continuando o processo após esse período.

Esta evolução é simplesmente uma resposta à demanda. De fato, desde 1980, na maioria dos mercados desenvolvidos, a população felina tem crescido mais rapidamente do que a população canina, e na América do Norte, como na Europa, há agora mais gatos que cães.

Ao analisar o tema sob um viés qualitativo, é possível observar diversas diferenças entre tutores de cães e gatos nos países para os quais estão disponíveis estudos detalhados. A seguir, listamos as principais conclusões dessa análise, segundo gráfico abaixo:

Tabela apresentando a distribuição da população felina em países europeus

 

  • Os tutores de gatos têm mais gatos do que tutores de cães têm cães: 2,2 comparados com 1,7 nos EUA, 1,8 contra 1,4 no Japão e 1,6 contra 1,3 na França. Assim, é mais comum para os tutores de gato ter mais de um animal de estimação do que para os tutores de cães (60% dos tutores de gatos nos EUA têm mais de um gato, comparado com apenas 40% dos tutores de cães, na França a comparação é 32% vs. 19%).
  • Em geral, em comparação com o cão, o gato é ligeiramente mais urbano, vive mais frequentemente em apartamentos, menos frequentemente em famílias, e em categorias sócio- profissionais ligeiramente superiores.
  • Os tutores de gatos são mais propensos a comprar alimentos para animais de estimação do que os tutores de cães (89% em comparação com 76% na França). Relativamente falando, os tutores de gatos gastam mais dinheiro com alimentação: por exemplo, nos EUA, os tutores de gatos dedicam quase tanto dinheiro a alimentar seus gatos como os tutores de cães fazem para seus cães, embora seus animais sejam bem menores em tamanho (US$ 220 por ano para um gato comparado com US$ 248 para um cão).
  • Os tutores de gatos consultam o médico-veterinário com menos frequência do que os tutores de cães. Por exemplo, nos EUA, em uma pesquisa de 2010, a AAHA descobriu que 70% dos carnívoros domésticos vistos em clínicas veterinárias eram cães, gerando 79% da renda; enquanto os gatos representavam 52% da população. Na França, 84% dos cães visitaram o médico-veterinário pelo menos uma vez ao longo dos 12 meses anteriores, em comparação com 57% da população de gatos.
  • Os motivos para consulta também eram diferentes: nos EUA, os proprietários de gatos gastam 5% a mais por doenças ou lesões em seus animais, mas 13 menos por medicamentos preventivos. Finalmente, em quase todos os países do mundo, a taxa de castração é maior nos gatos do que nos cães (88% contra 78% nos EUA, 75% contra 33% na França).

Razões por trás dos números

Depois de uma análise completa de todos os dados relevantes sobre gatos e sua difícil relação com os médicos-veterinários, agora precisamos abordar a questão-chave: por que os gatos visitam o médico-veterinário com menos frequência do que os cães?
Muito provavelmente, não existe uma resposta simples e generalizada a esta pergunta. Alguns fatores podem estar relacionados aos donos de felinos: suas atitudes e crenças sobre a necessidade de cuidados veterinários e suas experiências anteriores ao visitar o médico-veterinário, enquanto outros fatores podem estar mais relacionados ao profissional em si.

Existe uma crença generalizada de que os gatos precisam de menos cuidados veterinários do que os cães. A percepção dos gatos como animais de estimação mais independentes, o fato de que muitos deles vivem dentro de casa a maior parte do tempo, a falta de vacinação regular, todos esses fatos reforçam o conceito equivocado de que os gatos não precisam visitar o veterinário tão frequentemente quanto os cães.

Além disso, é muitas vezes mais difícil detectar os primeiros sinais de doença em gatos do que em cães e, como resultado, os gatos são levados ao veterinário mais tarde. De acordo com o relatório “Estado de Saúde de Animais de Estimação ( do inglês State of Pet Heath ) ” de Banfield (2011), cerca de 70% dos cães jovens (com idade entre 0 e 1 ano) estavam saudáveis quando examinados em suas clínicas, enquanto esse foi o caso somente para 57% dos gatos filhotes.

Em um resultado esperado, uma vez que os gatos não vão ao médico-veterinário com muita frequência, e como eles representam uma porcentagem menor do negócio, os médicos-veterinários não se esforçam muito para deixar suas clínicas amigáveis para gatos. Isto resulta frequentemente em uma experiência desagradável para o gato e seu dono, que por sua vez tendem a ir cada vez menos frequentemente ao médico-veterinário. Mas honestamente, estas más experiências não são sempre por falha do profissional, uma vez que elas começam antes mesmo que o gato chegue ao consultório ou clínica, ao andar de carro ou no transporte público.

No entanto, do ponto de vista do tutor do gato, independentemente de quem é a culpa, a conclusão é clara: visitar o médico-veterinário não é uma boa notícia.

Historicamente, para muitos médicos-veterinários de pequenos animais os gatos são um desafio não desejável. São pacientes especiais, diferentes e exigentes. Eles requerem uma abordagem diferente: manipulação diferente, instalações ou equipamentos adaptados, conhecimentos técnicos específicos, além de exigirem mais paciência e mais tempo.

Na medida em que os gatos representam a menor proporção da base total de pacientes, eles não são percebidos como uma prioridade real. No entanto, a tendência mundial mostra claramente um aumento acentuado na proporção de gatos dentro da população geral de animais de estimação e, eventualmente, dentro da base de pacientes de clínicas veterinárias. É por isso que muitas clínicas veterinárias já adaptaram suas instalações, equipe e protocolos para atender a crescente população de gatos. No entanto, muito ainda precisa ser feito a este respeito e na maioria das clínicas de pequenos animais, tutores de gatos não recebem o nível de serviço que gostariam.

Claramente, na maioria dos países do mundo, é uma óbvia prioridade projetar e implementar um plano de ação para melhorar o nível de serviço oferecido aos tutores de gatos.

Referências bibliográficas

Dr.es Philippe Baralon, Antje Blättner, Geoff Little e Pere Mercader para Veterinary Focus.
Leia o estudo complete na Revista Focus 2017-SP1 clicando aqui.