Benefícios de betaglucanos, butirato e betacaroteno na alimentação de cadelas gestantes, lactantes e filhotes de cães.

publicado em: 23/05/2018
    INTRODUÇÃO


A alimentação da cadela gestante, lactante e do filhote deve conter nutrientes específicos que proporcionem a saúde digestiva associada a propriedades antioxidantes. Dentre eles, betaglucanos, butirato e betacaroteno são nutrientes importantes para o bom funcionamento do trato gastrintestinal e seus benefícios serão descritos a seguir.
 


BUTIRATO
 

Foi descoberto que o butirato constitui a fonte de energia preferida para os colonócitos. Estudos revelaram que os colonócitos isolados oxidavam o butirato a uma velocidade 4,5 vezes maior que a glicose. Esses estudos implicam o butirato como um importante “combustível” para o epitélio intestinal.

Parece que o butirato é capaz de modular, até certo ponto, a permeabilidade intestinal. Na virada desse século, foi comprovado que as infusões cecocólicas de ácidos graxos de cadeia curta possam estimular a liberação local de muco (Shimotoyodome et al., 2000). Sugere-se que o butirato tenha propriedades imunomoduladoras mais pronunciadas. Esse nutriente parece exercer um efeito sobre as células imunológicas, bem como sobre as células epiteliais do cólon. As últimas são, na verdade, afetadas em primeiro lugar pela imunidade intestinal, levando-se em conta a alta concentração de células imunológicas localizadas na junção ileocecal (essa zona possui um alto nível de placas de Peyer), ou seja, o final do íleo representa a parte mais rica do intestino delgado a partir desse ponto de vista. Por isso, foi demonstrado que, quando confrontados com determinados antígenos, os linfócitos-T são incapazes de reagir e isso se deve ao butirato (Böhmig et al., 1997).

A proliferação celular no epitélio colônico saudável é estimulada pelo butirato (Whitehead et al., 1986). Existe uma relação muito estreita entre os ácidos graxos de cadeia curta e a absorção de nutrientes, como sódio, potássio, cloro e água. Em relação ao último nutriente, parece que o efeito é mais significativo na região distal do cólon que na região proximal desse segmento intestinal (Bowling et al., 1993). Isso se refere a uma relação indireta ligada às propriedades estimulantes da absorção de sódio pelos ácidos graxos voláteis. Essa interação iônica parece dependente do pH. Ao se utilizar um gotejamento colônico, a absorção de sódio aumenta quando o pH se torna ácido (Crump et al., 1980). Dessa forma, trata-se claramente de um efeito prebiótico, já que um pH ácido é favorável à flora benéfica (os lactobacilos em particular) (Hesta et al., 2008). Hesta e colaboradores, em 2008, observaram que o conteúdo estimado de “N (nitrogênio)/proteína” de bactérias fecais era significativamente menor na dieta suplementada com butirato (isso pode ser atribuído à inibição do metabolismo de células bacterianas como resultado da acidificação do lúmen) — efeito prebiótico — embora a concentração fecal de bactérias benéficas à saúde não tenha sofrido alteração.
 

BETA 1,3/1,6-GLUCANOS
 

O beta-1,3/1,6-glucano na levedura de panificação interage com o sistema imunológico no tecido da mucosa intestinal, mas não é absorvido pelos líquidos corporais. Ao interagir com o sistema imunológico associado ao intestino, o beta-1,3/1,6-glucano afeta as funções biológicas em todo o corpo, mas prepara as células-B produtoras de anticorpos para produzir muitos dos anticorpos que são secretados no muco (IgA). Isso explica porque a estimulação do sistema imunológico no intestino pode alterar a resistência a doenças de todo o organismo e, particularmente, formar uma barreira protetora reforçada nas superfícies corporais.

Os fagócitos e as células natural killers possuem receptores de superfície que reconhecem as moléculas de beta-1,3/1,6 glucano e se ligam a elas. Esses fagócitos (leucócitos) constituem a linha de frente de defesa do organismo. A ligação da molécula de betaglucano ao fagócito deflagra a produção e a secreção de mais substâncias antimicrobianas pelos fagócitos e, ao mesmo tempo, essas células se tornam mais ativas na destruição de microrganismos invasores, células tumorais e células mortas. O beta-1,3/1,6-glucano também estimula a produção de diferentes moléculas sinalizadoras (citocinas) pelas mesmas células. Tais moléculas alteram vários processos biológicos no organismo. Algumas dessas citocinas reforçam o recrutamento de leucócitos, outras ativam os leucócitos produtores de anticorpos (células-B) e outras ainda neutralizam a inflamação. Isso explica porque o beta-1,3/1,6-glucano de leveduras aumenta não só a resistência geral a doenças, mas também a eficácia de vacinas. Também explica porque o beta-1,3/1,6-glucano diminui os efeitos tóxicos de produtos microbianos provenientes de tecidos infectados no corpo.
 

BETACAROTENO
 

O betacaroteno e as substâncias relacionadas, como a luteína e o licopeno, derivam-se de plantas, não sendo sintetizados por via endógena pelos cães ou gatos. O betacaroteno pode servir como um precursor da vitamina A no cão. Além dessa função, os carotenoides também têm propriedades antioxidantes. O betacaroteno pode ser absorvido pelo plasma sanguíneo e pelos leucócitos após a administração oral em cães. Além disso, foi demonstrado que o betacaroteno estimula a resposta imune em cães.

Dessa forma, a associação de butirato, betaglucanos e betacaroteno nos alimentos é extremamente benéfica para cadelas gestantes, lactantes e filhotes de cães, uma vez que melhora a função do trato gastrintestinal e consequente absorção de nutrientes.


 

    REFERÊNCIAS

 

  • Bohmig G, Krieger P, Saemann M, Wenhardt C, Pohanka E, Zlabinger G (1997) N-butyrate downregulates the stimulatory function of peripheral blood-derived antigen-presenting cells: a potential mechanism for modulating T-cell responses by short-chain fatty acids. Immunology  92(2): 234-43.
     
  • Bowling T, Raimundo A, Grimble G, Silk D (1993) Reversal by short-chain fatty acids of colonic fluid secretion induced by enteral feeding. Lancet 342(8882):1266-8.
     
  • Crump MH, Argenzio RA, Whipp SC (1980) Effects of acetate on absorption of solute and water from the pig colon. Am J Vet Res 41(10): 1565-8.
     
  • Hesta M et al (2008). Dietary supplementation of coated butyrate in healthy dogs, effect on digestibility, fecal flora and SCFA; Vet Med 53;147-152.
     
  • Shimotoyodome A, Meguro S, Hase T, Tokimitsu I, Sakata T (2000) Short-chain fatty acids but not lactate or succinate stimulate mucus release in the rat colon. Comp Biochem Physiol A Mol Integr Physiol 125(4): 525-31.
     
  • Whitehead R, Young G, Bhathal P (1986) Effects of short chain fatty acids on a new human colon carcinoma cell line (LIM1215). Gut 27(12): 1457-63.