Anorexia: um sinal clínico comum e inespecífico em gatos

publicado em: 12/10/2020

É comum que Médicos-Veterinários recebam relatos de tutores sobre gatos sem apetite, mas existem diversas causas e estratégias nutricionais a serem exploradas sobre o gato anoréxico.

 

Um dos sinais clínicos mais comuns em gatos é a diminuição do apetite. A conduta do tutor frente à hiporexia ou anorexia varia. Alguns, quando o gato passa um dia sem se alimentar, já entram em contato com o Médico-Veterinário (MV). Outros, levam dias para perceber e dar importância à ausência de alimentação do seu animal. 

 

Dessa forma, a apresentação clínica do gato no atendimento tende a ser muito distinta, assim como a gravidade do quadro que pode ser desde ausência de achados clínicos até uma perda de peso significativa. A anorexia verdadeira pode ser dividida em primária e secundária.

 

Anorexia primária: causa diretamente a falta de apetite

 

  • Neurológica: alteração direta no centro do apetite no hipotálamo
  • Anosmia: ausência de olfato
  • Comportamental: mudanças ambientais, manejo alimentar inadequado, medo ou ansiedade

 

Anorexia secundária: qualquer distúrbio que altera a resposta normal à fome

  • Doença sistêmica

 

        - Infecciosa causando desidratação e febre

        - Pielonefrite, pancreatite e outras enfermidades que podem causar náusea

        - Doenças no trato respiratório superior: diminuição de olfato

        - Doença no trato respiratório inferior: incapacidade de respirar normalmente

 

  • Dor: infecções, abscessos, traumas, artrites, doenças odontológicas, neoplasias e outras
  • Neoplasia
  • Fármacos: muitos fármacos reduzem, diretamente, o apetite

 

         - Quimioterápicos podem causar náusea

         - Opióides inibem a via orexigênica (estimulante do apetite)


 

Pseudoanorexia: não é a perda de apetite, mas o animal não pode se alimentar por diversas outras razões

 

  • Dor decorrente de doença dental
  • Problemas de preensão devido a doenças neurológicas
  • Alimentação: alimento de baixa palatabilidade
  • Ambiente: comedouro posicionado em local que não traga segurança e conforto ao gato no momento de se alimentar e/ou em local que o gato não tem acesso

 

A anamnese deve ser minuciosa, contudo, muitas vezes o tutor não consegue ter certeza do tempo da perda de apetite e nem mesmo se trata de uma hiporexia ou anorexia. O exame clínico deve ser realizado em busca de anormalidades evidentes que possam justificar a perda de apetite. Alterações bucais e/ou gastrointestinais podem, não raramente, serem a causa da hipo ou anorexia. 

 

Deve-se realizar exames laboratoriais complementares como hemograma completo, urinálise, perfil renal e hepático a fim de avaliar o estado geral do animal frente à perda de apetite. Alguns gatos anoréxicos podem apresentar hipocalemia o que aumenta a letargia e contribui para a piora do apetite. 

 

O rápido diagnóstico e a correção da etiologia são os melhores indicativos de um bom prognóstico. Porém, enquanto as investigações clínicas estão sendo realizadas é importante o início imediato do suporte nutricional que auxiliará a acelerar a recuperação do gato e diminuir a morbidade e mortalidade.

 

As anormalidades eletrolíticas e desidratação também são frequentes em casos de perda de apetite. Portanto, deve-se corrigir desequilíbrios hidroeletrolíticos por meio de infusão de fluidos. Não menos importante que garantir suporte nutricional e hidroeletrolítico é a avaliação da dor. Caso o gato apresente sinais de dor ou desconforto detectados no exame clínico ou pela utilização da escala multidimensional para avaliação da dor pós-operatória ou a escala de Glasgow para dor aguda em gatos, medicamentos para alívio da dor devem ser administrados. 

 

Combatendo a anorexia por meio do suporte nutricional

 

Sempre que possível deve-se utilizar o trato gastrointestinal como via de administração de alimento. Isso porque, dessa forma, a probabilidade de translocação bacteriana é reduzida e a atrofia dos enterócitos também. Portanto, a nutrição microenteral ou enteral é preferível à nutrição parenteral. Os enterócitos obtêm a metade de seus nutrientes diretamente do lúmen intestinal. Essas células estão hipoplásicas e hipofuncionais em gatos anoréxicos, com permeabilidade aumentada. 

 

Assim, a primeira tentativa é a alimentação voluntária oferecendo um alimento com elevada densidade energética para que o volume seja reduzido, porém, atendendo às necessidades do animal. A alimentação completa ou coadjuvante úmida é uma grande aliada nesse momento devido à alta palatabilidade. Caso o gato não aceite o alimento voluntariamente, outras opções de estratégias nutricionais devem ser avaliadas.

 

Alimentação assistida

 

A alimentação assistida é realizada com o auxílio de tubos ou sondas que permitirão a administração de alimento e auxiliarão na manutenção das funções do TGI. Há diversas vias de administração com vantagens e desvantagens relacionadas a cada uma delas. O estado geral do paciente, cooperação do tutor e experiência do MV serão fatores decisivos na escolha da técnica. 

 

  • Sondagem nasoesofágica:  menos estressante, pode ser realizada sem sedação ou anestesia geral, baixo custo, facilidade e aceitação do paciente. Entretanto, o pequeno calibre da sonda permite apenas a administração de dietas líquidas que garantam o suprimento nutricional necessário. Além disso, a sonda nasoesofágica pode ser mantida no animal por, no máximo, 1 semana.

 

  • Esofagostomia: permite a administração  a longo prazo de um alimento de consistência mais espessa. O animal consegue comer e beber água voluntariamente com essa sonda. A colocação requer anestesia geral o que nem sempre é possível devido à gravidade do estado geral do animal. 

 

  • Gastrostomia: permite alimentação em longo prazo com alimentos úmidos. Anestesia geral é requerida para a colocação do tubo. 

 

  • Jejunostomia: geralmente as sondas são colocadas por meio de laparotomia exploratória. Indicada nos distúrbios do TGI superior ou quando esses segmentos estão sem condições de uso.

 

A partir do momento em que o animal começa a se alimentar voluntariamente na quantidade adequada e suficiente para a manutenção do peso saudável.

 

Anorexia associada à ausência de infusão de calorias no enfermo dá lugar à alterações importantes na estrutura e função intestinal, aumento da resposta inflamatória e morbidade infecciosa. O suporte nutricional é uma prática mandatória para esses pacientes e tem como finalidade além de estimular e manter as funções do TGI, nutrir adequadamente o paciente.

 

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Referências bibliográficas

 

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