Alimentos úmidos para gatos: qual sua importância?

publicado em: 14/05/2015

Os proprietários de gatos são unânimes: felinos são de fato animais muito diferenciados e não devem – nunca – ser confundidos com cães pequenos. Que estas espécies são bastante diferentes entre si é algo bastante notório, e as particularidades vão desde as atitudes sociais e comportamentais até a ocorrência de sensibilidades e reações orgânicas a fármacos específicas. O padrão alimentar e as necessidades nutricionais dos felídeos são também distintos. Por esta razão o estudo da nutrição dos gatos domésticos é de suma importância, e é considerado hoje uma das razões para o aumento da expectativa de vida destes animais.

Os gatos são considerados carnívoros estritos, e dependem de aminoácidos específicos para sobreviver (também chamados de “essenciais”, como taurina, arginina, metionina e cisteína). Estes são adquiridos pela ingestão de tecidos de origem animal (na natureza, gatos domésticos alimentam-se de pequenos roedores e aves, principalmente). O organismo destas presas possui altos teores de proteína, moderados teores de gordura e mínimos teores de carboidrato. Carnívoros estritos possuem um metabolismo desenhado para, preferencialmente, obter a energia vinda de proteínas e gorduras e, em menor escala, de amido, quando comparados a outros onívoros como o cão, por exemplo.

Cabe ressaltar também que, ao comer a presa, o gato não se alimenta apenas da carne: há o consumo de água, vitaminas e minerais específicos (eles ingerem certa quantidade de ossos e cartilagens ao fazer a refeição). Portanto, pode-se dizer que alimentar um gato exclusivamente com carne não fornecerá a ele uma nutrição adequada, acarretando em desnutrição.

Os gatos também apresentam hábitos bastante particulares quando se trata de ingestão de água. Quando comparados aos cães, os gatos tomam menos água, e estimula-los a ingerirem líquidos pode ser bastante difícil em alguns casos. Acredita-se que esta baixa ingestão hídrica seja decorrente da evolução da espécie, uma vez que os ancestrais do gato doméstico habitavam o norte da África, uma região desértica e com escassez de água. Fisiologicamente, seu organismo se adaptou a conservar água: ao avaliarmos os néfrons do gato, observamos que a Alça de Henle (porção responsável principalmente pela reabsorção de água e solutos) é bastante longa, conferindo assim uma capacidade maior de concentração urinária para esta espécie. Por este motivo, a urina de gatos saudáveis pode apresentar uma densidade urinária de até 1,080, demonstrando assim sua grande capacidade de não eliminar água através da urina, mantendo-a em seu organismo para uso em seu metabolismo. É de se imaginar, portanto, que gatos se adaptem melhor que cães à privação de água.

Porém, algumas condições clínicas requerem que os gatos ingiram maior quantidade de água, como as doenças do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) e a doença renal crônica (DRC), por exemplo. Em casos de DTUIF causada por urolitíase, a excessiva concentração urinária com componentes que formam cálculos (p. ex, cálcio, oxalato, fosfato etc) é um fator predisponente para a ocorrência da doença. Sabe-se que, quanto mais urina o gato produzir e, efetivamente, urinar, menor a chance de recorrência do problema. Gatos com DRC também necessitam ingerir grandes quantidades de água. Com a perda de capacidade de concentração urinária pelos rins doentes, o gato se torna poliúrico (passa a urinar em excesso) e, por sua vez, desidratado. Por mais que o gato comece a ingerir mais água que o normal (polidipsia) para compensar a grande perda hídrica pela micção, a quantidade geralmente não é suficiente, e a desidratação acontece. As crises urêmicas (agudizações do paciente crônico) ocorrem principalmente por desidratação excessiva.

O aumento da ingestão hídrica pode ser feito por meio de estímulos como o fornecimento de água sempre limpa e fresca, distanciar o pote de água da liteira (no mínimo 50 cm), oferecer água em fontes de água corrente etc. Cabe ressaltar que, além de estimular a ingestão de água, o gato não pode ter qualquer aversão à caixa de areia. Ela tem de estar posicionada em locais tranquilos, ser higienizada frequentemente, e preconiza-se que haja uma caixa a mais de areia do que a quantidade de felinos na casa (p. ex. 5 liteiras atenderão 4 gatos). Porém, mesmo com todos estes estímulos, a ingestão hídrica de alguns animais fica aquém de suas necessidades, e o alimento úmido, além de fornecer água, traz consigo os nutrientes fundamentais específicos para animais doentes.

