Manejo nutricional de doença renal crônica felina

publicado em: 23/04/2018
  INTRODUÇÃO

A Doença Renal Crônica é uma enfermidade frequente de gatos de idade avançada, embora ela possa ocorrer em animais mais jovens em consequência de um distúrbio congênito (p. ex., displasia renal) ou adquirido (p. ex., sequela de lesão renal aguda). Em um estudo recente, 26% dos gatos com > 9 anos de idade que estavam saudáveis na avaliação inicial desenvolveram azotemia dentro de um ano. Embora a Doença Renal Crônica seja basicamente de natureza progressiva, o médico-veterinário desempenha um papel fundamental para adiar o inevitável: em primeiro lugar, mediante a detecção precoce da Doença Renal Crônica e, em segundo lugar, pela instituição de mudanças adequadas da dieta (juntamente com fluidoterapia e medicamentos), o que pode melhorar a qualidade e a expectativa de vida de gatos com essa doença.

 

  IMPLEMENTAÇÃO PRÁTICA DA NUTRIÇÃO

Antes de iniciar o manejo nutricional, qualquer distúrbio hidreletrolítico e acidobásico deverá ser corrigido por meio de tratamento médico, principalmente se o paciente estiver sofrendo uma crise urêmica, a fim de maximizar as chances de aceitação da dieta renal.

 

ATENDENDO ÀS NECESSIDADES ENERGÉTICAS

 

A perda de peso em gatos com doença renal crônica se deve à ingestão insuficiente de calorias, cuja origem é multifatorial. As causas incluem náuseas pelo acúmulo de produtos residuais nitrogenados; anemia e desidratação; distúrbios eletrolíticos e acidobásicos; úlceras nas mucosas bucais e gastrintestinais (em estágios avançados da doença); possível alteração do olfato; e menor palatabilidade de dietas pobres em proteínas e fósforo.

O objetivo é fornecer uma quantidade suficiente de calorias, para que o gato alcance e mantenha um escore de condição corporal ideal (5/9). Embora as equações preditivas possam ser utilizadas como ponto de partida para determinar a ingestão diária de calorias, essa tolerância calórica deve ser avaliada regularmente, com base nas alterações do peso e do escore de condição

corporal, já que as necessidades energéticas podem variar na população de gatos. Do mesmo modo, o objetivo para os gatos internados é atender às necessidades energéticas em repouso (70 kcal x peso[kg]0,75), com subsequentes reavaliações do peso e reajustes, conforme a necessidade.

 

SELECIONANDO A DIETA

 

Existem várias dietas comerciais formuladas para a doença renal, disponíveis em diversas apresentações (seca, enlatada, pedaços ao molho, etc.). Embora a maioria delas seja restrita em relação às proteínas e ao fósforo com níveis abaixo daqueles encontrados nas dietas de manutenção (incluindo os alimentos seniors, ou seja, para gatos de idade avançada), os graus de restrição e a palatabilidade variam, bem como outros fatores nutricionais que podem ser importantes para o paciente. É recomendável a obtenção de informações nutricionais atualizadas junto aos fabricantes, pois podem ocorrer reformulações da dieta com o passar do tempo.Em alguns países, existem dietas renais de textura líquida, especificamente formuladas para a administração através de tubos nasoesofágicos em gatos internados. Qualquer dieta renal de textura úmida (i. e., em latas) pode ser batida no liquidificador e administrada através de tubos de diâmetro maior (aqueles inseridos por esofagostomia ou gastrostomia), conforme descrito na tabela a seguir:
 

IMPLEMENTAÇÃO DE UM PLANO NUTRICIONAL EM GATO COM TUBO DE ALIMENTAÇÃO
 
 

  Selecione a dieta renal apropriada para o paciente e determine o conteúdo calórico de uma lata ou um sachê (informações obtidas a partir do fabricante). P.ex., 200kcal/lata
 

  Coloque uma determinada quantidade de dieta no liquidificador (p. ex., 1 lata) e adicione água suficiente até obter uma consistência pastosa de mistura, a tal ponto que ela possa ser facilmente introduzida e empurrada através do tubo de alimentação. O volume de água adicionada precisa ser contabilizado no plano geral de administração de líquidos.
 

  Meça o volume final da mistura e calcule a densidade energéticas da mistura final. P. ex., adicione 50mL de água a 1 lata (200kcal) até obter uma consistência adequada, para que a mistura seja introduzida e empurrada através de tubo de esofagostomia ou gastrostomia de 14 French. Se o volume total for de 220mL e a densidade calórica de 200 kcal/220mL, isso dará 0,9kcal/mL.
 

  A partir do cálculo das necessidades energéticas em repouso (NER) e do plano de alimentação, calcule o volume que o paciente deverá receber por dia e a cada refeição. P. ex., a NER de um gato de 3,0kg é igual a 160 kcal/dia durante a internação, o que equivale a 160/0,9 ≈ 180 mL/dia da pasta ou 45 mL em cada refeição se alimentando 4 vezes por dia.
 

  Após cada alimentação, o tubo deverá ser lavado com uma quantidade suficiente de água (alguns mLs) para evitar o entupimento ou obstrução.
 

  A mistura deve ser armazenada na geladeira por, no máximo, 24 horas. Agite e aqueça a temperatura corporal antes de administrar uma nova refeição.

 



USO DE QUELANTES DE FOSFATO INTESTINAL

 

A manutenção dos níveis de fosfato sérico dentro de uma faixa alvo (disponível nas diretrizes da IRIS) é um dos objetivos do manejo da doença renal crônica. Se a restrição de fósforo na dieta por si só não for suficiente, é recomendável a adição de quelantes desse elemento, com a sua dose titulada até fazer efeito. Para a sua eficácia, esses quelantes devem ser administrados juntamente com os alimentos ou muito próximos das refeições. A administração desses quelantes pode diminuir a palatabilidade do alimento, mas esse problema é contornado com o uso dos tubos de alimentação. O cátion contido nesses agentes liga-se ao fosfato no lúmen intestinal, formando um complexo insolúvel e não absorvível, o qual é eliminado pelas fezes.

 

  MONITORAMENTO

 

Uma vez implantado o plano nutricional, deve-se reavaliar o paciente após 2-3 semanas e, em seguida, duas a quatro vezes ao ano (dependendo do estágio da doença) para reajustar a terapia clínica e nutricional, conforme a necessidade, e garantir a obediência do tutor ao tratamento. Deve-se registrar a quantidade de alimento realmente consumida, e não a que foi oferecida, bem como de qualquer petisco ou suplemento fornecido. As curvas de peso corporal e do escore de condição corporal são ferramentas simples e valiosas de acompanhamento que podem ajudar a determinar o momento certo para a implementação de novas estratégias nutricionais (p. ex., colocação de tubo de alimentação). O exame de sangue fornece informações quanto à adequabilidade do plano dietético (p. ex., níveis séricos de fosfato ou potássio, estado acidobásico, BUN, etc.).

 

  CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A nutrição adequada constitui a base do tratamento de doença renal crônica felina, pois ela retarda a evolução da doença e melhora a qualidade de vida dos pacientes. As modificações nutricionais devem ser instituídas nos primeiros estágios da doença e, subsequentemente, ajustadas às necessidades de cada paciente, com base no monitoramento estreito e rigoroso dos parâmetros físicos e laboratoriais.