ÁCIDO FÓLICO E FENDA PALATINA EM CÃES BRAQUICEFÁLICOS

publicado em: 07/06/2018

 

 

 

 

 

     AURÉLIEN GUILOTEAU, MENG (MESTRE EM ENGENHARIA)

     

     Centro de Pesquisas da Royal Canin, Aimargues, França

     

 

 

 

 

 

     ERIC SERVET, MENG (MESTRE EM ENGENHARIA)

     

     Centro de Pesquisas da Royal Canin, Aimargues, França

     

 

 

 

 

 

     VINCENT BIOURGE, DVM, PHD, DIPLOMATE ACVN & ECVCN
     (MÉDICO-VETERINÁRIO, COM DOUTORADO E DIPLOMADO PELA
     AMERICAN COLLEGE OF VETERINARY NUTRITION E EUROPEAN
     COLLEGE OF VETERINARY AND COMPARATIVE NUTRITION)

     

     Centro de Pesquisas da Royal Canin, Aimargues, França

     

 

 

 

 

 

     CLAUDE ECOCHARD, MENG (MESTRE EM ENGENHARIA)

     

     Centro de Pesquisas da Royal Canin, Aimargues, França

     

 

 

 

 

    INTRODUÇÃO

 

 

O termo genérico folatos é utilizado para designar vários complexos biológicos (>100) que possuem uma estrutura química semelhante e a mesma atividade biológica (o ácido fólico é um desses compostos). O ácido fólico (vitamina B9) é uma forma sintética não encontrada na natureza, mas utilizada na suplementação e no enriquecimento dos alimentos.
 

Quando combinados com a vitamina B12, os folatos desempenham um papel fundamental na síntese de ácidos nucleicos (bases purínicas e pirimídicas do DNA), na divisão celular e no metabolismo de alguns aminoácidos como a homocisteína. A ação dos folatos é frequentemente associada com a da vitamina B12. Os folatos são essenciais para a síntese de muitos neurotransmissores, como dopamina, noradrenalina e adrenalina e, por isso, exercem uma função importante no sistema nervoso central.

 

Nos fetos caninos, as fendas labiais e/ou palatinas originam-se da fusão anormal dos processos nasais e maxilares durante a embriogênese. Esse processo costuma ocorrer em torno do 33º dia de gestação. Em cães, o surgimento de fenda palatina foi experimentalmente induzido pela administração de um antagonista do ácido fólico (diazoxonorleucina) do 25º ao 28º dia de gestação.

 

As causas de tais doenças podem ser multifatoriais:

 

CAUSAS AMBIENTAIS:


Em mulheres, a exposição a teratógenos pode afetar o desenvolvimento embrionário. Uma ingestão relativamente alta de bebidas alcoólicas, nicotina, vitamina A, corticosteroides, agentes alquilantes, fenitoína e trimetadiona-troxidona foi relacionada com fendas palatinas.

 

O estado de saúde da mãe também pode contribuir para o desenvolvimento de fendas palatinas/labiais (p. ex., diabetes mellitus, distrofia miotônica).

 

CAUSAS GENÉTICAS:


Estudos explicaram o aparecimento de fendas palatinas e/ou labiais por mutações do gene da MTHFR (metilenotetra-hidrofolato redutase). O MTHRF desempenha um papel central no ciclo do folato, possibilitando a redução do folato em sua forma ativa.

 

As fendas labiais/palatinas já foram observadas em muitas raças caninas, incluindo Boxer, Buldogue francês, Buldogue inglês, Cavalier King Charles, West Highland Terrier Branco, Collie, Pastor alemão e Chihuahua. Contudo, os cães braquicefálicos, como o Boxer, parecem ser os mais comumente acometidos. Do mesmo modo, as raças de gatos Persa e Siamês podem ser acometidas por essa anormalidade. Uma quantidade de 6,5% dos filhotes felinos exibem deformidades ou defeitos congênitos que levam à morte, sendo a fenda palatina a anormalidade mais frequente.

 

BENEFÍCIO DA SUPLEMENTAÇÃO DO ÁCIDO FÓLICO:


Em seres humanos, a prevenção de tais condições requer a suplementação de ácido fólico. Pesquisas demonstraram uma redução de 48% no risco de fendas palatinas em filhos de mulheres que tomaram a suplementação polivitamínica antes de conceberem ou durante o 1º mês de gestação, embora não houve nenhuma diminuição desse risco para mulheres que começaram a suplementação no 2º ou 3º mês.

 

Os cães também parecem responder à suplementação de folato. Um estudo de observação retrospectivo em cães da raça Boston Terrier relatou uma diminuição na incidência de fendas palatinas em filhotes de 17,6% (1974-1981) para 4,2% (1981-1993) após a introdução da suplementação diária de cadelas com 5 mg de ácido fólico desde o acasalamento até 3 semanas após o parto. Essa ingestão não leva à erradicação completa do risco. Não foi demonstrado nenhum efeito adverso do fornecimento de ácido fólico (NRC, 1985). Na última edição (em vias de publicação, 2006), o NRC aconselha não ultrapassar 1.000 vezes a recomendação convencional de 0,18 mg/kg de matéria seca.

