Diarreia do desmame em filhotes caninos | Parte 1

publicado em: 25/06/2018

 

 

     AURÉLIEN GRELLET, DVM, PhD
        Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Royal Canin,
     Aimargues, França

 

    INTRODUÇÃO

 

As doenças gastrintestinais são alguns dos problemas mais frequentemente relatados em cães1-3. Os filhotes caninos, no entanto, correm maior risco de diarreia do que os animais adultos; cerca de 10-25% de todos os filhotes caninos terão problemas digestivos em algum momento no primeiro ano de suas vidas4,5. O objetivo do presente artigo é não só fazer uma revisão dos fatores capazes de afetar a saúde digestiva do filhote, mas também abordar os procedimentos que ajudarão a controlar e evitar esse problema.
 

DESMAME: UM ESTÁGIO CRÍTICO
 

O desmame é um estágio crítico para os filhotes caninos. Do ponto de vista digestivo, a transição do leite para os alimentos sólidos provoca modificações:

A. na arquitetura da mucosa digestiva (aumento na profundidade das criptas intestinais),

B. no transporte de nutrientes,

C. na atividade enzimática (diminuição na atividade da lactase e aumento na atividade da amilase/lipase) e

D. na flora intestinal (redução no número de bactérias aeróbias).

Ao mesmo tempo, os filhotes passam por um lapso de imunidade — período em que eles se encontram refratários à vacinação devido à persistência de anticorpos maternos6, mas são suscetíveis a infecções, especialmente as gastrintestinais. Além disso, a separação de um filhote de sua mãe induz a um nível considerável de estresse, o que pode afetar o metabolismo, o sistema imunológico e a função intestinal. Todos esses fenômenos podem explicar a maior prevalência de diarreia em filhotes caninos, em comparação aos adultos.
 

DIARREIA DO DESMAME – OS RISCOS

A diarreia do desmame é um problema para filhotes caninos e também um risco à saúde pública. A diarreia pode reduzir as taxas de crescimento e aumentar o risco de mortalidade7. Como os problemas gastrintestinais podem ser a principal causa de óbito em cães com menos de 1 ano de idade8, é essencial tratar todos os animais que apresentam algum distúrbio digestivo de forma rápida e eficaz. Além disso, as queixas digestivas também representam um risco à saúde pública; alguns dos agentes infecciosos excretados por filhotes caninos com diarreia são potencialmente zoonóticos, p. ex., Giardia duodenalis e Toxocara canis9. Por essa razão, o papel desempenhado pelo veterinário na prevenção e no tratamento dessas diarreias é crucial.
 

DEFINIÇÃO DE DIARREIA

Além de uma análise subjetiva do que poderia ser classificado como “fezes moles”, a primeira dificuldade está em definir o que de fato são fezes anormais. A qualidade das fezes pode ser avaliada com o uso de um “escore fecal de filhotes”, ou seja, com uma escala visual de 13 pontos, em que 1 representa fezes líquidas e 13 corresponde a fezes formadas e muito secas7. Essa escala é diferente daquela usada para adultos. As variações fisiológicas precisam ser levadas em conta para definir um escore fecal anormal.
 

SISTEMA DE ESCORE FECAL PARA FILHOTES CANINOS


Sistema de escore fecal adaptado de: Grellet A, Feugier F, Chastant-Maillard S, et al. Validation of a fecal scoring scale in puppies
during the weaning period. Prev Vet Med 2012;106(3-4):315-323. 


Os filhotes de porte grande (> 25 kg na idade adulta) produzem fezes mais moles do que aquelas produzidas por filhotes de porte menor; além disso, os filhotes jovens (com 4-5 semanas de vida) produzirão fezes significativamente mais moles do que os de idade mais avançada. Portanto, o limiar de escore fecal que define uma condição patológica para as fezes varia de acordo com o porte e a idade do animal, embora possa ser definido como 5 para filhotes de porte grandes, 6 para filhotes de porte pequeno com 4-5 semanas de vida, e 7 para filhotes de porte pequeno com 6-8 semanas de vida7.
 

UMA ABORDAGEM SISTÊMICA PARA O PROBLEMA
 

A diarreia do desmame é um fenômeno complexo por várias razões. Em primeiro lugar, os filhotes são frequentemente infectados por diferentes microrganismos; a presença de enteropatógeno, no entanto, nem sempre está associada a sinais de algum problema gastrintestinal. De fato, 18-54% dos cães podem excretar vírus ou parasitas, sem desenvolver sinais clínicos5, 10, 11.

