A NUTRIÇÃO DA CADELA GESTANTE

publicado em: 04/06/2018
    O CICLO SEXUAL

 

Em termos gerais, a cadela tem dois ciclos sexuais por ano. Contudo, sabe-se que determinadas raças apresentam cios menos frequentes (Retrievers, p. ex.), enquanto outras, cios mais frequentes (Pastor alemão, p. ex.). O ciclo sexual compreende vários estágios comportamentais com diferentes impregnações hormonais.

 

1. PROESTRO

 

O Proestro corresponde ao início do cio. Além de durar cerca de 10 dias, trata-se do período em que a cadela atrai os machos, mas se recusa a cruzar ou acasalar. De uma perspectiva hormonal, este é o início da síntese de estrogênio. É também durante essa fase que ocorre um pico de LH, sinalizando a ovulação.

 

2. ESTRO

 

O Estro é a fase em que a cadela está no cio, atrai os machos e ainda se mostra receptiva ao acasalamento. Essa fase, assim como o Proestro, varia em termos de duração. É geralmente durante essa fase que a cadela ovula, mas não de forma consistente. Nesse período, obviamente, a cadela exibe impregnação estrogênica maciça.

 

3. DIESTRO

 

Independentemente da cadela ter cruzado ou não e estar prenhe ou não após o cio, inicia-se a fase do Diestro. Essa fase dura por volta de dois meses — período durante o qual a cadela recusa o macho e secreta altos níveis de progesterona pelo corpo lúteo presente nos ovários.

 

4. ANESTRO

 

O Anestro é o período de repouso imediatamente posterior ao Diestro. Durante esse período, são secretados pouquíssimos hormônios sexuais.

 

 

    GESTAÇÃO

 

A gestação tem uma duração relativamente fixa na cadela: 63 dias (+/- 1) quando a data de referência selecionada é a data de ovulação. Essa baixa variabilidade é um dado ainda mais interessante, pois permite uma melhor orientação da data prevista de parto e possibilita um melhor preparo da cadela.

A gestação é dividida em dois estágios importantes na cadela: a fase embrionária e a fase fetal.

 

1. A FASE EMBRIONÁRIA

 

Os órgãos começam a se desenvolver durante essa fase. Entre outros eventos marcantes, podemos observar o aparecimento das pálpebras com 32 dias, o fechamento do palato com 33 dias e a separação dos dedos com 35 dias. Se o palato não for fechado até o final dessa fase, por exemplo – dando origem ao que chamamos de fenda palatina – o processo não será concluído em uma data subsequente durante a gestação. Ao término desta embriogênese, os futuros filhotes permanecem extremamente leves, porém a maioria das estruturas é formada e todos os órgãos começaram a se desenvolver. O embrião, agora, é um feto.

 

2. A FASE FETAL

 

Esta é fase de ganho de peso. Mais de 75% do peso do filhote ao nascer são adquiridos pelo feto após o 40º dia de gestação. No final desta fase, determinados órgãos são de desenvolvimento tardio. Este pode ser o caso da pelagem, por exemplo. A ausência desses órgãos é um sinal de afecção ou problema nos últimos dias da gestação, imediatamente antes do parto.

 

 

    NECESSIDADES NUTRICIONAIS DA CADELA GESTANTE

 

Pouquíssimos estudos têm demonstrado um interesse pela nutrição na cadela no início da gestação, pois eles tendem a focar no terço final da gestação — período durante o qual as principais alterações nutricionais devem ser respeitadas. Porém, os requerimentos nutricionais no início da gestação das cadelas são acentuadamente distintos dos necessários no terço final, como a seguir:

ENERGIA: O primeiro objetivo nutricional para a cadela no início da gestação é manter o peso corporal ideal. O excesso de peso precoce durante a gestação pode ter um efeito nocivo sobre a saúde da cadela. Por exemplo, uma cadela com peso acima do ideal (sobrepeso) irá armazenar energia sob a forma de gordura; ocasionalmente, essa gordura pode ser armazenada no músculo. A presença dessa gordura dentro da musculatura diminui a eficácia do trabalho muscular. Devemos lembrar que o útero possui uma camada muscular (miométrio), responsável pelas contrações. Uma cadela com excesso de gordura, portanto, terá contrações uterinas menos eficientes, dando origem a um aumento no risco de atonia uterina, distocia materna e, consequentemente, de cesariana. Isso também aumenta a taxa de mortalidade neonatal ligada ao parto prolongado e ao sofrimento fetal.
 

L-CARNITINA: A dieta que contém uma fonte extra de L-carnitina comprovadamente ajuda a manter um maior índice de massa magra e a diminuir o índice de massa gorda durante a perda de peso em cães; a L-carnitina também promove a perda de peso (Allen 1998; Carroll et Cote 2001; Gross et Zicker 2000; Sunvold, Tetrick, et Davenport 1998). A L-carnitina garante o transporte de ácidos graxos na mitocôndria para a produção de energia dentro dos músculos.
 

