COMO A CASTRAÇÃO AFETA O COMPORTAMENTO E A ALIMENTAÇÃO DOS GATOS

publicado em: 15/07/2019

Nutrição de gatos castrados

A obesidade em gatos e cães é um assunto que está sendo amplamente abordado. No Brasil, cerca de 52% dos gatos e 59% dos cães estão com sobrepeso ou obesidade e como consequência suas doenças concomitantes, como diabetes melittus, osteoartrites, distúrbios gastrointestinais e até dermatopatias, aumentaram.

É importante que médicos-veterinários entendam as causas do problemas e abordem o assunto desde a primeira consulta, para serem assertivos e evitar qualquer problema futuro, prolongando a vida do animal.

O aumento da população e mudança de estilo de vida, para grandes cidades e vida em apartamentos, faz com que as pessoas escolham os gatos como pet. Junto a esses fatores e por passarem o dia longe de casa, fornecem grandes quantidades de alimento ou quando o gato pede, ferindo a natureza do animal, que faz pequenas refeições várias vezes ao dia.

O crescimento desse estilo de vida é proporcional ao crescimento da castração.

 

Esse dado faz parte do estudo sobre obesidade e mostra que os fatos estão diretamente relacionados:

As mudanças no estilo de vida da população humana juntamente com o aumento na urbanização estão resultando no crescimento do número de gatos como opção de pets, além de trazer esses gatos para dentro de casa – portanto em um ambiente indoor. Adicionalmente a esse fator, a maioria dos tutores fornecem alimentação ad libidum, o que está em desacordo com o comportamento natural de caça dos felinos, que geralmente leva a pequenas e várias refeições ao dia.

Essas mudanças no estilo de vida ocorrem simultaneamente ao aumento do procedimento cirúrgico para a castração. Estas tendências podem explicar em parte o aumento da incidência de obesidade; estudos demonstraram que existe uma clara correlação entre a castração e um risco aumentado de ganho de peso.


 

Alterações nos felinos após a castração

Como a castração é um cirurgia que implica em mudanças fisiológicas, ela afeta diretamente o comportamento e funcionamento corporal. A ingestão do alimento em quantidades desequilibradas implica na obesidade, é importante estimular exercícios físicos e mudança do comportamento alimentar, essas são a chave para o controle da doença nessa fase.  

Gatos castrados com alimentação ad libitum apresentaram aumento de peso e maior porcentagem de gordura corporal (HARPER et al., 2001). O aumento da massa gordurosa junto ao ganho de peso são os principais responsáveis pela obesidade em gatos castrados (ALEXANDER et al., 2011).

Para gatos, os 3 primeiros meses pós castração é o período e maior ganho de peso, cerca de 30,2% e para gatas 40%. Gatos que ingeriram alimento quase imediatamente após a cirurgia tiveram aumento de gordura corporal de 28%. O estudo mostra também que para gatas castradas a quantidade de calorias requeridas para manter o peso corporal é menor além da redução do metabolismo, com menos atividades físicas.

O livre acesso ao alimento aumenta em 17% a ingestão alimentar o que contribui diretamente para o aumento de peso, em todo caso é necessária a redução calórica para a manutenção do peso.

 


 

http://portalvet.royalcanin.com.br/arquivos/imagens/diagramas_1.png


 

 Figura 1. Fatores envolvidos na prevenção da obesidade em gatos castrados.

 

Mecanismo do aumento da ingestão de alimento

A ingestão aumentada de alimento é o fator chave para o ganho de peso após a castração. Recomenda-se os ajustes na quantidade de alimento oferecida, porções controladas, assim como o seu fracionamento ao longo do dia. Deve-se evitar o oferecimento ad libitum, aumentar a ingestão de fibras e reduzir a ingestão energética. O aumento da atividade física é interessante para evitar a restrição de alimento muito severa.

Após a castração, observam-se mudanças hormonais que influenciam no ganho de peso e maior ingestão de alimentos nos felinos. Temos maior impacto na resposta do hormônio colecistoquinina (BACKUS; KANCHUK; ROGERS, 2006), aumento da prolactina, do fator de crescimento dependente de insulina e elevação dos níveis de leptina (MARTIN et al., 2001). Por outro lado, temos diminuição na concentração de hormônios como testosterona e estrógeno. Encontrou-se redução significativa de estradiol em gatos após a castração, aparentando ser um dos fatores de influência no aumento de ingestão de alimento (BACKUS, 2011) .