Em segundo lugar, determinado enteropatógeno nem sempre induz aos mesmos sinais clínicos em todos os filhotes. A patogenicidade de um agente infeccioso e o seu impacto clínico dependerão da idade e do estado imunológico do filhote, bem como da cepa do enteropatógeno12,13. Por exemplo, o parvovírus canino (CPV) é classicamente considerado um dos agentes causais de diarreia em filhotes, o qual leva a sinais sistêmicos graves (vômito, anorexia, prostração, desidratação) e até mesmo ao óbito em alguns casos. Em alguns filhotes, entretanto, o vírus pode alterar apenas a qualidade das fezes, sem afetar o estado geral do animal; ou, então, pode não haver nenhum sinal clínico5. Do mesmo modo, o coronavírus pode provocar uma variedade de sinais clínicos. Recentemente, foi identificada uma nova cepa desse vírus — o coronavírus pantrópico, que parece causar uma doença clínica muito mais grave, incluindo a morte em alguns casos. A coccidiose também pode ocasionar distúrbios entéricos, mas em graus variados; o complexo Cytoisospora ohioensis pode gerar distúrbios digestivos em animais muito jovens (< 7 dias de vida), mas não afeta os filhotes ao desmame, enquanto o C. canis induz principalmente a sinais clínicos em filhotes ao desmame e, em particular, após situações indutoras de estresse (p. ex., em mudanças de ambiente)14.

Em terceiro lugar, as coinfecções e interações entre enteropatógenos são frequentes. Um estudo em 316 filhotes caninos com diarreia revelou que 75% deles tinham mais de um agente infeccioso envolvido5. Alguns desses agentes infecciosos podem interagir e aumentar a gravidade dos sinais clínicos; p ex., o coronavírus agravará os sinais clínicos durante a coinfecção pelo CPV tipo 215.

Por fim, novos enteropatógenos são identificados com certa regularidade. Vários vírus e parasitas gastrintestinais caninos foram recém-isolados (p. ex., astrovírus16, norovírus17 e tricomonas18,19). Apesar de sua forte prevalência em filhotes caninos (entre 5 e 23%, dependendo do patógeno e da origem dos animais), o papel desses enteropatógenos na diarreia do desmame ainda não foi claramente estabelecido16, 18, 20; além disso, a maioria dos estudos que avaliam esses agentes infecciosos não leva possíveis coinfecções em consideração.
 


*Filhotes de pet shop; por isso, a faixa etária variável.
 

Ao contrário de alguns distúrbios que podem ser encarados de forma simplista (ou seja, um agente = uma doença), a diarreia do desmame é um fenômeno biológico complexo e, por essa razão, é essencial uma abordagem “sistêmica” para esse problema. Basicamente, as diarreias do desmame são influenciadas por uma tríade que consiste em:

  • O hospedeiro (idade, genética e imunidade [local e sistêmica]);
  • O patógeno (virulência, cepa, dose);
  • O ambiente (densidade populacional, estresse, níveis de higiene, temperatura/umidade).

É necessária uma abordagem multidisciplinar, com a avaliação de três fatores principais: nutrição, enteropatógeno(s) causal(is) e meio ambiente.
 

AVALIAÇÃO NUTRICIONAL
 


Do ponto de vista nutricional, será necessária a obtenção de um histórico completo do caso. É particularmente importante questionar o tutor sobre:

  • Os alimentos consumidos, a fim de avaliar a qualidade (alguns casos de diarreia do desmame estão ligados à ingestão de carne crua contaminada por Salmonella enterica23);
  • O número de refeições fornecidas (o ato de dividir a ração em 4 porções diárias pode reduzir o risco de diarreia para filhotes caninos jovens5);
  • A quantidade de alimento oferecido (a superalimentação deve ser evitada) e sua qualidade (o alimento é de alta digestibilidade?).
     

