Achados clínicos em gatos e cães com doença renal crônica

publicado em: 07/05/2018
  INTRODUÇÃO


A doença renal crônica, anteriormente conhecida como insuficiência renal crônica, é uma enfermidade comum em animais de idade avançada; 7,9% dos gatos e 1,5% dos cães com >10 anos de idade atendidos na rede de hospitais veterinários Banfield em 2012 foram diagnosticados com a doença. A natureza progressiva e irreversível do dano renal influencia na expectativa e na qualidade de vida dos animais acometidos. Portanto, é importante compreender as condições demográficas e clinicopatológicas típicas dos animais diagnosticados pela primeira vez com doença renal crônica na clínica veterinária geral.

 

  MÉTODO DE ANÁLISE

Nesse estudo, foram incluídos os gatos e cães diagnosticados pela primeira vez com doença renal crônica no período compreendido entre 2011 e 2012 em qualquer um dos 815 hospitais da rede Banfield. Um dos requisitos para a inclusão no estudo era que os pacientes já tivessem sido atendidos no hospital pelo menos uma vez antes do diagnóstico de doença renal crônica. As variáveis registradas no momento do diagnóstico de doença renal crônica incluíram idade, peso corporal, sexo, estado reprodutivo (intacto ou castrado) e porte da raça (para os cães apenas, nesse caso). Outras variáveis obtidas, próximas do diagnóstico de doença renal crônica (bem antes ou bem depois), foram as seguintes: concentrações séricas de creatinina, fosfato, cálcio e potássio; densidade urinária; presença de sobrepeso*, obesidade ou subpeso; e tipo de dieta fornecida (úmida, seca ou mista). Também foi registrado se havia um diagnóstico prévio ou existente de doença periodontal, cistite, hipertireoidismo, hipertensão ou diabetes mellitus.

As estatísticas resumidas** foram calculadas sob a forma de porcentagens e média desvio-padrão nos casos de distribuição normal ou como mediana (intervalo) naqueles que não apresentaram uma distribuição normal. O teste qui-quadrado foi utilizado para comparar as proporções de animais com doença renal crônica em relação à população de pacientes em geral segundo o estado reprodutivo, o porte da raça e os tipos de dietas, bem como com a população geriátrica em geral (ou seja, ≥10 anos de idade) no que diz respeito à prevalência de várias doenças. Os valores de P < 0,01 foram considerados significativos.


*. N. de T.: Sobrepeso é uma condição corporal acima do ideal, enquanto subpeso é uma condição corporal abaixo do ideal.
**. N. de T.: Dados estatísticos expressos de forma sucinta.

 

  RESULTADOS


Um total de 11.752 gatos e 7.293 cães atendeu aos critérios de inclusão do estudo. A idade média ± desvio-padrão dos gatos com doença renal crônica foi de 13,5 ± 4,2 anos, sendo que 81% (9.516/11.752) tinham ≥10 anos de idade. A idade média ± desvio-padrão dos cães foi de 10,9 ± 4,1 anos, com 65,3% (4.762/7.293) tendo ≥ 10 anos de idade.

As comparações com a população de pacientes em geral revelaram que as fêmeas castradas (6.022/11.752; 51,3%) e os machos castrados (5.266/11.752; 44,8%) de gatos são super representados em termos estatísticos (P < 0,001) entre os felinos com doença renal crônica em relação à população geral (36,6 e 36,5%, respectivamente). O mesmo aconteceu com as fêmeas castradas (3.630/7.293; 49,8% versus 36,5% na população em geral), mas não para os machos castrados (2.590/7.293; 35,5% versus 36,6% na população em geral) de cães. Os machos e fêmeas intactos eram sub-representados em ambas as espécies com doença renal crônica. Não houve diferenças significativas evidentes na distribuição de portes de raças em cães com doença renal crônica, em comparação com a distribuição na população em geral, nem houve nenhuma diferença evidente entre os gatos e cães com doença renal crônica e a população em geral quanto ao tipo de alimento consumido.

A prevalência de gatos e cães com doença renal crônica, os quais também sofriam de subpeso e doença periodontal, foi muito maior do que na população em geral com > 10 anos de idade (Tabela 1). Também era mais provável que os gatos e cães com doença renal crônica tivessem cistite, hipertireoidismo, diabetes mellitus e/ou hipertensão.

 

Tabela 1: Distribuição de comorbidades em cães e gatos com doença renal crônica.
 
Diagnóstico Número (%) de todos os gatos com doença renal crônica (n = 11.752) % na população geral de pacientes felinos geriátricos
(n = 162.102)
Número (%) de todos os cães com doença renal crônica
(n = 7.293)
% na população geral de pacientes caninos geriátricos (n = 420.203)
Sobrepeso 813 (6,9)a 23,5 705 (9,7)a 26,0
Subpeso 1.212 (10,3)b 5,5 396 (5,4)b 1,8
Doença periodontal 3.312 (28,2)b 19,6 3.006 (41,2)b 27,4
Cistite 1.838 (15,6)b 6,8 1.081 (14,8)b 3,7
Hipertireoidismo 1.081 (9,2)b 6,3 13 (0,2)b 0,1
Diabetes mellitus 406 (3,5)b 3,2 120 (1,7)b 1,1
Hipertensão 122 (1,0)b 0,3 81 (1,1)b 0,2


a O valor é signicativamente (P < 0,01) inferior ao da população em geral.
b O valor é signicativamente superior ao da população em geral.

 

  DISCUSSÃO


Essa análise básica revelou alguns achados e descobertas interessantes que podem ajudar os clínicos na formulação do índice de suspeita de doença renal crônica em gatos e cães, particularmente naqueles de ≥ 10 anos de idade com subpeso e outras enfermidades concomitantes. Apesar de inespecíficos, os sinais clínicos associados à doença renal (p. ex., letargia, desidratação, vômitos ou poliúria/polidipsia) também são úteis para levantar a suspeita de doença renal crônica. Os valores séricos de creatinina dentro dos intervalos de referência nos primeiros estágios da doença renal crônica, assim como a alta prevalência dessa enfermidade em gatos aparentemente sadios, dificultam o diagnóstico caso este seja feito apenas com base nesses limites de referência. É necessária a realização de mais pesquisas e estudos para entender melhor o curso natural da doença renal crônica e as variações percentuais das análises possivelmente previstas nos primeiros estágios da doença, momento em que o manejo adequado pode retardar a evolução da doença e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

 

  REFERÊNCIAS

 

  1. Iris 2009 staging of CKD (sistema de estadiamento de Doença Renal Crônica, formulado pela IRIS, 2009). Disponível em: www.iriskidney.com/pdf/IRIS2009_Staging_CKD.pdf. Acesso em 13 de maio de 2013.
  2. Reference Guides. In: Aiello SE, Moses MA, eds. The Merck Veterinary Manual. 8.ed. Whitehouse Station, NJ: Merck Sharp & Dohme Corp, 2012. Disponível em http://www.merckmanuals.com/vet/appendixes/reference_guides/normal_rectal_temperature_ranges.html?WT.z_resource-Reference%20Guides. Acesso em 15 de maio de 2013.