A esterilização felina e suas consequências.

publicado em: 05/07/2018

 

    INTRODUÇÃO

 

A contracepção através da esterilização cirúrgica ou gonadectomia é uma intervenção irreversível que resulta na cessão das funções reprodutivas. Os métodos cirúrgicos rotineiros os quais as gônadas são removidas são a ovariectomia ou ovariosalpingohisterectomia (OSH) nas fêmeas e a orquiectomia nos machos. Procedimentos como vasectomia ou salpingectomia (ligação das tubas) também resultam na eliminação da função reprodutiva, mas o comportamento sexual e a incidência das doenças hormonais não são influenciadas (Reichler, 2008).

Existem vários motivos para a recomendação da esterilização em gatos que não tem intenção de reprodução. Além de ser uma escolha responsável, que ajuda na redução de ninhadas não desejadas e consequentemente na redução do número de animais abandonados nas ruas, a esterilização traz benefícios ao tutor, pois tende a tornar o gato mais calmo e mais próximo, e reduzir o comportamento de cio e marcação territorial (Reichler, 2008).

 

ALTERAÇÕES NO ORGANISMO PÓS-GONADECTOMIA

 

Hormônios gonadais, como o estrógeno, progesterona e testosterona, não apenas controlam a produção de células reprodutivas, mas também são reconhecidos em atuar no metabolismo geral e ingestão de alimentos. Outros hormônios, como a prolactina e a leptina, também parecem estar envolvidos nessa regulação (Martin, 2005).

O estrógeno, hormônio produzido pelas gônadas femininas, possui receptores no hipotálamo e interage com a leptina, aumentando sua atividade. A leptina, por sua vez, é responsável pelo controle da ingestão alimentar e saciedade. A interação entre estrógeno e leptina atua na regulação do apetite. Além disso, o estrógeno é associado ao aumento de atividade física voluntária. Portanto, a esterilização e a redução no estrógeno circulante podem estar relacionadas com falhas na regulação do apetite e no decréscimo das atividades físicas (Butera, 2001).


 

EFEITO DA GONADECTOMIA EM DOENÇAS DO TRATO REPRODUTIVO

 

Tumor de mama:: esses tumores acometem 17% das neoplasias das gatas, e pelo menos 85% desses tumores são malignos. Gatas esterilizadas antes dos 6 meses de idade tem uma redução de 91% no risco de desenvolver tumor maligno de mamas quando comparada a gatas inteiras. Se a esterilização ocorre antes de 1 ano de idade, esse risco se reduz a 86%, e se esterilizadas entre 1 e 2 anos, há redução de risco em 11%. Após 2 anos de idade, a esterilização não mostra benefícios para esses casos (Hayes et al, 1985; Overly et al, 2005).

Tumores de próstata e outras condições epididimais são raras em gatos (Caney et al, 2008; Reicheler, 2005), portanto, não serão abordadas nessa revisão.


 

EFEITO DA ÉPOCA DA GONADECTOMIA SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA GENITÁLIA

 

Gatas castradas entre 7 semanas e 7 meses apresentaram vulva pequena e infantil, porém sem quaisquer alterações clínicas. Gatos castrados entre 7 semanas e 7 meses foram comparados com inteiros e observou-se que 100% dos gatos inteiros tinham extrusão peniana completa, contra 60% dos gatos castrados aos 7 meses e 0% daqueles castrados com 7 semanas (Leroy et al, 2004).


 

EFEITO DA GONADECTOMIA SOBRE O TRATO URINÁRIO INFERIOR

 

DTUIF: muitos estudos buscam detectar o efeito da gonadectomia na saúde urinária de gatos, mas falham em correlacionar a idade da gonadectomia com aumento da incidência de DTUIF (Reichler, 2005). Além disso, não foram encontradas diferenças em diâmetros uretrais pré-prostáticos ou penianos em gatos castrados entre 7 semanas, 7 meses ou intactos (Root, 1997). Contudo, a associação da gonadectomia com a obesidade são consideradas fatores de risco para o aumento do risco de DTUIF, especificamente para urolitíases, com um risco 7 vezes maior em formação de urólitos de oxalato de cálcio e 3,5 vezes maior propensão à formação de urólitos de estruvita (Lekcharoensuk et al, 2001).


 

EFEITO DA GONADECTOMIA SOBRE O SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO

 

Crescimento: Estudos analisaram os efeitos da gonadectomia sobre a idade e mostrou que o crescimento não é afetado, mas ocorre um atraso no fechamento fisário. Isso foi mais nítido em gatos machos. Gatos machos castrados às 7 semanas ou 7 meses têm, em média, comprimentos de radio finais 13% maiores do que os machos intactos (Root, 1997).

Fraturas: Foram sugeridas fraturas espontâneas de fêmur como resultado do fechamento fisário retardado devido a castração precoce. Em estudo retrospectivo, 39 gatos com 47 fraturas foram examinados. 4 fatores de risco para fratura de fêmur espontâneas em gatos com mais de 1 ano foram sugeridas: sexo, status reprodutivo, fechamento fisário retardado e sobrepeso. Portanto, gatos castrados e obesos podem ser predispostos a fratura femoral espontânea, o que aumenta a importância do controle de peso desses animais (McNicholas et al, 2002).