A conversa com o tutor deve acontecer durante todo o processo de castração, antes e depois, é importante informar sobre o monitoramento do ganho de peso, identificação correta do escore de condição corporal e acompanhamento veterinário para ajustes nas quantidades de alimentos.

 

 Manejo nutricional do gato castrado

 A ingestão aumentada de alimento é o fator chave para o ganho de peso após a castração. Recomenda-se os ajustes na quantidade de alimento oferecida, porções controladas, assim como o seu fracionamento ao longo do dia (LARSEN, 2017). Deve-se evitar o oferecimento ad libitum, aumentar a ingestão de fibras e reduzir a ingestão energética (LOUREIRO et al., 2017). A utilização de brinquedos ou “food puzzles” pode ser útil para minimizar a velocidade de consumo do alimento. O aumento da atividade física é interessante para evitar a restrição de alimento muito severa (BROOKS et al., 2014).

Uma peça chave para o sucesso do manejo nutricional é o engajamento e instrução do tutor do gato. Estudos mostram que tutores tendem a subestimar o escore de condição corporal do seu pet, contribuindo para o desenvolvimento da obesidade (COLLIARD et al., 2009). Além disso, mostrou-se que 80% dos tutores de gatos fornecem alimento ad libitum aos seus animais (DONOGHUE; SCARLETT, 1998). Sendo assim, a educação nutricional do tutor deve incluir o monitoramento do ganho de peso, identificação correta do escore de condição corporal e acompanhamento veterinário para ajustes nas quantidades de alimentos (LARSEN, 2017). A prevenção é preferível para evitar ganho de peso e para a manutenção da massa magra.


 

http://portalvet.royalcanin.com.br/arquivos/imagens/diagramas_2.png


 

Figura 2. Fatores envolvidos no manejo da obesidade em gatos castrados

 

Quer receber novos artigos científicos por e-mail?

Cadastre-se aqui.

 

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

  • ALEXANDER, L. G. et al. Effects of neutering on food intake, body weight and body composition in growing female kittens. British Journal of Nutrition, v. 106, n. S1, p. S19–S23, 2011.

  • BACKUS, R. Plasma oestrogen changes in adult male cats after orchiectomy, body-weight gain and low-dosage oestradiol administration. The British journal of nutrition, v. 106 Suppl, n. September 2010, p. S15-8, 2011.

  • BACKUS, R. C.; KANCHUK, M. L.; ROGERS, Q. R. Elevation of plasma cholecystokinin concentration following a meal is increased by gonadectomy in male cats. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, v. 90, n. 3–4, p. 152–158, 2006.

  • BELSITO, K. R. et al. Impact of ovariohysterectomy and food intake on body composition, physical activity, and adipose gene expression in cats. Journal of Animal Science, v. 87, n. 2, p. 594–602, 2009.

  • BROOKS, D. et al. 2014 AAHA Weight Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 50, n. 1, p. 1–11, 2014.

  • COLLIARD, L. et al. Prevalence and risk factors of obesity in an urban population of healthy cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 11, n. 2, p. 135–140, 2009.

  • DONOGHUE, S.; SCARLETT, J. M. Diet and Feline Obesity. J Nutr, v. 128, p. 2776–2778, 1998.

  • FETTMAN, M. . et al. Effects of neutering on bodyweight, metabolic rate and glucose tolerance of domestic cats. Research in Veterinary Science, v. 62, n. 2, p. 131–136, 1997.

  • HARPER, E. J. et al. Effects of feeding regimens on bodyweight, composition and condition score in cats following ovariohysterectomy. Journal of Small Animal Practice, v. 42, n. 9, p. 433–438, 2001.

  • KANCHUK, M. L. et al. Weight gain in gonadectomized normal and lipoprotein lipase-deficient male domestic cats results from increased food intake and not decreased energy expenditure. The Journal of nutrition, v. 133, n. 6, p. 1866–1874, 2003.

  • LARSEN, J. A. Risk of obesity in the neutered cat. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 19, n. 8, p. 779–783, 2017.

  • LOUREIRO, B. A. et al. Insoluble fibres, satiety and food intake in cats fed kibble diets. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, v. 101, n. 5, p. 824–834, 2017.

  • MARTIN, L. et al. Leptin, body fat content and energy expenditure in intact and gonadectomized adult cats: A preliminary study. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, v. 85, n. 7–8, p. 195–199, 2001.