VIDE (CORRETAMENTE) RÓTULO

publicado em: 09/09/2019

Existem muitos mitos e suposições em relação à alimentação de cães e gatos.

Há dúvidas sobre o que está nas embalagens e nos rótulos e por isso o médico-veterinário precisa entender do assunto para desmistificar as ideias que os tutores têm em relação a esse tema. 

Quando se trata de alimentação de animais, há comparações entre animais ancestrais e os domesticados dos dias atuais. E será que é uma comparação justa? De acordo com o doutor em Nutrição, Aulus Cavalieri Carciofi, o cão mudou muito nos últimos dez mil anos. Segundo ele, a capacidade de um cão de digerir amido e seu metabolismo de carboidratos se aproximou muito do ser humano. O gato foi menos alterado pelo homem, mas não é mais o mesmo. Os gatos ferais, por exemplo, que vivem na natureza vivem entre cinco e seis anos. Os domiciliares, por outro lado, podem chegar aos 16 anos com facilidade. Isso é possível, também e em várias condições, devido a dietas comerciais hoje disponíveis. 

O consumo de carboidratos foi, talvez, a principal mudança, tendo em vista que nos últimos milênios os pets foram expostos a plantas utilizadas para consumo humano. É importante ressaltar que o consumo de carboidratos não causa nenhum malefício ao gato, ele é composto por amido e fibra. “O primeiro é absorvido na forma de glicose com ação direta sob o metabolismo energético do animal. Podem ser usados amplamente na dieta de cães e gatos, com tanto, que haja equilíbrio com outros nutrientes” explica Carciofi. A digestão do amido em cães é de 98% a 99% e em gatos de 96% a 97%. 

Já a fibra, não fornece energia, pois não é digerida. Estas são necessárias à microbiota e à estrutura e funcionamento do trato gastrointestinal. Toda formulação adequada apresenta fontes de fibra para essa finalidade. “Além desta ação direta na saúde, são utilizadas para para induzir a saciedade e reduzir a digestibilidade e valor energético de alimentos de baixa caloria, para controle da formação de bolas de pelos em gatos, colaboram na formação e eliminação de fezes, etc. Dessa forma, verifica-se que carboidratos digestíveis, como amidos, e carboidratos não digestíveis, como fibras, têm função diversa na dieta de cães e gatos.”, completa o doutor.

 

Carboidrato X Obesidade

 

Talvez, uma das mais disseminadas inverdades, é que o carboidrato tem relação direta com o aumento de peso em felinos. Carciofi comenta que a associação entre dieta e obesidade acontece devido ao fornecimento à vontade de alimentos ricos em gordura. Segundo ele, um estudo epidemiológico com oito mil gatos sugere, inclusive, que o consumo de dietas com alto nível de amido e baixo nível de gordura favorece a manutenção do peso, protegendo, de certa forma, os gatos de se tornarem obesos. Esse, e outros, estudos derrubam os mitos a respeito do consumo de carboidratos pelos felinos e uma das poucas situações em que o consumo de amido não é recomendado são em caso de sobrepeso ou diabetes. Na situação de doença particular, as dietas devem ter baixo amido, gordura, elevada fibra e proteína, esta última passa a ser fonte de energia por gliconeogênese. A quantidade de amido, proteína ou gordura presente na dieta de cada animal deve está de acordo com suas necessidades. Outro exemplo são animais com doenças renais crônicas, que possuem dificuldade na metabolização de proteínas e suas dietas devem conter o mínimo desse nutriente possível e alto nível de amidos, que representa a maior parte da energia metabolizável. 

 

Subproduto. Ou melhor, coproduto: benfeitor em mais um aspecto

 

Os profissionais comentam que há um certo preconceito do tutor com coproduto, mas, de acordo com Carciofi, a farinha de vísceras de frango e óleo de frango são ótimos alimentos. Ser um coproduto do frango é apenas um termo que se refere ao processamento e modo de obtenção. “A parte mais cara e lucrativa são os cortes de frango para a mesa do ser humano, mas para cães e gatos existem muitos nutrientes essenciais que somente são encontrados em quantidades expressivas na farinha de vísceras de frango, incluindo o cálcio, fósforo, zinco, cobre, ferro, vitamina A, vitamina E, dentre inúmeros outros. Os teores destes nutrientes são muito baixos e insuficientes na carne de frango. Assim, para o cão ou gato, sob este aspecto nutricional, a farinha de vísceras é até mais interessante, pois apresenta maior leque, ou gama de nutrientes”, conta.