VITAMINA A: É importante considerar a vitamina A (frequentemente conhecida como a vitamina do epitélio ou a vitamina reprodutiva) ao se abordar as necessidades nutricionais da cadela prenhe. Na cadela prenhe, devemos lembrar que o conteúdo plasmático da vitamina A é mais baixo do que na cadela não prenhe, em particular no início da gestação. Essa observação pode, sem dúvida, ser correlacionada com uma alta demanda de vitamina A em função dos anexos fetais e do embrião (C I Vannucchi, Jordao, et H Vannucchi 2007).
 

VITAMINA E: Os teores plasmáticos de vitamina E na cadela prenhe são menores do que nas cadelas não prenhes. Esse declínio pode ser explicado por uma elevação no estresse oxidativo na cadela prenhe ou por um sequestro de vitamina E pelo feto (C I Vannucchi, Jordao, et H Vannucchi 2007).
 

TIROSINA: A suplementação de tirosina deu origem a um maior número de cadelas prenhes (27/36 versus 22/36, em comparação ao ciclo prévio não suplementado), um sangramento vaginal mais visível (33/36) e uma maior receptividade ao macho (35/36 das fêmeas exibiram uma receptividade mais elevada). Nesse estudo, o alimento de teste foi suplementado com 100 mg/kg de peso corporal (Aumann, 1987).
 

ÁCIDO FÓLICO (VITAMINA B9): Foi observada uma queda na taxa de incidência de fendas palatinas de 17,6 para 4,2% em filhotes da raça Boston terrier, depois que as cadelas haviam recebido uma suplementação de ácido fólico de 5 mg desde a época do acasalamento até os filhotes terem atingido 3 semanas de vida (Elwood et Colquhoun 1997). Um outro estudo, incluindo 45 cadelas, 66 ninhadas e 311 filhotes, revelou uma diminuição nas fendas palatinas de 8,57 (no grupo-controle: ácido fólico = 0,9 ppm) para 4,41% dentro do grupo suplementado (34,5 ppm) (Guillauteau 2006). Assim, apesar da fenda palatina e lábio leporino serem de etiologia multifatorial, a nutrição adequada com níveis apropriados de ácido fólico é fundamental na prevenção dessas enfermidades.
 

EPA / DHA: EPA e DHA são ácidos graxos ômega-3 que desempenham uma série de papéis dentro do organismo. Vários estudos demonstraram o interesse por esses ácidos graxos em cadelas reprodutoras, particularmente seu efeito benéfico (sobretudo do DHA) sobre as funções cognitivas futuras dos filhotes (Heinemann et coll. 2005; Heinemann 2004).
 

BETACAROTENO: Os betacarotenos são os precursores da vitamina A no cão. Além de seu efeito antioxidante, eles protegem o feto em desenvolvimento contra os radicais livres. Com uma ingestão de 50 mg de betacaroteno por cão, esse nutriente favorece a secreção de progesterona na cadela em metaestro entre o 12º e o 56º dia após a ovulação, protegendo o citocromo P450 contra os fenômenos oxidativos (Weng et coll. 2000).
 

ANTIOXIDANTES: Vários estudos conduzidos no Centro da Waltham revelaram que a suplementação das vitaminas E e C, além de luteína e taurina, deu origem às seguintes consequências:

  • Aumento nos níveis circulantes de antioxidantes plasmáticos no cão adulto;
     
  • Declínio no ataque ao DNA por fenômenos oxidativos (Heaton et coll. 2002; Heaton, Smith, et Rawlings).
     
 



    NÍVEL ENERGÉTICO IDEAL:      
    Um conteúdo calórico que supre as necessidades energéticas de cadelas em reprodução, desde o 
    1º dia do cio até o 42º dia de gestação. A L-carnitina ajuda a promover o metabolismo de gordura. É
    recomendável que as porções diárias sejam monitoradas para evitar ganho de peso em excesso que
    possa comprometer a saúde do animal.

     

 


    PERFIL NUTRICIONAL IDEAL:      
    Perfil ideal de nutrientes, otimizado para o início da gestação em cadelas: altos níveis de vitamina A
    e E, além de tirosina, ácido fólico e EPA & DHA.

     

 


    TOLERÂNCIA DIGESTIVA IDEAL:     
    
Tolerância ideal para o trato digestório, graças ao uso de fontes de carboidrato e proteína de
    altíssima qualidade, bem como EPA & DHA. 

     

 


    NÍVEL ELEVADO DE ANTIOXIDANTES:      
    Vitaminas E e C, luteína, betacaroteno, taurina: nutrientes que contribuem para neutralizar a ação
    de radicais livres.

     


 

Na segunda fase o requerimento energético é maior que na primeira fase, já que há um expressivo crescimento dos filhotes, além dos intensos cuidados com a saúde digestiva da mãe e produção de leite. Os benefícios esperados de um alimento na segunda fase de gestação são os seguintes:
 

  • SEGURANÇA DIGESTIVA:  Complexo de nutrientes que garantem o máximo aproveitamento dos nutrientes ingeridos.
     