 

O objetivo do estudo foi validar o efeito da suplementação de ácido fólico (5 mg de ácido fólico/dia/cão) durante 18 meses em cadelas da raça Buldogue francês sobre a prevalência de fendas palatinas/labiais em suas ninhadas.

 

    MATERIAIS E MÉTODOS

 

ANIMAIS


Foram monitoradas 45 cadelas da raça Buldogue francês pertencentes a 5 criadores, ou seja, um total de 66 ninhadas nascidas. 24 cadelas pariram uma vez, 15 cadelas pariram duas vezes e 4 cadelas pariram 3 vezes. O peso médio das cadelas foi de 11,5 ± 1,9 kg.

 

DIETAS


Foram comparadas duas dietas diferentes:
 

1. Alimento-controle: dieta de manutenção Premium da Royal Canin: croquete contendo o ácido fólico em doses habituais (0,9 mg/kg de ração) (Tabela 1).

2. Alimento suplementado: dieta de manutenção Premium da Royal Canin + ácido fólico: croquete suplementado com essa vitamina (Tabela 1).

 

O alimento suplementado com ácido fólico foi preparado a partir da dieta-controle com a adição de um revestimento especial contendo 34,48 mg de ácido fólico/kg de ração. Isso corresponde a 5 mg de ácido fólico por dia, com base em um consumo de aproximadamente 145 g de alimento a 4.108 kcal/kg para uma cadela de 8 kg de peso corporal (peso-padrão da raça).

 

Os criadores só ofereceram o alimento fornecido por nós e as cadelas não receberam nenhuma ingestão adicional além das dietas sob avaliação. Foram atribuídos códigos aos alimentos, um para a dieta-controle e outro para a dieta suplementada, os quais os criadores desconheciam (teste único-cego). Ambas as dietas foram testadas em todos os criadores.

 

PROTOCOLO

Dois grupos de cadelas por criador foram divididos aleatoriamente entre 2 dietas.

 

As cadelas foram alimentadas com uma das duas dietas quando elas entraram no cio (ou seja, em torno de 2 semanas antes do primeiro acasalamento/fertilização) e durante as 6 primeiras semanas de gestação. Todos os tratamentos veterinários para garantir o bem-estar dos animais foram registrados. As cadelas com doenças concomitantes em que havia a possibilidade de efeitos secundários do tratamento sobre os filhotes foram excluídas do estudo.

Na hora do parto, os filhotes foram submetidos a um exame completo pelos criadores ou pelos veterinários que realizaram a cesariana, a fim de detectar a possível presença da anomalia.


 

    ANÁLISE ESTATÍSTICA

 

Foi realizada uma análise descritiva sobre os dados coletados (número de filhotes nascidos, número de fendas palatinas), com base nos questionários devolvidos.

Para identificar as diferenças significativas entre as duas dietas, foi efetuada uma análise de variância (ANOVA, sigla em inglês), utilizando um software disponível no mercado (Statgraphics Plus). O valor-F com valor-p inferior a 0,05 é considerado significativo. O teste qui-quadrado (X2) foi usado para avaliar o efeito do tratamento sobre a prevalência de fendas palatinas nas ninhadas.


TABELA 1. ANÁLISE DAS DIETAS

 






















 

    RESULTADOS

 

Foram monitoradas 35 ninhadas nascidas e mantidas sob o alimento-controle e 31 ninhadas nascidas e mantidas sob o alimento-teste. Os desempenhos reprodutivos estão resumidos na Tabela 2. A prevalência de fendas palatinas foi de 8,57% para o alimento-controle e 4,41% para o alimento suplementado.

 

A diferença no número de filhotes por ninhada entre os dois tratamentos não é significativa (Tabela 2) (valor-p = 0,3123, p > 0,05).

 

O número de fendas palatinas por ninhada e por dieta, em todas as ninhadas, foi significativamente reduzido com o alimento suplementado de ácido fólico (p= 0,02, p < 0,05).


 

    DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

 

O objetivo desse estudo a campo foi validar o benefício da suplementação de ácido fólico (5 mg/cadela/dia) de 15 dias antes do acasalamento até o final do período gestacional em cadelas da raça Buldogue francês sobre a prevalência de fendas palatinas em suas ninhadas.

 

Em Buldogues franceses, os resultados obtidos após 1 ano e meio de pesquisas indicaram que a suplementação de ácido fólico foi associada a uma redução de 48,54% em fendas palatinas. Esses resultados confirmam as observações de Elwood, que relatou uma diminuição de 76% no risco de fendas palatinas no Boston Terrier com uma suplementação de 5 mg de ácido fólico por dia por cadela.

 

Tal como acontece com as mulheres, a suplementação de folato em cadelas não significa a prevenção de todos os casos de fenda palatina. Isso provavelmente é explicado pela natureza multifatorial dessa condição.


TABELA 2. DESEMPENHOS REPRODUTIVOS




É essencial que a suplementação de folato seja administrada assim que a cadela entrar no cio (estro), uma vez que o tubo medular se fecha durante os primeiros meses de gestação (antes do 33º dia) em cadelas.

 

Não observamos um efeito da suplementação sobre o tamanho da ninhada.

 

Em suma, esse estudo confirma que a suplementação de folato nos primeiros meses da gestação de uma cadela reduziria significativamente os riscos de fenda palatina.