Além disso, a digestibilidade desta matéria prima é elevada e sua palatabilidade bastante alta. “Em realidade, o gato e o cão, ao caçarem uma ave, por exemplo, consomem todas as vísceras e ossos de modo que a farinha de vísceras de aves é um alimento natural para eles. A humanização excessiva, erros de leitura de rótulo por parte de proprietários, campanhas de marketing de empresas baseadas em conceitos e expectativas errôneas de proprietários, informações não científicas com fins comerciais ou sensacionalistas divulgadas na mídia, em conjunto, acabaram por criar um mito negativo e errado quanto a estas matérias-primas”, afirma Carciofi.

Não bastasse isso, a utilização dos coprodutos para alimentação de pets é importante para a sustentabilidade. Isso porque, após o abate, partes do animal serão destinadas ao ser humano e partes serão destinadas aos gatos e cães. Os ingredientes são, assim, adequados à espécie à qual se destinam e não existe desperdício. “Se as partes do frango não comestíveis para o homem fossem desprezadas, estas seriam jogadas no meio ambiente, criando poluição e desperdício de recursos alimentares importantes. A responsabilidade no uso dos recursos naturais assume importância cada vez maior com o aumento das populações humanas, de cães e de gatos que ocupam o planeta. Cereais como milho, trigo e sorgo são excelente alimentos, fornecendo energia, aminoácidos, ácidos graxos e fibras para gatos e cães, que os digerem adequadamente”, diz.

 

Rótulos

 

Há tutores que podem ter receio em relação ao alimento que oferecem aos pets por não entenderem corretamente o que é especificado nos rótulos dos produtos. Segundo a mestre em Clínica Veterinária e doutoranda em Clínica Médica, com ênfase em Nutrição de Cães e Gatos, Vivian Pedrinelli, o uso da imagem de uma proteína, ou mesmo outros ingredientes, como legumes, verduras e frutas na embalagem dá a entender que este ingrediente está presente no produto. “O tutor, muitas vezes, interpreta que o produto está presente in natura, o que não necessariamente reflete a realidade. Assim, quando descobre que aquele ingrediente da imagem não está presente in natura, pode se sentir lesionado ou até mesmo enganado. Por outro lado, muitos tutores já estão acostumados com essa prática, pois é costume também utilizar este artifício em embalagens de alimentos para consumo humano”, comenta.

Segundo a gerente da área Técnico Regulatória da ABINPET, Bárbara Mião, a legislação vigente, Instrução Normativa no 30/2009, permite o uso de terminologias e representações gráficas nos rótulos, embalagens e propagandas que remetam à composição do produto, desde que seja utilizada a expressão “IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA”, quando se tratar do uso de coprodutos ou adicionado sabor por meio de aditivos aromatizantes ou palatabilizantes. Este tema está no Manual Pet Food Brasil – Guia Nutricional para Cães e Gatos.Há receio, também, ao fato da porcentagem de carboidrato não ser expressa nos rótulos, por ser disseminado que o ingrediente pode causar algum mal ao animal, como comentado no início da reportagem, mas, segundo a legislação, não há necessidade de ser informada a quantidade, nem estipulados valores máximos ou mínimos de carboidrato para a fabricação do produto. “Os valores nutricionais recomendados para padrões de identidade e qualidade dos alimentos apresentados no Guia são determinados como valores máximos para o conteúdo de umidade, matéria fibrosa ou fibra bruta, matéria mineral ou conteúdo de cinzas, sendo determinados como valores mínimos os níveis de proteína bruta, extrato etéreo e fósforo”, comenta Bárbara.

Ela diz que os guias nutricionais têm como objetivo garantir um padrão de qualidade aos alimentos destinados aos animais de estimação, como é o caso do Manual Pet Food Brasil, elaborado por meio da colaboração de técnicos das iniciativas privada e acadêmica, com base nas exigências nacionais e internacionais, garantindo um alto nível ao produto final. “Por ser considerado completo, o alimento industrializado apresenta-se como a maneira mais prática e segura de se garantir uma boa saúde aos animais de companhia”, completa.

 

Produção e garantia de qualidade

 

Os alimentos secos e úmidos produzidos em escala industrial, assim como os alimentos in natura industrializados, devem ser produzidos em estabelecimentos registrados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e cumprir requisitos de qualidade para a garantia da segurança dos alimentos, segundo a médica-veterinária, membro do Comitê de Responsabilidade Técnica do CRMV-SP, Carolina Padovani. Segundo ela, o conceito de qualidade, empregado para classificar os alimentos para gatos e cães, está alicerçado em basicamente três principais pontos: a ciência por trás do produto, sua formulação e seu processo produtivo. “A ciência deve ser o ponto fundamental a ser considerado para o desenvolvimento e produção de um alimento de qualidade, uma vez que garantirá o amplo conhecimento do profissional às reais necessidades das espécies, bem como dos nutrientes e do processo de produção. A formulação adequada às necessidades do animal é um ponto extremamente crítico a ser observado e garantido. Todos os alimentos atualmente comercializados são classificados como alimentos completos ou coadjuvantes, devendo atender às exigências e necessidades nutricionais dos animais”, diz.