  • SUPORTE DURANTE A GESTAÇÃO E A LACTAÇÃO: Perfil nutricional adequado às altas necessidades energéticas da fêmea no final da gestação e durante a lactação.
     
  • TRANSIÇÃO DO LEITE MATERNO: Resposta nutricional com valor energético adequado, proteína de alta qualidade e alto teor de gordura facilitando a transição do leite materno para o alimento sólido.
     
  • REIDRATAÇÃO DOS CROQUETES: Croquetes facilmente reidratados a uma consistência ideal muito palatável para a fêmea e seus filhotes no desmame.

 

 

    NECESSIDADES DOS FILHOTES

 

Os filhotes, ao nascerem, devem receber o colostro materno (primeiro leite) que é rico em anticorpos que auxiliarão na defesa do organismo do recém-nascido. Os filhotes se alimentarão com o leite materno até, aproximadamente, 30-40 dias de vida, quando, então, iniciarão a fase de desmame. Nesse momento, os filhotes serão apresentados ao alimento úmido, posteriormente, ao semi-sólido e, depois, ao sólido de forma gradativa, porém lenta para que não ocorra nenhum distúrbio gastrintestinal, como, por exemplo, diarreia.

A alimentação no desmame deve conter teores adequados de energia para sustentar o crescimento do filhote, nutrientes que garantam segurança digestiva com o máximo aproveitamento dos nutrientes ingeridos e croquetes com a tecnologia de reidratação para facilitar a preensão pelo filhote sem alterar o perfil nutricional do alimento.

A fase de filhote varia de acordo com o porte do cão. Cães de porte pequeno crescem até os 10 meses de vida, porte médio até os 12 meses, grande até 15-18 meses e gigantes até 24 meses. Assim, torna-se necessário um alimento específico para cada porte de cão, desde a fase de filhote.
 

A alimentação específica para a cadela gestante e futuras crias é fundamental para garantir a saúde, bem-estar e qualidade de vida de mães e filhotes.

 

 

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

  • Aumann J. (1987) Beitrag zur Behandlung von Fertilitätsstörungen der Deutschen Schäferhündin. Diss med vet, Ludwig-Maximilians-Universität München.
     
  • Allen, TA. 1998. The effect of carnitine supplementation on body composition in obesity prone dogs présenté au Proceedings. Symposium ‘L-carnitine-What difference does it make?
     
  • Carroll, M. C., et E. Cote. 2001. Carnitine: a review. COMPENDIUM ON CONTINUING EDUCATION FOR THE PRACTISING VETERINARIAN-NORTH AMERICAN EDITION- 23, no. 1: 45-55.
     
  • Gross, K. L., et S. C. Zicker. 2000. L-Carnitine increases muscle mass, bone mass, and bone density in growing large breed puppies. J Anim Sci 78, no. 1: 176.
     
  • Guillauteau, Aurélien. 2006. Folic acid and cleft palate in brachycephalic dogs. Waltham focus 16, no. 2: 30-33.
     
  • Heaton, Paul R, Catrina F Reed, Sarah J Mann, Raymond Ransley, Joy Stevenson, Chris J Charlton, Brigitte H E Smith, E Jean Harper, et John M Rawlings. 2002. Role of dietary antioxidants to protect against DNA damage in adult dogs. The Journal of Nutrition 132, no. 6 Suppl 2 (Juin): 1720S-4S.
     
  • Heinemann, Kimberly M. 2004. Enrichment of canine gestation and lactation diets with N-3 polyunsaturated diets with n-3 polyunsaturated fatty acids to support neurologic devlopment. Texas A&M University.
     
  • Heinemann, Kimberly M, Mark K Waldron, Karen E Bigley, George E Lees, et John E Bauer. 2005. Long-chain (n-3) polyunsaturated fatty acids are more efficient than alpha-linolenic acid in improving electroretinogram responses of puppies exposed during gestation, lactation, and weaning. The Journal of Nutrition 135, no. 8 (Août): 1960-6.
     
  • Sunvold, GD, MA Tetrick, et GM Davenport. 1998. Carnitine supplementation promotes weight loss and decrease adiposity In the canine présenté au Proceedings of XXIII Congress of the Wolrd Small Animal Veterinary Association, Octobre, Buenos Aires, Argentina.
     
  • Vannucchi, C I, A A Jordao, et H Vannucchi. 2007. Antioxidant compounds and oxidative stress in female dogs during pregnancy. Research in Veterinary Science 83, no. 2 (Octobre): 188-93. doi:10.1016/j.rvsc.2006.12.009.
     
  • Weng, B. C., B. P. Chew, T. S. Wong, J. S. Park, H. W. Kim, et A. J. Lepine. 2000. Beta-carotene uptake and changes in ovarian steroids and uterine proteins during the estrous cycle in the canine. J. Anim Sci. 78, no. 5 (Mai 1): 1284-1290.