Doença renal infecciosa em cães

publicado em: 18/04/2018

 

   INTRODUÇÃO


A lesão renal aguda, que leva à uremia grave, está associada a altas taxas de morbidade e mortalidade1, 2. Esse tipo de lesão renal tem múltiplas etiologias, incluindo agentes infecciosos, nefrotoxicidade, isquemia, entre outras. As doenças infecciosas são causas comuns e importantes de dano renal, uma vez que os rins podem ser lesionados pelo próprio agente patogênico (como nos casos de leptospirose ou pielonefrite) por via direta ou secundariamente a doenças sistêmicas ou suas complicações (p. ex., após sepse ou piometra)3-6. O depósito de imunocomplexos nos rins em consequência da resposta do sistema imunológico a algum agente infeccioso constitui outra causa intrínseca de danos renais glomerulares agudos ou, mais comumente, crônicos (p. ex., leishmaniose). A prevalência de agentes infecciosos como causa de dano renal varia entre diferentes regiões geográficas. Em um estudo retrospectivo recente as doenças infecciosas foram identificadas como a causa etiológica em aproximadamente um terço dos cães com lesão renal aguda1.


 

   LEPTOSPIROSE


A leptospirose é uma zoonose mundial, resultante da infecção pelas espécies patogênicas e pelos diferentes sorotipos da bactéria Leptospira interrogans, em sentido amplo. Essa bactéria é uma espiroqueta aeróbia obrigatória que compartilha características de microrganismos gram-negativos e gram-positivos. Cada sorotipo de Leptospira possui um hospedeiro primário específico que também serve como o seu reservatório. A bactéria permanece nos túbulos renais da espécie hospedeira, sendo eliminada no meio ambiente principalmente através da urina. O cão é o hospedeiro reservatório para a espécie patogênica de Leptospira interrogans sorotipo canicola.

 

   PIELONEFRITE

 

A pielonefrite é definida como uma inflamação da pelve renal, causada principalmente por uma infecção bacteriana ascendente do trato urinário inferior.

O refluxo vesicoureteral ocorre quando a pressão intravesical aumenta acima da pressão intraureteral, o que predispõe o animal à pielonefrite. Normalmente, à medida que a bexiga urinária se enche, a própria pressão intravesical comprime os ureteres, em virtude de seu trajeto oblíquo através da parede vesical (ou seja, a válvula vesicoureteral), evitando assim o refluxo de urina. O comprimento e o diâmetro da porção submucosa do ureter, sua ação peristáltica, o gradiente de pressão entre a bexiga e os ureteres, bem como a integridade do músculo detrusor, sem exceção, influenciam a função da válvula vesicoureteral. O refluxo vesicoureteral é registrado em 10% dos cães adultos normais do ponto de vista clínico (com mais frequência em fêmeas) e costuma ser bilateral7.

Além do refluxo vesicoureteral, outros fatores predisponentes para a pielonefrite incluem comprometimento do estado imunológico (p. ex., diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo) e doença renal crônica. Como a maioria das infecções do trato urinário inferior (com exceção de infecção prostática) não causa doença sistêmica, deve-se suspeitar de pielonefrite em qualquer cão com infecção do trato urinário e presença de sinais sistêmicos (p. ex., febre, letargia, anorexia). A pielonefrite também deve ser considerada em qualquer cão com lesão renal aguda e urocultura positiva. Contudo, em um estudo em que se avaliaram 182 cães acometidos por lesão renal aguda e submetidos à hemodiálise, a ocorrência da pielonefrite foi rara, em apenas, aproximadamente, 2% dos casos8.

 

   INFECÇÕES FÚNGICAS

 

Os relatos de infecções fúngicas do sistema urinário são pouco frequentes em cães. As infecções fúngicas primárias do trato urinário costumam ser causadas por Candida spp.9. Os animais acometidos geralmente estão imunodeprimidos, tanto em termos locais como sistêmicos, o que os predispõe à infecção. Outros agentes que podem causar pielonefrite fúngica incluem Aspergillus e Cryptococcus spp.10. Embora se possa suspeitar de infecção por fungos a partir do exame de rotina do sedimento urinário, a cultura da urina é necessária para confirmar o diagnóstico. O tratamento consiste na administração de agentes antifúngicos com excreção renal (p. ex., fluconazol) e na eliminação da causa subjacente, sempre que possível. O tratamento deve ser mantido por pelo menos 4-6 semanas, repetindo-se os exames do sedimento urinário para confirmar a resolução da doença.