O processo produtivo inclui desde a aquisição de ingredientes e embalagens, aos processos de fabricação e à distribuição de produtos aos clientes. “Todas as etapas deste processo irão colaborar com a garantia de um alimento de qualidade. É de fundamental importância que a empresa realize a seleção de matérias-primas e seus fornecedores. É impossível visualizar, sob a interpretação de uma rotulagem, se os produtos e suas matérias-primas são de boa qualidade porque a nomenclatura não difere. Além das matérias-primas, é fundamental que as embalagens que irão acondicionar os alimentos garantam que seus ingredientes, em especial vitaminas, minerais e gorduras, não se degradem, oxidem e alterem seus níveis de garantia”, explica.

 

Responsável técnico

 

Quando se fala em qualidade, é impossível não a associar ao profissional que tem grande atribuição nesse processo: o Responsável Técnico (RT). De acordo com Carolina, é ele que garante o cumprimento dos requisitos legais do produto.

De acordo com o médico-veterinário, zootecnista e consultor de empresas de alimentação in natura, João Paulo Fernandes Santos, nas empresas de dietas in natura, o corpo técnico é bastante reduzido. “Por isso, o RT deve ser o ponto central, acompanhando toda a adequação da planta fabril à legislação em vigor, processo de validação de fornecedores e fórmulas nutricionais, acompanhamento do processo de fabricação assegurando a qualidade do produto, registro de produtos (no caso de dietas coadjuvantes), respondendo, ainda, por questões relacionadas à rotulagem e propaganda, bem como representando à empresa junto aos órgãos reguladores”, afirma.

Santos explica que, em relação à segurança biológica e física, é importante destacar que as empresas devem seguir os critérios mínimos previstos pela Instrução Normativa no 4, de fevereiro de 2007, com vistas às condições higiênico-sanitárias e boas práticas de fabricação, as quais são regidas pelo MAPA e são condições mínimas para assegurar qualidade do produto final, no que tange a segurança de alimentos. “Os alimentos in natura devem ser fabricados considerando-se as normas de boas práticas de fabricação do MAPA, bem como, considerando fórmulas elaboradas por profissionais capacitados. Neste quesito, é importante ter em mente a necessidade de atualização da legislação para normas que contemplem a realidade destas empresas, já que a legislação em vigor é direcionada para fábricas com grande potencial de produção, e as chamadas dietas in natura são produzidas em plantas semelhantes à cozinhas industriais, o que gera uma dificuldade de adequação à legislação por parte das empresas e da fiscalização”, comenta.

Segundo a médica-veterinária e responsável técnica de indústria de alimentos manufaturados, Stephanie Souza, na indústria pet food a legislação vigente atribui ao RT uma série de responsabilidades, como aprovação e mudança de fórmulas, aprovação dos declarativos das embalagens, bem como garantir que a empresa esteja cumprindo as diferentes diretrizes estabelecidas pelo órgão regulador, o MAPA. “O artigo 25 do Decreto 6296/07 do MAPA prevê que "O responsável técnico responderá solidariamente por qualquer infração cometida relacionada ao estabelecimento e seus produtos". Além disso, atualmente, o CRMV disponibiliza um “Manual de Responsabilidade Técnica”, o qual oferece uma base de informações sobre a atuação do RT em diferentes áreas. Este material é de uso essencial pelos RTs, mas sabemos que muitas informações ainda não estão disponibilizadas em manuais ou normativas”, diz.

Ela explica que as normas indicadas em guias internacionais de nutrição, como no da Federação Europeia da Indústria de Ração Animal (FEDIAF) e no Manual Pet Food Brasil, da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), recomendam padrões técnicos e de qualidade de matérias-primas e produtos acabados, além de parâmetros nutricionais, metodologias e condições ideais de produção, e hoje são seguidas por grande parte das indústrias de pet food no Brasil. “A legislação exige que todas as indústrias que produzem pet food cumpram as Boas Práticas de Fabricação (BPF), que são medidas mínimas para a produção segura e com qualidade. Grandes empresas trabalham com outros requisitos complementares ainda mais exigentes, como por exemplo, o sistema de gestão de segurança alimentar denominado Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC)”, finaliza Stephanie.