ALIMENTAÇÃO ESPECÍFICA PARA RAÇAS

publicado em: 28/08/2019

Nathalia Bianchi Lopes - Coordenadora de Comunicação Científica - Royal Canin Brasil

A nutrição é uma área dentro da Medicina Veterinária que está ganhando cada vez mais espaço e mais profissionais – e tutores – interessados em seus benefícios. A evolução da nutrição na área de gatos e cães teve, inicialmente, a diferenciação entre espécies e fase de vida, para estilo de vida, necessidades específicas, castrados, e, no âmbito da maior precisão nutricional, a nutrição específica para raças.

 

 

O ponto de partida para o desenvolvimento de um alimento industrializado para um cão ou gato deve partir sempre das necessidades dos animais, seguida então de pesquisas, escuta ativa de profissionais especialistas para então o desenvolvimento e formulação e posterior validação por esses mesmo profissionais. Para o desenvolvimento de um alimento específico para raças, o processo não é diferente: a particularidade racial específica é identificada e respaldada pela literatura. A contribuição de criadores renomados e veterinários reforça a ideia de buscar uma formulação mais adequada e que atenda às sensibilidades inerentes às raças.

 

Sobre os cães de raças, já é conhecido que possuem necessidades energéticas específicas (NRC, 2006) e outras características particulares, e, muitas vezes, tais particularidades podem sofrer interferência através da nutrição. De maneira geral, uma dieta específica para raças deve garantir alta palatabilidade, atender às reais necessidades nutricionais daquela raça, suportar suas sensibilidades e ter croquete adaptado. Com isso, é possível atender à máxima precisão nutricional. 

 

O que é palatabilidade?

A palatabilidade pode ser definida como a uma medida de aceitação ou preferência de um alimento a outro (Aldrich e Koppel, 2015). Ela é tida como multifatorial, uma vez que envolve, além do alimento em si, condições acerca do próprio animal, como condições fisiológicas e características individuais, e condições acerca do ambiente, como barulho, presença de outros animais.

Em relação às características do alimento em si, o aroma, temperatura, croquete e formulação são alguns dos componentes que impactam na palatabilidade. Sobre os croquetes, seu formato, textura e facilidade de preensão são os principais aspectos impactantes.

 

Croquetes adaptados

Os croquetes específicos devem atender aos padrões morfológicos e fisiológicos das raças. A importância de um croquete adaptado reflete na qualidade do processo digestivo, visto que a preensão e mastigação são a primeira etapa desse processo. De uma preensão facilitada e uma mastigação estimulada, é possível reduzir a aerofagia e permitir melhor digestão pelas partículas menores de alimento que chegarão ao estômago. 

 

O formato cranial e da mandíbula, dentre eles dolicocefálicos, mesocefálicos ou braquicefálicos, prognatas ou não, e a forma de preensão do croquete, são algumas características que definirão a forma em si (figura 2). O gato persa, por exemplo, possui uma forma de preensão sublingual característica. O lábio superior espesso do Pug não tem maleabilidade suficiente para fazer preensão de um croquete que seja muito baixo ou achatado (Figura 3). O tamanho do croquete é definido pelo tamanho da mandíbula e da cavidade oral, assim como dos dentes.

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Figura 2: Morfologia cranial dos cães.

 

Figura 3: Métodos de preensão 

A força de mordedura e a sensibilidade dos dentes poderão definir a textura dos croquetes. Um benefício secundário obtido do estudo da dureza do croquete é o efeito mecânico de limpeza dos dentes, promovido pelo atrito e maior penetração do dente no croquete. 

 

O comportamento alimentar do animal também influencia na definição da densidade do croquete. Um cão glutão, que frequentemente faz aerofagia, será beneficiado com croquetes em maior tamanho, e menor densidade, o que estimula a mastigação, diminuindo a velocidade de ingestão. O volume de alimento também é impactado pela densidade do croquete, pois um croquete menos denso permite um volume maior de refeição.