 

   DOENÇAS IMUNOMEDIADAS

 

Muitos agentes infecciosos são associados à estimulação do sistema imune, levando ao depósito de imunocomplexos nos rins e ao desenvolvimento de glomerulopatias. Essas lesões imunomediadas podem se manifestar sob a forma de lesão renal aguda, porém mais frequentemente induzem a danos renais crônicos progressivos. A característica de glomerulopatia é a presença de proteinúria e, portanto, a proteinúria persistente deve levantar a suspeita de doença glomerular e, possivelmente, de alguma causa infecciosa subjacente. Na literatura médica humana e veterinária, há evidências crescentes sugestivas de que a proteinúria esteja associada à evolução mais rápida da doença renal crônica, maior frequência de crises urêmicas e aumento da taxa de mortalidade11. Também foi demonstrado que o prognóstico para um desfecho favorável a longo prazo diminui em caso de proteinúria acentuada12. Na suspeita de glomerulopatia, deve-se realizar uma avaliação diagnóstica minuciosa, direcionada à detecção da origem da proteinúria e da doença subjacente, incluindo os possíveis agentes infecciosos. A avaliação diagnóstica inclui a obtenção de histórico detalhado e a realização do exame físico completo, bem como a execução de testes como sorologia e PCR para a pesquisa de doenças infecciosas. É importante descartar a presença de qualquer agente infeccioso, pois alguns tipos de glomerulopatia necessitam de terapia imunossupressora, o que pode agravar qualquer infecção não diagnosticada.

 

   CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Em suma, os rins podem ser acometidos por doenças infecciosas por meio de uma série de mecanismos. Em alguns casos, os rins constituem o principal alvo do agente infeccioso, enquanto em outras situações esses órgãos podem ser acometidos por infecção sistêmica ou lesionados após resposta imune anormal. Em muitos casos de lesão renal aguda associada à infecção, pode-se empregar uma terapia antimicrobiana específica para eliminar a causa. Isso oferece um prognóstico mais favorável, quando comparado com outras formas de doença renal aguda ou crônica — as quais, além de terem natureza progressiva em geral, frequentemente possuem uma etiologia desconhecida que não pode ser eliminada.
 

   REFERÊNCIAS

 

  1. Segev G. Use of hemodialysis in acute renal failure of infectious origin in the dog. In Proceedings, 17th ECVIM-CA Congress, Budapest, Hungary 2007. www.vin.com/docl?íd=3861165.
  2. Vaden SL, Levine J, Breitschwerdt EB. A retrospective case-control of acute renal failure in 99 dogs. J Vet lntern Med 1997;11:58-64.
  3. Langston CE, Heuter KJ. Leptospirosis. A re-emerging zoonotic disease. Vet Clin North Am Small Anim Pract 2003;33:791-807.
  4. Meites E, Jay MT, Deresinski S, et al. Re-emerging leptospirosis, California. Emerg lnfect Dis 2004;10:406-412.
  5. Goldstein RE, Lin RC, Langston CE, et al. lnfluence of infecting serogroup on clinical features of leptospirosis in dogs. J Vet lntern Med 2006;20:489-494.
  6. Prescott JF, McEwen B, Taylor J, et al. Resurgence of leptospirosis in dogs in Ontario: recent findings. Can Vet J 2002;43:955-961.
  7. Christie BA. Vesicoureteral reflux in dogs. J Am Vet Med Assoc 1973;162:772-775.
  8. Segev G, Kass HP, Francey T, et al. Novel clinical scoring system for outcome prediction in dogs with acute kidney injury managed by hemodialysis. J Vet lntern Med 2008;22:301-308.
  9. Pressler BM, Vaden SL, Lane IF, et al. Candida spp. urinary tract infections in 13 dogs  and seven cats: predisposing factors, treatment, and outcome. J Am Anim Hosp Assoc 2003;39:263-270.
  10. Newman SJ, Langston CE, Scase TJ. Cryptococcal pyelonephritis in a dog. J Am Vet Med Assoc 2003;222:180-183.
  11. Jacob F, Polzin DJ, Osborne CA, et al. Evaluation of the association between initial proteinuria and morbidity rate or death in dogs with naturally occurring chronic renal failure. J Am Vet Med Assoc 2005;226:393-400.
  12. Cook AK, Cowgill LD. Clinical and pathological features of protein-losing glomerular disease in the dog: a review of 137 cases (1985- 1992). J Am Anim Hosp Assoc 1996;32:313-322.