 

EFEITO DA GONADECTOMIA SOBRE O METABOLISMO

 

Peso Corporal: embora a obesidade possa ocorrer tanto em gatos castrados quanto inteiros e seja influenciada por uma gama de fatores, como dieta, raça e nível de atividade, existem indícios que animais castrados possam ganhar significativamente mais peso quando comparado com animais inteiros. Vários estudos indicam que castração é um fator de risco para obesidade em gatos (3,4x mais risco de se tornarem obesos do que gatos inteiros). Esse ganho de peso pode se iniciar imediatamente após a esterilização, e os felinos podem ganhar até 30% de seu peso em apenas 3 meses pós-operatório (Fettman, 1997; Scarlett, 1998; Kanchuck, 2003), como mostra Figura 1.

 

Figura 1: Ganho de peso corporal após a esterilização.




Root et al (1996) mensuraram, por calorimetria indireta, a taxa metabólica de gatos esterilizados e gatos inteiros, e observaram que a produção de calor (medida da taxa metabólica) era 28% maior nos machos inteiros e 33% maior nas fêmeas inteiras, quando comparados com os esterilizados, conforme ilustra a Figura 2:

Figura 2: Necessidade energética de gatos castrados versus gatos inteiros.

 


Em outro estudo, Belsito et al (2008) estudaram o impacto da esterilização e da ingestão de alimentos na composição de corporal, atividade física e parâmetros bioquímicos. Os resultados estão mostrados na figura 3. Além do aumento no consumo voluntário de alimentos e no peso corporal (massa gorda), houve redução de massa magra, aumento de glicose e triglicerídeos séricos:

Figura 3: Ingestão de alimentos em gatos esterilizados versus gatos inteiros.



A obesidade pode ser prevenida por algumas medidas. Há evidências que gatos em dietas de alta gordura ganham peso; porém, uma dieta de baixa gordura sozinha não será suficiente para prevenir obesidade após a gonadectomia, pois também é necessário que seja feito o controle do manejo alimentar e da quantidade fornecida (Nyugen, 2004). A prevenção da obesidade é importante porque esta condição está associada a outros problemas médicos, como diabetes (3,9 vezes mais), artopatias (claudicação – 4,9 vezes mais), dermatopatias não alérgicas (2,3 vezes mais), além de DTUIF e diarreia, e traz efeitos negativos sobre a expectativa de vida (Scarlet et al, 1998; Reichler, 2005).
 

Diabetes mellitus: Gatos castrados não só possuem risco maior de se tornarem obesos como também de se tornarem diabéticos. Essa probabilidade, que pode ser de 2 a 3 vezes maior que em gatos inteiros, provavelmente ocorre devido à redução na sensibilidade à insulina (Kanchuck, 2003).
 

 

INTERVENÇÕES NUTRICIONAIS

Uma vez conhecida as particularidades dos gatos esterilizados, é possível atuar, através da nutrição, na redução do risco de algumas condições, principalmente a obesidade. De um modo geral, os alimentos para gatos esterilizados devem apresentar:

  • Baixa energia: a redução de calorias auxilia na manutenção da condição corporal ideal. A literatura cita restrições energéticas de 20 a 30%.
  • Alta proteína: a proteína, como fonte energética, fornece menos energia líquida quando comparada à gordura ou aos carboidratos, além de colaborar no controle glicêmico e preservar massa muscular magra (André et al, 2015).
  • Alta fibra: as fibras contribuem na diluição energética e na saciedade.
  • L-carnitina: atua sobre o transporte de ácidos graxos de cadeia longa através da membrana mitocondrial e consequente oxidação e produção de energia.
  • Alimentos úmidos: a água, por não conter calorias, permite um volume de refeição maior, o que contribui para a saciedade. Além disso, pode auxiliar na saúde do trato urinário.

A dieta precisa ser adaptada imediatamente após a cirurgia, o que se faz interessante iniciar a transição gradual 10 dias antes da data da operação. O manejo envolve o controle da quantidade servida e acompanhamento do peso do paciente.

 


Animais castrados vivem mais que animais inteiros, e isso pode ocorrer devido ao efeito preventivo das doenças de trato reprodutivo e/ou ao risco relacionado com o comportamento (Kraft, 1998). É responsabilidade do clínico orientar os tutores sobre as alterações decorrentes da esterilização, a adaptação da dieta, o correto manejo alimentar e a prescrição de exercícios. A clara associação entre esterilização e ganho de peso significa que devemos ser intencionais na prescrição nutricional nesse momento.

Se a quantidade de esterilizações vem aumentando como forma preventiva de controle de população dos animais, essas conversas sobre as alterações decorrentes da esterilização se tornam igualmente importantes para a medicina preventiva.

 

 

    REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


 

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    SOBRE A AUTORA


Natalia Bianchi Lopes
Coordenadora de Comunicação Científica – Royal Canin do Brasil