 

AVALIAÇÃO DE ENTEROPATÓGENOS
 


Também é importante identificar se o animal está excretando um ou mais enteropatógenos e em que quantidade. A cor das fezes do animal pode ajudar a identificar o(s) patógeno(s) responsável(is) pela diarreia. Por exemplo, a giardíase causará atrofia parcial das vilosidades intestinais e redução na atividade das enzimas dissacaridases, levando à diminuição na absorção dos alimentos e ao desenvolvimento de esteatorreia; as fezes podem ficar de cor amarela. Além disso, pode-se observar o comportamento de coprofagia (o aumento do teor de gordura torna as fezes mais palatáveis). Fezes malformadas contendo muco e sangue podem indicar coccidiose ou, então, os parasitas podem ser visíveis a olho nu na diarreia. Contudo, essas diferenças não permitem um diagnóstico definitivo, havendo a necessidade de testes complementares.
 

Várias opções de exames, incluindo microscopia, ELISA e PCR, podem ser úteis e devem ser empregadas de acordo com os recursos financeiros do tutor, bem como segundo a experiência e as suspeitas clínicas do veterinário. Embora a avaliação microscópica das fezes seja uma medida de grande utilidade na suspeita de parasitas, a amostra submetida a teste precisa ser fresca (ou seja, recém-coletada) e não excessivamente líquida (em particular, na pesquisa de protozoários). Como os agentes causais podem ser eliminados de forma intermitente, os testes devem ser repetidos por 3 dias consecutivos; um único resultado negativo é de pouco valor. Caso uma ninhada ou um grupo de filhotes caninos seja acometido, pode-se realizar o teste coletivo de um pool de amostras fecais, o que limita a obtenção de resultados falso-negativos ligados ao período pré-patente e à excreção parasitária intermitente.
 

Existem vários kits disponíveis no mercado para a identificação de determinados parasitas (p. ex., Giardia spp.). Tais testes são rápidos e relativamente baratos, além de não exigirem material específico de amostra. Esses testes, no entanto, só permitem a identificação de um agente infeccioso de cada vez, o que pode ser um fator limitante nos casos em que há muitos enteropatógenos envolvidos.Diante dos quadros de diarreia do desmame ou morte súbita em filhote canino, sempre se deve suspeitar do envolvimento de parvovírus canino (CPV); nesses casos, é imperativo avaliar o animal quanto à presença do vírus, independentemente do seu status de vacinação. Os testes de ELISA são simples e rápidos, com especificidade elevada e sensibilidade variável (18-82%24-26), o que está relacionado com a carga viral excretada. Os resultados falso-negativos são comuns com baixos níveis de excreção viral, mas um resultado negativo não exclui a infecção por parvovírus. Também há um risco de resultados falso-positivos se os animais forem submetidos aos testes alguns dias após a vacinação, embora o resultado geralmente seja menos conclusivo do que quando se avalia um animal com a parvovirose de fato. O teste de PCR em tempo real apresenta melhor sensibilidade e especificidade e, por isso, constitui o método de escolha para o diagnóstico de parvovírus canino (CPV), uma vez que esse teste é capaz de diferenciar entre a excreção pós-vacinal (carga viral baixa a muito baixa) e a doença clínica (em geral, carga viral alta a muito alta). A coprocultura bacteriana raramente é útil na avaliação de diarreia do desmame. Aliás, as bactérias consideradas como os agentes causais de diarreia são frequentemente isoladas em indivíduos saudáveis do ponto de vista clínico. Todavia, na suspeita de bactérias patogênicas específicas, certos agentes (como Salmonella spp., Campylobacter jejuni, Clostridium perfringens, e C. difficile) podem ser obtidos em cultura. 

 

AVALIAÇÃO DO AMBIENTE
 


Quando o veterinário se depara com um problema de diarreia do desmame em um estabelecimento de criação, é essencial realizar uma visita ao local. Note que, se um grupo de cães estiver envolvido, nem todos os problemas poderão ser resolvidos com um único tratamento e, às vezes, é melhor direcionar o tratamento para os fatores que contribuíram para o quadro do que para o(s) agente(s) causal(is) diretamente. Uma visita ao local permite ao veterinário conhecer o estabelecimento de criação em sua totalidade, prestando uma especial atenção para:

  • O tutor e os métodos de criação utilizados;
  • Os animais e seu ambiente (p. ex., quais os animais criados no local, o alojamento empregado, a dieta oferecida);
  • O manejo dos animais (reprodução, criação dos filhotes caninos).
     

No próximo artigo seguiremos com a explicação de tratamentos e a conclusão desse conteúdo.

 

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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