HIPÓXIA: RISCO DE MORTALIDADE DURANTE O NASCIMENTO

publicado em: 08/10/2019

NEONATOLOGIA FELINA 

Autores: Sylvie CHASTANT-MAILLARD, Alain FONTBONNE, Aurélie FOURNIER, Aurélien GRELLET, Hanna MILA e Andréa MUNNICH. 

 

INTRODUÇÃO

 

O período perinatal é crucial para gatos e cães recém-nascidos. Eles devem se adaptar à mudança radical de deixar a vida intrauterina e passar para o mundo exterior. Durante a gestação, o feto recebe oxigênio e nutrientes pela placenta; além disso, o útero é um ambiente onde a temperatura permanece constante. Após o nascimento, o feto é separado da placenta e deixa o útero: ao passar da vida fetal para a vida fora desse órgão, o recém-nascido deve respirar e encontrar seu alimento, sujeitando-se a variações de temperatura.

Os filhotes são altamente sensíveis durante as três primeiras semanas de suas vidas. A imaturidade desta fase implica na necessidade de grandes esforços para se adaptar à vida extrauterina, o que pode explicar a alta taxa de mortalidade neonatal observada em gatos.  

 

MORTALIDADE NEONATAL

 

Hoje em dia, aproximadamente 20% dos filhotes vêm a óbito antes de completarem dois meses de vida.

 

Essa mortalidade ocorre principalmente durante os primeiros dias de vida. Um estudo norueguês com gatos relatou que 85% da mortalidade neonatal total ocorreram entre o nascimento e os 7 dias de vida. 

 

Contudo, essa alta taxa de mortalidade não é inevitável. Medidas simples podem ser tomadas nos estabelecimentos de reprodução e/ou criação para ajudar a mantê-la em um nível baixo. As causas de mortalidade neonatal são inúmeras. Além disso, a morte de um recém-nascido frequentemente se deve a uma combinação de vários fatores. Isso é descrito como mortalidade multifatorial.

 

Entre as causas de mortalidade, é preciso fazer uma distinção entre causas primárias e fatores de risco. Algumas causas, as primárias, têm uma influência direta sobre a saúde neonatal e, particularmente, sobre a mortalidade neonatal. Por exemplo, a distocia é uma causa primária de mortalidade: alguns filhotes caninos e felinos não recebem oxigênio (hipóxia) durante o parto e, por essa razão, vêm a óbito. 

 

Outros fatores exercem um efeito indireto sobre a saúde de recém-nascidos, modulando o risco de aparecimento de uma causa primária: esses são os fatores de risco. A idade da mãe é um dos exemplos de fator de risco de mortalidade neonatal: as fêmeas mais idosas correm um maior risco de distocia (fator primário); dessa forma, a idade materna (fator de risco) aumenta indiretamente a mortalidade neonatal.

 

As causas de mortalidade devem ser pesquisadas não só após o nascimento, mas também antes do acasalamento, no período do cio e durante a gestação. Alguns fatores relacionados com a mãe influenciam a saúde neonatal.

 

 

HIPOXIA: O PRINCIPAL RISCO DE MORTALIDADE DURANTE O NASCIMENTO

 

O processo do nascimento é decisivo para a saúde do filhote recém-nascido. Durante partos anormalmente longos ou difíceis, os fetos podem não receber oxigênio suficiente e/ou engolir quantidades anormais de líquido amniótico, complicando assim a reanimação e expondo-os a um risco maior de doenças durante os primeiros dias de vida. Portanto, a hipóxia é a principal causa de mortalidade neonatal em filhotes (mais de 60%). O cordão umbilical é relativamente curto em filhotes e sua compressão pode diminuir a circulação umbilical, em particular nos filhotes nascidos com uma apresentação posterior. A obstrução ou qualquer outra forma de distocia também podem levar ao sofrimento fetal ou à morte.

 

Em filhotes que sofrem de uma hipóxia grave (caso seja impossível implementar uma redistribuição compensatória do fluxo sanguíneo), a frequência cardíaca fica mais fraca, a motilidade intestinal sofre um aumento e o líquido amniótico é inalado, causando danos à mucosa intestinal e a outros tecidos cujas necessidades de oxigênio são elevadas (incluindo o córtex suprarrenal, o coração e o encéfalo). A hipóxia durante o parto também pode causar uma grave infecção generalizada, também conhecida como septicemia. Portanto, os filhotes que sobrevivem à hipóxia profunda após a reanimação apresentam um alto risco de óbito durante as primeiras 48 horas depois do nascimento. 

 

O manejo ideal do parto permite limitar os riscos de hipóxia e, consequentemente, melhora a saúde neonatal. Esse manejo ideal exige um bom conhecimento sobre os fatores de risco de distocia, o preparo do parto e a detecção precoce de distocia.

 

POR QUE EXAMINAR UM RECÉM-NASCIDO IMEDIATAMENTE APÓS O NASCIMENTO?

 

Conforme explicado a hipóxia é um fator de risco de mortalidade neonatal. A hipóxia pode ser rapidamente complicada por hipotermia. A temperatura de um filhote saudável deve estar entre 35 e 36,5°C, 24 horas depois do nascimento (ver adiante).

 

Os recém-nascidos não são capazes de manter a temperatura corporal em um ambiente frio e úmido. 