Os alimentos úmidos são divididos em duas categorias: os alimentos completos e os que fornecem suplementos ou que são considerados petiscos. Os alimentos úmidos (principalmente os comercializados em latas) são submetidos a um processo de esterilização, responsável por eliminar grande parte das bactérias nocivas aos animais. Porém, tal processo também acarreta em algumas perdas nutricionais, e por esta razão os fabricantes de produtos de alta qualidade estudam minuciosamente tais perdas e ajustam as formulações visando compensá-las, garantindo que os animas recebam as quantidades nutricionais recomendadas para cada caso. Em linhas gerais, os alimentos úmidos são mais palatáveis e digestíveis que os alimentos secos, e possuem menor quantidade de carboidratos. São alimentos mais caros, porém isto não aparenta ser um problema para a alimentação de felinos ou de cães pequenos, sendo uma preocupação maior aos proprietários de cães grandes.

A utilização de alimentos úmidos como fonte única de alimento ou como parte da alimentação (também chamado de mix feeding) dos felinos é uma excelente estratégia para estimular a ingestão hídrica destes animais. Em média, alimentos úmidos possuem 75% de água, enquanto produtos secos apresentam entre 6% e 10%. O alimento úmido também pode corrigir casos de anorexia e hiporexia, pois é mais palatável e acaba estimulando o animal a comer. Gatos são extremamente sensíveis à falta de apetite, e grande parte das doenças – se não todas – acarretam em inapetência. Um estudo feito na Universidade Estadual de São Paulo, Campus Jaboticabal, comprovou que pacientes desnutridos (com escores corporais considerados magros e caquéticos) apresentam taxas de morbidade e mortalidade maiores que pacientes com escore corporal ideal. Logo, observa-se que a desnutrição é um fator agravante no estado de saúde do animal.

E o leite, poderia ser uma fonte de água para gatos? O fornecimento de leite é um dos grandes mitos sobre a nutrição felina. Sabe-se que o leite de vacas e cabras possui menor teor de gorduras, proteínas e energia quando comparados ao leite da gata. Logo, a substituição do leite de uma espécie pelo leite de outra não deve ser realizado, pois cada espécie possui uma necessidade nutricional diferente para se desenvolver de maneira adequada. O fornecimento de leite após a fase de desmame também não deve ser realizado, pois o trato gastrintestinal do filhote amadurece com seu crescimento, e perde a capacidade de digestão da lactose. Assim, muitos gatos podem passar a ter diarreia secundária à ingestão de leite.

Sabe-se hoje que parte dos hábitos alimentares adquiridos pelos filhotes é aprendida com a mãe. Isto significa dizer que, caso a mãe aceite ou tenha hábito de comer determinado alimento, há grande chance de que seus filhotes façam o mesmo. Os hábitos do filhote são adquiridos principalmente quando muito jovens, e recomenda-se que até os 4 meses de vida o gatinho seja exposto às diversas situações, pessoas, animais e, também, aos diversos tipos de alimento (pensando aqui especialmente em sua consistência). Desta forma, o gato reconhecerá formas diferentes de produto como alimento, facilitando seu manejo futuramente.

Concluindo, oferecer alimentos úmidos para gatos apresenta diversas vantagens. Além ser possível garantir o fornecimento balanceado de todos os nutrientes fundamentais para o animal (quando utilizados alimentos completos), esta é uma forma bastante eficaz de estimular a ingestão de água, essencial não somente para a manutenção da saúde em indivíduos sadios, mas especialmente importante em casos de doenças de trato urinário inferior e de doença renal crônica. Além disso, o alimento úmido facilita muito o manejo da inapetência em vários outros quadros clínicos.

REFERÊNCIAS

A ENCICOLPÉDIA DO GATO ROYAL CANIN. Disponível em: http://enciclopediagato.royalcanin.com.br/. Acessado em: 2 fev 2015.

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ZORAN, D. L.  The Carnivore connection to nutrition in cats. J Am Vet Med Assoc, v. 221, n. 11, p. 1559 – 1567, 2002.

Sobre o Autor
M.V Christiane Prosser - Comunicação Científica RC
M. V., Membro da Equipe de Comunicação Científica da Royal Canin Brasil