 

Dessa forma, as características raciais serão fundamentais para definição de formato, tamanho, densidade e textura do alimento.

 

Necessidades energéticas e nutricionais

A composição corpórea de cada raça também será beneficiada com uma dieta específica. Um exemplo dessas diferenças podemos citar com os cães das raças Boxer e Labrador Retriever. Enquanto a composição corpórea de gordura média de um Boxer é de 15%, a composição corpórea de gordura média do Labrador Retriever é de 34% (Lefebvre e Watson, 2002). 

 

 

Particularidades e sensibilidades de cada raça

Características de pele e pelagem também são diferentes entre as raças. Elas podem variar de pelos encaracolados como no Poodle, de crescimento contínuo e sem subpelo como no Yorkshire Terrier, resistente à agua como a do Labrador Retriever ou de alta capacidade de retenção de água como a do Golden Retriever, além das dobras cutâneas, como o Pug e o Bulldog.

 

Essas particularidades entre as diferentes pelagens e a sensibilidade de pele culminam com as afecções de maior ocorrência nas raças. Um exemplo é o Golden Retriever, que teve em um estudo, as dermatopatias como causa de número 1 de problemas veterinários (Glichman et al, 1998). 

 

Dessa forma, considerando somente a particularidade de pele e pelagem, já é possível prover benefícios àqueles que necessitam de concentrações adequadas de ômega 3 (EPA e DHA), ômega 6 (GLA), zinco, biotina, vitaminas do complexo B e vitamina A, além de aminoácidos sulfurados, como metionina e cisteína, importantes na síntese de queratina, e os aminoácidos aromáticos fenilalanina e tirosina, responsáveis pela produção de pigmentos dos pelos. 

 

Outra particularidade que pode ser específica a algumas raças é a predisposição a doenças como miocardiopatia dilatada (encontradas nas raças Boxer e Golden Retriever, por exemplo). Nesses casos, um suporte nutricional adequado envolve adequação nos teores de taurina e L-carnitina, importantes na contratilidade cardíaca e na melhora da obtenção de energia, respectivamente.

 

Cães como o Schnauzer miniatura, que possuem alta predisposição para a formação de urolitíase, além de dislipemias, se beneficiam de um alimento que promova maior diurese e menor concentração de minerais oxalato na urina, associado a um teor moderado de gorduras.

 

Ainda algumas raças como os Poodles e os Yorkshires Terriers, que possuem elevada longevidade, podem ter um envelhecimento saudável quando recebem uma dieta rica em antioxidantes como vitamina C, vitamina E, luteína e taurina. 

 

Dessa forma podemos reconhecer que a ciência por trás dos alimentos específicos para raças busca o conhecimento geral da raça, o conhecimento científico acerca das sensibilidades e a observação de campo para validação das fórmulas.

 

Os benefícios dos alimentos específicos para cães e gatos de raça são diversos e pontuais. O perfil nutricional, formato, tamanho e textura dos croquetes e outras características de tais produtos atendem de forma precisa às necessidades raciais cientificamente reconhecidas por Médicos-Veterinários e criadores e objetivam favorecer a qualidade de vida e o bem-estar de gatos e cães.

 

Referências bibliográficas

National Research Concil – NRC. Nutrient requirements of dogs and cats. Washington, D.C: National Academy Press, 2006. 

Royal Canin Dog Encyclopaedia 2003-2004

Aldrich G C; Koppel K. Pet food palatability evaluation: A eview of standart assay techniques and interpretation of results with a primary focus on limitations. Animals 2015, 5, 43-55.

Glichman L; Glichman N; Thorpe R. The Golden Retriever Club of America – National health survey. 1998-1999.

Waltham Livro de bolso sobre nutrição essencial de cães e gatos, 2ª. edição. 2012.

Lulich JP, Osborne CA, Unger LK & al - Prevalence of calcium oxalate uroliths in miniature schnauzer, Am J Vet Res 1991; 52(1): 1579-1582