 

Uma hipotermia patológica se desenvolverá com rapidez após o nascimento se o recém-nascido permanecer molhado, estiver em um local frio ou for privado dos cuidados normalmente fornecidos pela mãe. Os filhotes têm uma porcentagem muito baixa de tecido adiposo marrom para garantir a termogênese através do tremor muscular e da vasoconstrição, e esse mecanismo de produção de calor metabólico não está em pleno funcionamento em uma idade tão tenra. 

 

Além disso, os filhotes também têm uma alta proporção de massa corporal/área de superfície cutânea, o que indica a perda rápida do calor corporal. A hipotermia é particularmente perigosa, pois pode gerar outros problemas. Uma queda na temperatura pode vir acompanhada de um declínio na frequência cardíaca: este é o início de uma resposta protetora, cujo principal objetivo é evitar a redução do fluxo sanguíneo arterial para o encéfalo. Se essa condição perdurar, a frequência respiratória diminuirá, podendo ocorrer o desenvolvimento de uma insuficiência cardiorrespiratória. Uma temperatura anormalmente baixa em um recém-nascido (<35°C) também pode resultar na incapacidade de sucção e no aparecimento de desidratação, bem como na lentidão ou interrupção do trânsito digestivo. A hipotermia também pode aumentar a vulnerabilidade a infecções causadas por herpes-vírus ou bactérias. 

 

TEMPERATURA RECOMENDADA DO NINHO 

DURANTE AS PRIMEIRAS SEMANAS DE VIDA

 

• Primeira semana: 30°C

• Segunda semana: 28°C

• Terceira semana: 27°C

• Quarta semana: 24-25°C

Os parâmetros precisam ser adaptados, dependendo da raça do animal e da ventilação da unidade.

 

Um recém-nascido incapaz de sugar por causa da hipotermia não receberá os anticorpos contidos no colostro, o que diminuirá ainda mais a sua capacidade de combater bactérias patogênicas. Essas bactérias serão capazes de colonizar os intestinos do recém-nascido, disseminando toxinas ou endotoxinas, o que também pode levar ao óbito. Uma hipotermia grave descreve o estado em que a temperatura corporal cai para aproximadamente 20°C: o recém-nascido fica prostrado e deitado em decúbito lateral. Nos casos mais graves, a respiração diminui para respirações ofegantes apenas ocasionalmente. A frequência cardíaca também sofre uma diminuição e os reflexos ficam extremamente lentos. A sucção torna-se impossível e a motilidade intestinal desaparece. A maioria dos animais nessa situação vem a óbito. 

 

As mães não conseguem cuidar de recém-nascidos com uma temperatura muito baixa da pele e, por essa razão, tende a deixá-los de lado. Um termômetro especial que permita a medição de temperaturas baixas é essencial para detectar hipotermia profunda. 

 

Embora deva ser proporcionado um aquecimento para os recém-nascidos, eles também devem ser capazes de se afastar do calor. Os recém-nascidos podem ser expostos a temperaturas anormalmente altas, como acontece durante o transporte em veículos motorizados. Transportar recém-nascidos de carro com uma pequena caixa cercada por garrafas de água muito quentes ou usar placas de aquecimento elétrico para cobrir toda a caixa pode resultar em temperaturas anormalmente elevadas. A exposição prolongada a essas temperaturas tão altas coloca os recém-nascidos em perigo, por conta de sua incapacidade de regular a temperatura corporal. Um ambiente superaquecido pode causar uma respiração ofegante e levar à morte por insolação. 

 

O uso de uma seringa tipo bulbo de sucção na boca e, em seguida, nas narinas de um recém-nascido ajuda a desobstruir as vias aéreas, quando necessário.

 

CUIDADOS IMEDIATOS PARA RECÉM-NASCIDOS

 

O criador deve ser capaz de executar certas ações, uma vez que a qualidade de sua execução pode ajudar a reduzir significativamente a mortalidade neonatal.

 

1 – Remova o neonato de seu saco amniótico

2 – Desobstrua as vias aéreas – Utilize uma seringa tipo bulbo de sucção para limpar a mucosa

3 – Seque e estimule – Friccione o recém-nascido com o uso de toalhas secas e limpas. Não use secador de cabelo, pois isso poderá causar desidratação ou queimadura no neonato

4 – Desinfete o cordão umbilical. Faça a ligadura a 1 cm de distância da barriga com um pequeno fio (se necessário). Corte o cordão 1 cm mais à frente (ou seja, a 2 cm de distância da barriga). Desinfete o coto. 

5 – Pese o recém-nascido regularmente

6 – Coloque o recém-nascido nos mamilos da mãe (estimule a ingestão de colostro)

 

CONCLUSÃO

 

Após a reanimação, o filhote deve ser examinado de uma forma mais minuciosa, assim que ele estiver respirando adequadamente. Esse exame permite não só a detecção de quaisquer anomalias imediatamente visíveis (como malformações congênitas, ou seja, aquelas presentes desde o nascimento), mas também a identificação dos filhotes em risco de mortalidade neonatal. 

 

REFERÊNCIAS

 

  • Guia prático de neonatologia para criadores de cães e gatos. Royal Canin SAS 2017. 

  • Crédito das fotos: Y. Lanceau, Labat Rouquette, Christophe Hermeline, Frédéric Duhayer